O silêncio do caçador

Casa grande e senzala

Por Victor Faverin

Durante o Festival de Cinema de Gramado 2020

A sapiência do homem o separa do reino animal, colocando-o no topo da pirâmide. Esse cume, no entanto, está longe de satisfazê-lo. O filósofo alemão Arthur Schopenhauer definiu a existência humana ao dizer que “a vida é um grande pêndulo que oscila entre a ânsia de ter e o tédio de possuir”. Cada ser, preso em seu microcosmo, tende, instintivamente, a querer mais, a se mostrar onipotente em uma busca infindável por mais espaço. “O silêncio do caçador” (2019), longa-metragem argentino de Martín Desalvo e o primeiro exibido a compor a Mostra Competitiva Internacional do Festival de Cinema de Gramado 2020, enfatiza a necessidade de reafirmação que cada um de nós tem enraizada no âmago. Enquanto o guarda florestal, personagem de Pablo Echarri, usa a auto-validação na tentativa de proteger a fauna e, portanto, o bem comum e a sustentabilidade do ecossistema do qual faz parte (mesmo considerando-a como unicamente sua), o caçador (Alberto Ammann) emprega força e recursos no que julga legítimo: a continuidade da tradição ensinada pelo pai e pelos desbravadores do vilarejo.

O longa mostra tal patriarca como um rei adormecido e ainda dono de poder na comunidade, da mesma forma que um dia foi o senhor de engenho reconhecido pela benevolência apenas por cumprir minimamente os direitos de seus empregados ou o político a distribuir cestas básicas em época de campanha eleitoral. Desalvo mantém o filme inteiro com a câmera na mão (até mesmo em enquadramento trivial, como um pneu atolado) como se tudo estivesse sendo acompanhado e controlado por um olho que tudo vê. Até mesmo as duas únicas incursões de trilha-sonora (diegética) do filme partem da “Casa Grande”. A primeira, para entreter o antigo magnata, e a segunda voltada como um presente travestido de esmola à população local que, mesmo diante da repressão velada, nem sequer se indigna.

A revolta, no entanto, é centralizada no guarda florestal. O diretor é hábil ao contrapor as motivações desse personagem com as do caçador, parcialmente desvelando-as logo no início e também desenvolvendo-as de forma orgânica ao longa da trama. A criatura mítica (um tigre), prometida na sinopse, serviria mais como alegoria a um sistema econômico que sempre está em busca de novos alvos para explorar se não fosse mostrada a prova cabal da dilaceração sofrida por animais da região. Ainda assim, “O silêncio do caçador” se interessa em escancarar a forma como poderosos conseguem, via de regra, escapar impunes mesmo quando os crimes cometidos são visíveis e testemunhados. Para isso, basta dinheiro ou um rótulo de carisma. Ou os dois.

Esse fascínio exercido pelo caçador, aliás, pode fazer até com que o público se simpatize com ele no início. O primeiro ato do filme evoca essa possibilidade, vendendo a história como se estivesse tratando do confronto entre a seriedade taciturna e a leve descontração, mas Desalvo consegue modificar tal percepção em pequenas doses, seja em um olhar enviesado ou na maneira pejorativa que um tem de se referir ao outro. Como bem disse Pablo Sandoval, personagem de Guillermo Francella em “O segredo dos seus olhos” (2009), “um homem é capaz de mudar tudo, de cara, de casa, de família, de namorada, de religião ou de Deus, mas não consegue trocar de paixão”. Dessa forma, “O silêncio do caçador” mostra como a dedicação pelo ofício ou o amor pela caça são intrínsecos aos protagonistas. O embate final – que poderia ter sido desenhado de forma mais visceral ao longo da trama – é a prova do desvirtuamento dos propósitos de ambos.

Tanto o guarda florestal quanto o caçador, aliás, em uma prova de como os opostos se misturam, mantém seus mascotes – um ajudante e uma criança, respectivamente – e nutrem sentimentos pela mesma mulher (Mora Recalde). O roteiro de Francisco Kosterlitz deixa claro, no entanto, que a conquista amorosa de um sobre o outro não passa disso, uma conquista, um troféu, tal como a preservação ou o abate do tigre também são, cada um a sua maneira. Ao não tornar o animal uma alegoria, como descrito anteriormente, “O silêncio do caçador” perde a oportunidade de manter sua revelação como um elemento de crescente expectativa, como fez o australiano “O caçador” (2011) que também explorava a busca desenfreada por uma criatura mítica. A rivalidade desenvolvida entre os personagens principais do longa argentino toma esse lugar, exaltando o fato de que o homem é a única espécie que confabula para a sua própria extinção.

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