O Sonho do Inútil
Amadurecimento e alguns de seus significados
Por Vitor Velloso
Durante o Olhar de Cinema 2021
“O Sonho do Inútil”, de José Marques de Carvalho Jr., é um delicado registro de amigos e memórias do diretor que percorre um material há muito guardado para lembrar de afetos, dificuldades e sonhos que atravessaram um momento específico de sua vida. Lembrando de seu período gravando vídeos para o “Inútil” e “La Fênix”, o documentário vai tateando essas imagens à procura de resoluções de cada uma das inquietações que marcam os depoimentos.
O cineasta mantém parte de sua característica de obras anteriores, ao costurar uma “dispersividade” aparente na intenção de colocar uma questão em pauta. Se em “Observar e Absorver”, por exemplo, a coisa toda era muito deslocada, pouco eficiente e dependia do espectador se identificar com Eduardo Marinho para embarcar na experiência, aqui em “O Sonho do Inútil” existe uma certa urgência em tratar esse conjunto de materiais a partir da própria relação do realizador com ele, levando o espectador a compreender o que seria o “inútil” do título e os impulsos que deram vida aos vídeos antigos. Possui parte do espírito que assume a falta do que fazer “como impulso expressivo”. É uma obra que atua em múltiplos campos, mirando desde uma certa abordagem que assume os trabalhos de antigamente como particularmente artísticos, até uma experiência pessoal para debater um problema institucional brasileiro.
Utilizando-se da narração em off, José Marques vai dando sentido para aquelas imagens que seriam meras retomadas emotivas, deslocando o documentário a um retrato da sociedade, ou parte dela. Torna-se uma síntese de como o olhar dele amadurece com o passar dos anos, mas mantém o ímpeto de compreender as ações a partir da própria produção. De certa forma, é uma “ressignificação” do material, em um sentido menos programático que outras obras, pois articula os diferentes tempos sem manter-se apenas na subjetividade. Conseguindo ampliar esse espectro ao reencontro dessas pessoas (fisicamente ou virtualmente), ao longo de quinze anos, o espectador não necessita de um guia expositivo para transitar durante a projeção. Aqui, a montagem dá conta de criar um contexto suficiente, ao passo que diferencia seus personagens em cada um desses momentos, seja a partir de seus próprios depoimentos ou de seus encaixes.
É interessante ver que aquele fascínio caótico presente em “Observar e Absorver”, ganha outra forma em “Idioma e Desconhecido” e que “O Sonho do Inútil” marca uma postura mais consciente das possibilidades do material. Sem o caráter diletante, o filme que inicia com memórias de jovens fazendo “loucuras”, ao ir caminhando pela realidade individual de seus personagens, chega a debater a violência no Rio de Janeiro, culpa, injustiça, saudade, reencontros em meio a pandemia etc. O longo período que o projeto cobre, faz com que essas ressignificações não sejam construídas apenas no olhar do diretor, mas possam ser vistas em uma montagem que provoca um conflito temporal, evocando que apesar de muito ter mudado, certas permanências existem para o mal e para o bem, sem um julgamento moral decadente.
Mais materialista que boa parte desses documentários que decidem revisitar materiais pessoais antigos, o novo filme de José Marques de Carvalho Jr. marca um ponto de amadurecimento enquanto realizador que impressiona. Consegue atingir pontos nevrálgicos de uma sociedade que demoniza o ócio e o desejo, mostra parte dessa consequência nas próprias instituições, mas em especial, consegue filmar seus personagens com um respeito afetuoso. E talvez esse seja o maior mérito aqui. Quando os amigos se reencontram em plena pandemia e passam a relembrar algumas viradas na vida e dialogar sobre o que o futuro, agora presente, os reservava em cada uma daquelas imagens, essa “ressignificação” (tão vulgarmente utilizada hoje em dia) faz juz ao que vemos no material. Em algum momento é uma obra tão pessoal que poderíamos chamar de terapêutica, mas não se prende à caixa inócua do consenso.
“O Sonho do Inútil” amadurece em pouco mais de uma hora, e amadurece tanto nesse curto período de projeção que é difícil se manter indiferente.