MODELO MALÁSIA: Democratização do Processo de Filmagem e o Desenvolvimento do Cinema Digital e Novas Mídias

Sobre o uso da tecnologia e o barateamento dos custos de produção. Como usar fundos privados, organizar projeções digitais e criar espaços alternativos de exibição e meios de distribuição.

Participantes: Matheus Souza, Rodrigo Fonseca (mediador), Woo Ming Jin, Gustavo Pizzi e Amir Muhammad.

Rodrigo Fonseca – jornalista, repórter e crítico de cinema do jornal ‘O Globo’ – discuti a inclusão digital. “Um papo de amigos”, diz. Inicia-se como mediador e apresenta uma abertura resumida e explicativa. Cita Paulo Emílio que consolidou um pensamento crítico: o cinema oriental. Transcorre a década de 50 e os efeitos que este cinema proporcionou aos demais. “Tatiana (Leite – Curadora da Mostra) traz para dentro da cultura carioca um sopro de conhecimento da Malásia. Um cinema lúdico e que prioriza a invenção. É histórico por unir o cinema brasileiro com o oriental”, diz. Marcos Silva realizou a tradução simultânea.

Qual a condição do cinema da Malásia?

Woo Min Jin é diretor de “Mulher em Chamas procura água” e “O elefante e o mar”. “Pequeno, de filmes independentes. Eu não posso viver fazendo filmes. Tem que trabalhar na televisão. Busco outras atividades financeiras, porque o governo não investe. O custo é baixo: 5000 vem do governo e o resto é captado pela iniciativa privada. Eu tenho uma produtora própria, com câmera e uma equipe constante. As realidades dos realizadores são diferentes”

Correntes estéticas e a critica da Malásia?

Amir Muhammad é escritor, produtor e editor de filmes malaios. “Filmamos fora do estúdio. É uma limitada locação por causa do custo. São pequenas histórias mais minimalistas, diferentes do Mainstream (filmes de alto custo). Não há críticas. O que há é uma resenha de uma sinopse, e no último parágrafo diz se gostou ou não. Em 1996, o meu filme foi banido. Desde 1933, que tem o primeiro registro de auto-censura. O primeiro na história da Malásia. Nem todo filme independente é pequeno. Alguns são feitos por pessoas ricas com esposas no papel principal. A esfera independente quer filmes simples ou temáticas que não se ajustam ao orçamento e ou produção. Há uma falta de estimulo ao pensamento independente. Isso vem da era colonialista”

Como é o posicionamento do documentário no mercado?

Gustavo Prizzi, diretor do documentário “Pretérito perfeito”, ele diz que o cinema documental é rico de produção, porem menor em exibição. O digital é legal. Mas há muito filme para pouco espaço de cinema. Tem que ter muito esforço e muita paciência. O meu filme ficou oito semanas em exibição (Rio de Janeiro, São Paulo e Maceió). Depois ‘dvd’ e televisão a cabo. Mesmo com pouco tentamos manter o filme no cinema. Exercitar mais, estar no set por mais tempo, mais gente assistindo. A possibilidade digital não pode excluir a película, porque ainda é precária.

Rodrigo media colocações. “Prova de Morte, de Quentin Tarantino e Tetro, de Francis Ford Coppola finalmente serão lançados. Até os grandes sofrem com problemas de distribuição”

Matheus Souza, cineasta de “Apenas o fim”, “um filme universitário, mas não só universitário”, segundo ele, segue dizendo “transformar cinema em profissão é o objetivo. Não sei como vou me sustentar. Não ganhei no meu primeiro filme. Fiz para me dar bem com as mulheres. Nunca me imaginei dirigindo comerciais. Ganho mais com teatro (está com a peça “Confissões de adolescente” em cartaz). Difícil sustentar um cinema independente no Brasil. O foco é o cinema de arte, não comercial. Assim a maioria pensa e se aventura no meio cinematográfico. De fazer o cinema universitário chegar ao grande circuito.

O que é cinema universitário e o que você aprendeu de ter um filme autoral com poucos atores e poucos recursos?

Matheus: Meu filme (“Apenas o fim”) foi atribuído ao cinema universitário. Não tenho implicância com esse rotulo. Porem meu próximo filme não é universitário. Estou como gente grande. Um universitário querendo fazer cinema e se unindo de todas as formas. O buxixo foi criado ao redor do filme, que ficou nove semanas em cartaz. Foi um grande esforço. Campanha na internet, boca a boca. O filme estreou junto com blockbusters.

Amir: O Presidente do Festival de Singapura disse que os documentários estão ficando populares por causa da necessidade de vê-los.

Woo Ming Jin: Os meus filmes ficaram por duas semanas em cartaz. Como é o caminho natural ao longa? Você se forma, trabalha em comerciais?

Gustavo Prizzi: É difícil. Fui a todas as distribuidoras. Das maiores as pequenas. A Pipa Filmes possibilitou dinheiro ao projeto visual. Melhor sessão as 18h (tentando sustentar por esse período) depois a das 14h (mais complicado). Divulgação pela internet. Na rua de mão em mão por cada possibilidade. O filme teve a aceitação do publico grande que freqüentava a Casa Rosa e acabou indo ver o filme. Participo de todo o processo de produção. “Pretérito perfeito” teve abertura em algumas distribuidoras ajudando a realizar o segundo filme. Há salas menores como o Ponto Cine e Cine Santa que ajudam muito. Os próprios donos destas salas divulgam o filme.

O que alimenta a imaginação como realizador?

Gustavo Prizzi: Em cinema, estamos interessados pelo que está acontecendo no mundo. Não há um intercambio cinematográfico. Poderíamos fazer muita coisa com a Argentina e não fazemos. Falta aproximação. Mais fácil realizar uma co produção com a Europa do que com o país latino.

Matheus Souza: O que acontece com a geração dos 21 anos. São pais viciados em trabalho e a própria cultura pop em si, que passa mais tempo na internet, há muitas opções. Pode se ver um filme ou procurar na Wikipédia (site de tudo sobre tudo). É muito fácil. Eu fui criado na sala de cinema. Meu melhor amigo era o cinema. Até porque sou de Brasília. Chegando ao Rio de Janeiro não tinha amigos. Não existe filme ruim. Um imaginário misturado. Unir o cinema comercial com o cinema de arte.

Rodrigo Fonseca: Vocês precisam conhecer Ruy Guerra, um africano português. Trabalho de casa para vocês.

Gustavo Prizzi: Consegue-se ter uma renda dos filmes internacionais e se dá retorno?

Amir: Distribuição comprada para televisão. Não pagam muito. A mídia digital cria uma barreira. Ficam com o pé atrás quando anuncio que é DV. Preferem HD para uma melhor comercialização. O prêmio de um festival arrecada 5 vezes o que o filme custou.

Matheus: Há um circuito exibidor na Malásia? Tem sala de arte ou competem no mesmo cinema? Filme brasileiro chega lá?

Amir: Há menos de 100 telas de exibição. Não cinemas, mas telas. Avatar é lançado em 60 telas. Um filme grande malaio em 40 telas. A ordem é mais ou menos assim: Estados Unidos, Malásia, Singapura, Índia, Coréia, Hong Kong e Tailândia (se há um filme de terror). Fora de Hong Kong, a Malasia é um dos melhores mercados. Mercado estreito. Chegar ao cinema não é difícil, o complicado é a publicidade, de fazer as pessoas irem é. Há um circuito universitário, mas as pessoas não vão ver. Precisa-se liberar a censura. É grande a pirataria de ‘dvds’. É a maior escola lançar pirata. Há “Cidade de Deus”, de Fernando Meirelles lá. A moeda lá é metade do Real.

Filmes de Estética digital e de 35mm?

Woo Ming Jin: A estética não existe. Formas diferentes que produzem resultados diferentes. HD é satisfatório. HD para 35 não tem um ganho estético. Há resistência nesta transformação. Alta definição era usada mais para televisão, mas eu me acostumei com essa resolução.

Expectativa de publico?

Matheus: 26.400 expectadores. Custou 7.500 reais. “Isto é Brasil”, quando questionado por WMJ sobre não ter ganho dinheiro com o filme. “Eu era inocente, meio bobo, só queria que o filme fosse ao cinema”

Gustavo: Documentário enfrenta mais resistência do publico. Menos de 2000 expectadores. Na televisão a cabo (Canal Brasil) atingem 30 / 40 mil pessoas.

Quanto Lobão Levou?

Risos na platéia. A pergunta foi direcionada a Gustavo Prizzi, sobre a participação do cantor Lobão em seu documentário.

Gustavo: Levei 3 anos fazendo o filme. Custou 4 ou 5 mil reais. Dinheiro do meu bolso. Se colocar todos os serviços com apoio e parceiros chega a 100 mil. Ninguém ganhou cachê, nem Lobão. As entrevistas eram muito rápidas. Aproveitava a oportunidade. O segundo filme é mais complicado. Gasta-se mais. Os jornais gostam do falso barato. Dizer que um filme custa 5 mil dá ibope.

Woo Ming Jin: Conto uma boa historia para mim. Quero ter os direitos integrais. Meu ultimo filme “Mulher em chamas procura água” não foi visto por ninguém lá na Malásia. As pessoas esperam me ver como um velho. Não acreditam que uma pessoa mais nova possa trabalhar o silêncio e a sensibilidade.

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