Ouro Para o Bem do Brasil

Memória de bastidores

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Brasília 2020

Há quem diga que um país sem memória é um país vazio. E que cada fragmento lembrado faz com que não cometamos os mesmos erros e/ou desconhecimentos do passado. Até porque somos humanos vulneráveis e exponencialmente influenciados em construção moral, que vivemos em sociedade e dotados de vicissitudes-falhas de caráter. Em seu mais recente curta-metragem “Ouro Para Bem do Brasil”, o realizador Gregory Baltz (de “As Constituintes”) provoca uma revisitação da lembrança. De um acontecimento histórico específico do Brasil na era desenvolvimentista, e assim seu diretor reverbera a essência mais básica do gênero documentário: a de informar e ou reimportar decisões políticas tão urgentes e de ultima chance para o “bem de um país”.

A narrativa, além de retratar a época com imagens de arquivo e com narrações reais – servindo também de elo “máquina do tempo” para rememorar um Rio de Janeiro ainda ingênuo e orgânico em seus comportamentos sociais e inocentes reações-cumprimentos condescendentes de um povo ainda cru no pensar e no questionamento limitado de se manter no “escuro” (talvez por medo das mudanças). Aqui, o foco é a iniciativa de 1964 com a campanha Ouro Para o Bem do Brasil, em que a população brasileira podia doar seus recursos para “salvar” o Brasil da crise, ajudar a arcar com a Dívida Externa, e consequentemente valorar ainda mais a moeda nacional.

Sim, era o “plano” perfeito, compactuado por personagens reais de uma sociedade ainda engatinhando no saber agir da questão política. Em “Ouro Para Bem do Brasil”, seu diretor busca a imparcialidade do tema, deixando que o próprio público tire suas conclusões e alimente a própria crítica sobre o assunto. Principalmente quando mescla intercalação de estrutura clássica de entrevistas com os “atores” responsáveis da época com micro-ações de bastidores – a metalinguagem da personagem que se traduz humana antes do título político.

Mas esta escolha também é um gatilho comum, que ao acontecer nas telas, soa mais como um incômodo. Nós vemos um jovem cineasta estimulado pela urgência ultra acelerada de projetar provocações sem provocar, que gera, por sua vez, uma inocência peculiar da máxima da crença de que um filme pode mudar o mundo, como quando confronta um Coronel (o colocando entre armas e “aceitando” seu discurso de resignação alienante, quase robotizada sobre a cumplicidade de se cumprir ordens militares). Levantar esse tom, principalmente neste momento conturbado, polarizado e ininteligível atual, é elencar maniqueísmos e oportunismos criativos.

“Ouro Para Bem do Brasil” está no limite tênue da compreensão e da aceitação. Se por um lado, o tema é extremamente interessante por trazer o primeiro “financiamento coletivo” do Brasil, do outro somos combatidos pelo paralelismo da própria História. Mira-se no orgânico e uma aproximação intimista, mas o que se acerta é o resultado mais protocolar dentro dos limites das críticas passivas que se deseja obter. Não é um filme ruim, pelo contrário. Esta obra pulsa sangue, pensamentos, contradições, ideias, alfinetes e passionalidades, sendo mais uma catarse que quer porque quer se esconder na literalidade da calma e da não tomada de lados, apesar de expor explicitamente uma “tempestade” do ser, estar e achismo ainda não lapidado.

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