Paredes Brancas

Sobre o inesperado

Por Julhia Quadros

Em uma relação amorosa de longa data, há sempre diversos momentos de proximidades e distanciamentos, que se dão por meio do confronto entre as idiossincrasias das duas pessoas que estão convivendo de uma forma íntima. É o relacionamento amoroso e o cotidiano de um casal, que está em fase de mudança de apartamento, que retrata o curta metragem “Paredes Brancas” (2015), dirigido por Anna Clara Chermont. No primeiro plano, vê-se os dois separando livros e trocando olhares e, através dos títulos, introduzindo temas como ciúmes, virtudes, amor e guerra, sugerindo o tempo passado entre eles e o que se apresentara anteriormente na convivência. Patrícia Niedermeier e Rodrigo Fonseca vivem Roberta e Pedro, que se relacionam há cinco anos e, ao arrumarem o apartamento para a eventual mudança revivem diversos conteúdos do passado, revisitando, inclusive, a noite em que se conheceram e suas primeiras impressões.

Logo ao começo, ela recebe uma notícia importante, que mudará o relacionamento e a vida de ambos, percebe-se o nervosismo dela e a expectativa que a obra cria para a chegada dele, através do plano da saída do elevador e entrada na casa. O que se segue é uma discussão deles sobre visões de mundo e expectativas de vida projetadas sobre os planos para a nova casa, o que, sabe ela, tornar-se-á uma nova forma de vida. Entre argumentações sobre viver o presente e planejar o futuro, vê-se a tensão entre os dois e a apreensão com a mudança.

Após o pedido de Roberta para que Pedro não fale com ela, ao que ele responde fazendo anotações para ela ao invés de perguntar verbalmente, o filme retoma a linguagem das palavras escritas, iniciada no primeiro plano com os livros. A partir disto, há planos de escrita na pele, gerando uma maior aproximação entre as palavras e a imagem representada na tela. Desta forma, a interação entre eles evolui para interações mais profundas e assuntos sobre a escolha que eles fizeram ao optarem pelo relacionamento. É comum que assuntos decisivos e íntimos venham à tona nas mais comuns cenas e afazeres do cotidiano, na vida dividida e nos dias que, aparentemente, nada têm de único ou especial e é em uma situação assim que Roberta anuncia a gravidez e a imensa mudança que os esperam.

A obra “Paredes Brancas”, produzida pela Cavideo, explora constantemente a presença de cores, o lilás e o vermelho cogitados para a pintura da parede e ou a metáfora da brancura, como um futuro incerto que os esperaria, onde poderiam escrever o que quisessem ou o que acontecesse. Esta analogia também está presente na escrita nos corpos um do outro, por meio do conceito de que as pessoas seriam também sujeitos prontos a experimentar o mundo e escrever suas próprias histórias. É uma obra sobre expectativas, inesperado e planejamento para o futuro.

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