Os Jovens Baumann

Excertos e a transgressão de seus limites

Por Michel Araujo

Que fazer diante de fatos inconclusivos? Mistérios os quais não podemos acessar senão parcialmente? Memórias das quais só possuímos fragmentos e excertos que não conduzem a uma resolução? Para a diretora Bruna Carvalho Almeida, em seu longa-metragem documental experimental “Os Jovens Baumann” (2018), a busca se dá muito mais no campo da estética e de uma relação quase sublimada com os vestígios que ela encontra de um mistério muito particular.

Neste “documentário”, a diretora trata do desaparecimento de um grupo de jovens que se deu em 1992, Santa Rita d’Oeste, interior de Minas Gerais, sendo todos eles os últimos herdeiros de sua família: a família Baumann. Unindo excertos dos videodiários em VHS que os jovens fizeram durante sua estadia na propriedade da família – através de um procedimento de montagem que remete quase à organização de um álbum fotográfico, temos acessos a pequenos episódios que revelam mais sobre a personalidade e idiossincrasias desse grupo de jovens do que sobre seu efetivo desaparecimento.

A qualidade fotográfica de VHS já provoca um distanciamento no espectador não apenas temporalmente mas sensorialmente, visto que a baixa definição da imagem em relação a outros suportes padrão – como a película de 35 mm ou a contemporânea câmera digital de alta definição – se tornou nos anos recentes uma espécie de fetiche estético para a tendência lo-fi de certas produções audiovisuais.

Esse distanciamento potencializa não apenas o ar de “recordação” do filme, mas principalmente seu ar de “vestígio”, “fragmento”, “rastro”. O espectador não está diante de um quadro total e objetivo, mas de um mosaico de pequenas subjetivações inconclusivas dessas personagens as quais podemos entender tão pouco. Se o desaparecimento dos jovens é uma ferida aberta, o filme certamente vai na contramão de realizar sua sutura.

A locução que agencia esses fragmentos de imagens, entretanto, acaba por buscar demais endereçar sentido à essa obra cuja potência maior parece ser sua irresolução polivalente.

O caráter de “ferida aberta” torna investigação mais interessante do filme uma que é muito mais voltada para esse espírito, essa aura que permeia os últimos dias de que se tem notícia dos jovens Baumann; verbalizar diversos questionamentos ao longo do filme, portanto, cerceia essa significação expansiva das imagens.

Tal qual a legenda de uma fotografia jornalística que indexa a imagem a um sentido específico, livrando-a de qualquer ambiguidade possível, a narração aqui estabelecida ao longo do filme, e não apenas em sua introdução, acaba por prendê-lo demais à sua realidade de “filme”, “investigação”; uma busca quase pessoal da diretora com relação ao assunto, visto o uso recorrente da primeira pessoa.

Os momentos de saturação da imagem são de certa forma os mais potentes, considerando toda a proposição estética. Quando os limites da definição VHS são transgredidos, parece que a imagem falha em comunicar algo que está lá e produz algo terceiro: um acidente.

Quando o desenho das ondas de uma formação aquosa – rio, ou lago que seja – é “cubificado”; quando a luz solar estoura e produz halos luminosos que parecem beirar a artificialidade, dada a fraqueza da analogia da imagem para com o objeto; quando um zoom deforma um rosto mais do que o amplia, visto a baixa resolução do vídeo; aí que estão os pequenos ápices da relação estética do filme.

Se pensando num sentido narrativo, “Os Jovens Baumann” trata de uma borda entre o existir e o não existir, a presença e a ausência de seus personagens, esse limiar de sua estética entre a imagem sólida e a imagem que irrompe e se torna quase amorfa parece seu ponto de incisão perfeito.

Talvez o momento de maior ousadia do filme seja aquele em que literaliza o embate sobre presença/ausência: o corte seco nos últimos momentos do filme que faz os jovens desaparecem do quadro. Não tendo acesso às respostas de seu desaparecimento, não sabendo mais do que essas imagens retrô nos entregam – uma série de indagações -, a diretora toma a liberdade de fabricar pela montagem o momento da desaparição; é quase como se perguntasse ao público “Seria tão absurdo pensar que os jovens Baumann simplesmente sumiram no ar?”.

Uma arbitrariedade digna diante dessas imagens, certamente mais do que a narração. Visto que as imagens já vão ser agenciadas pela montagem, porque não usar expressivamente esse poder primeiro que o filme tem sobre os vestígios?

Trailer

https://youtu.be/J7646KC0KCA

Anuncie no Vertentes do Cinema

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *