Oslo

Encontro marcado em Oslo

Por João Lanari Bo

HBO

Informa a Wikipédia: linguistas contemporâneos acreditam que “Oslo” ou “Aslo” signifique “o prado ao pé do morro”, sendo possível que se refira a um antigo sítio de culto pagão, ou seja, “o prado consagrado aos deuses”. Ambas as interpretações são consideradas igualmente prováveis. Oslo é a capital de um país quase imaginário, a Noruega, a um passo do Ártico gelado. No início dos anos 90, por iniciativa de um casal norueguês armado apenas de bona fides – expressão em língua latina que significa literalmente “com boa fé”, com lealdade, honestidade – ocorreram conversações secretas em torno de uma possível paz entre israelenses e palestinos, quebrando um gelo histórico que parece não ter fim, uma no end story. “Oslo” é também o título do filme dirigido por Bartlett Sher e produzido, entre outros, por Steven Spielberg, que conta o ciclo de negociações, suspensões, mediações, recomeço das negociações e novas suspensões desse processo. Baseado na peça vencedora do Tony Award de 2017, escrita por J.T. Rogers (que também adaptou o roteiro), “Oslo” marcou a estreia cinematográfica de Sher como diretor – na sequência de uma longa e bem sucedida carreira teatral.

Como reproduzir um ambiente carregado de tensões e ódios seculares, permeado por uma lógica de conflito que perdura de forma constante, a despeito do drama humano subjacente e todos os esforços da razão conciliadora? Os Acordos de Oslo, resultado dessas negociações, foram celebrados e espetacularizados nos jardins da Casa Branca, em 13 de setembro de 1993, quando Yasser Arafat e Yitzhak Rabin apertaram as mãos sob o olhar benevolente de Bill Clinton – mas basta acompanhar o noticiário internacional para constatar que os impasses continuam, mais sangrentos e insolúveis. Observadores pragmáticos lembram que, pela primeira vez na história – e em Oslo! – israelenses e representantes da OLP (Organização pela Libertação da Palestina) sentaram-se para conversar sobre paz, o que era simplesmente impensável: e um sucesso limitado foi alcançado, apesar de tudo, pois ambos os lados queriam colher frutos. Não cabe aqui esmiuçar as complexas razões do posterior fracasso do Acordo, seja ele total ou parcial: a realidade do terreno, como dizem os observadores céticos, se impôs logo de saída. Pouco mais de dois anos depois da celebração em Washington, Yitzhak Rabin participava de um comício pela paz em Tel Aviv quando foi assassinado por um judeu ortodoxo de extrema-direita. Rabin era o principal fiador do acordo pelo lado israelense. Em época recente, a decisão do ex-Presidente Trump de transferir a embaixada dos Estados Unidos para Jerusalém, que palestinos e israelenses consideram cada um como sua capital, adicionou mais lenha na fogueira. Praticamente todas as embaixadas de países estrangeiros, inclusive a do Brasil, estão em Tel Aviv: mudar para Jerusalém implica em legitimar a cidade como capital de Israel. A transferência foi completada em 2018.

Oslo” termina com uma sentença conhecida no Oriente Médio: “nossos povos vivem no passado; vamos encontrar uma maneira de viver no presente”. Rodado na República Tcheca, em um esplêndido castelo, o filme obviamente não entra nas minúcias das tratativas. Mas reproduz com razoável fidelidade o clima informal proposto pelo casal de noruegueses – ela funcionária do governo local, ele sociólogo e diretor de um think tank ligado a iniciativas de paz – para desarmar os espíritos e tocar as reuniões. Funcionou, para surpresa de muitos. Ambos estiveram em Gaza e testemunharam cenas de violência, uma delas repetida ao longo da narrativa como flashback traumático: soldado israelense aponta o fuzil para palestino que se prepara para jogar uma pedra. Equipados com voluntarismo e o mínimo de habilidade política, conseguiram convencer o Vice-Ministro das Relações Exteriores de Israel, Yossi Beilin, próximo de Shimon Peres, a autorizar dois professores universitários israelenses para encontrarem-se com representantes da OLP – tudo isso debaixo de segredo absoluto. Do lado palestino, os noruegueses foram mais convincentes: vieram o Ministro da Economia da OLP e um assessor graduado. Na mais absoluta informalidade e, sobretudo, discrição: os encontros só vazaram meses depois, quando já haviam se juntado ao grupo funcionários graduados de Israel. Claro, não foram poucas as vezes que o ambiente esquentou, na realidade das discussões (certamente) e também na dosagem bem construída do texto teatral. A sensação de teatro filmado, felizmente, é mitigada pela elegância da câmera e da iluminação de Janusz Kamiński, o polonês que fotografa filmes de Spielberg desde “A lista de Schindler”.

Spielberg é, afinal de contas, o mentor do filme: o ar de ingenuidade iluminista e pedagógica que transparece de “Oslo” é, de certa forma, seu olhar de judeu esclarecido. Um olhar que está longe de ser consensual: as opiniões em relação ao conflito na região, expressas em suas produções, têm recepção ambígua em Israel, como foi o caso de “Munique”, de 2005. O buraco é sempre mais embaixo. Naturalmente, não é um mero filme de entretenimento que vai virar o jogo, se é que esse jogo vai ser virado algum dia em condições aceitáveis para todos os atores. “Oslo” é um fugaz lembrete dessa possibilidade.

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