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Olha Pra Elas

Brasil: o país do encarceramento da pobreza

Por Paula Hong

Olha Pra Elas

Que o Brasil mostra-se cada vez mais inóspito e injusto para mulheres morarem, é óbvio e cruelmente comprovado pela taxa exponencial de feminicídios em todo o país. A estrutura de papéis aos quais mulheres são submetidas e designadas oferece poucas opções de (sobre)vivências, e para algumas mulheres o encarceramento resulta a partir de uma série de vulnerabilidades nas quais já nascem. As estatísticas do alto número de encarceramento de mulheres trazidas ao final do documentário “Olha Pra Elas” antes são sensivelmente humanizadas — ganham corpo, rosto, voz e oportunidade de contar suas histórias. Em dois presídios do interior do Rio Grande do Sul, a diretora Tatiana Sager (que já conta com outras produções cujo tema se assemelha ao deste filme) traz personagens que compartilham, mesmo sem se conhecerem, de circunstâncias que as levaram à vida na prisão. 

Ora através da família que fica de fora das grades, ora por quem está dentro delas, ora das duas formas, o filme inicia essas histórias que mal tiveram chance de uma real defesa contra o condenamento da justiça e também da sociedade. Em planos fechados, a câmera direciona o olhar tanto para quem fica de fora das grades e muros altos da prisão (em sua maioria filhos e filhas, maiores e menores de idade) quanto para as mulheres e mães que estão fisicamente separadas deles, trazendo quem assiste para mais próximo dessas mulheres que passam longos anos confinadas.

E é a partir dessa aproximação que pode-se constatar o efeito que a solidão opressiva das paredes cinzentas e descascadas têm sobre a vida dessas mães: não há uma delas que não chore ao falar de seus filhos e filhas, da saudade imensa e angustiante que sentem deles, do aprisionamento delas que se estende para a família do outro lado do muro, das condições que as levaram até ali. A estrutura das prisões não dá conta de barrar o estrago que o condenamento (injusto, em sua maioria) faz com essas famílias. Muitas delas são matriarcais, portanto chefiadas por essas mulheres que garantem o sustento de um alto número de pessoas: elas são a cola que mantém todos os membros da família juntos, e quando são presas, a família é separada e os destinos tornam-se ainda mais incertos.

Olha Pra Elas” também traz profissionais como assistentes sociais, psicólogas e pesquisadoras que reforçam o panorama inicialmente traçado no documentário. Através delas, mulheres falando sobre mulheres, os depoimentos das mães aprisionadas são destrinchados pelas falas que apontam para um padrão-alvo do Estado: são mulheres que vivem em situações de pobreza, baixa escolaridade, vítimas de abusos e que são iniciadas na vida do crime e das drogas por parceiros. O resultado da vida na prisão acaba por advir da falha de instituições anteriores, como escola e família, que deveriam garantir um solo seguro sobre o qual essas mulheres poderiam andar e traçar seus caminhos. Mas a verdade é que elas são desassistidas desde o começo, fora da prisão, e algumas delas carregam um ciclo familiar difícil de quebrar onde o crime é o modo de fazer o sustento. 

O documentário “Olha Pra Elas” não utiliza de artifícios cinematográficos inovadores: é cru e sensível ao mesmo tempo. Não censura as falas, ao contrário: deixa que essas mulheres, umas mais novas e outras mais velhas, conscientes de suas condições e de seus lugares no mundo, contem suas histórias num tom muitas vezes de desabafo, e tornamo-nos mais empáticos com suas dores. Partindo de um recorte que vem da ponta do Brasil, o filme é capaz de colocar em perspectiva a reflexão de que há muitas outras Adelaides, Tatianas, Tatianes, Naianes e Roselaines desamparadas em outras áreas do país. No fim do filme, uma ponta de esperança, um desvio fora da curva: uma delas é garantida a liberdade quando seu aprisionamento é provado como um erro ao ser confundida com outra pessoa. De fora, ela grita para as outras mulheres, transmitindo a esperança de que elas podem ser as próximas inocentadas.

3 Nota do Crítico 5 1

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