Crítica: O Refúgio

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Ficha Técnica

Direção: François Ozon
Roteiro: Mathieu Hippeau, François Ozon
Elenco: Isabelle Carré, Louis-Ronan Choisy, Pierre Louis-Calixte, Melvil Poupaud, Claire Vernet, Jean-Pierre Andréani, Marie Rivière, Jérôme Kircher, Nicolas Moreau, Emile Berling, Dominique Jacquet, Tania Dessources
Fotografia: Mathias Raaflaub
Trilha Sonora: Louis-Ronan Choisy
Produção: Chris Bolzli, Claudie Ossard
Estúdio: Eurowide Film Production / FOZ / France 2 Cinéma
Distribuidora: Imovision
Duração: 88 minutos
País: França
Ano: 2009
COTAÇÃO: ENTRE O BOM E O MUITO BOM

A opinião

O diretor François Ozon integra a lista de realizadores autorais. Ele objetiva o sentimentalismo cruel e de forma realista. Os seus personagens são utópicos em buscar a paz sem ressalvas, e como em um mundo normal, isso não existe, há a frustração, vivida por um individualismo grosseiro com imposição de vontades subjetivas de cada um. François extrai o limite suportável, externalizado, paradoxalmente, com a escolha do silêncio. A omissão mostrada é o caminho para definir as catarses emocionais de seus participantes.

Mousse (Isabelle Carré) e Louis (Melvil Poupaud) são jovens, ricos e estão apaixonados. Até as drogas invadirem suas vidas. De repente, Louis, grávida, morre de overdose. Mousse vai para longe de Paris e, meses depois, a acompanha no refúgio.

As imagens iniciais descrevem o ambiente. Com sombras, contrastes e um mergulho no universo dos entorpecentes químicos. Há a condescendência da namorada, também viciada. A necessidade por drogas é vivenciada de forma íntima, única, experimental, sabendo dos sus efeitos positivos (para o que consome). A luz é lúdica, com a epifania da imaginação. O sonho visto como refúgio para escapar do que acontece em volta do mundo.

A droga insere o casal em um lugar próprio, com regras manipuladas pela própria sensação de bem estar. Busca-se a fuga de tudo. Covardia ou desespero? Tanto faz. O que o diretor deseja é a cumplicidade e o não julgamento do espectador (mesmo que lá no fundo, ele implore por redenção e salvação). A atmosfera apresenta-se elegante, pomposo, comum. Uma vida normal que Ozon consegue transformar utilizando uma excelente fotografia.

A segunda parte do filme envereda do caminho à pureza e à luta pela desintoxicação. A namorada é internada e se descobre grávida. Neste ponto, o refúgio é o filho. O namorado morreu de overdose, então o que ela carrega no ventre é o que sobrou do amor viciado. Há velório, de novo com carga emocional realista. A pretensão pela naturalidade chega a ser clichê de tão possível. O longa é ágil, sem correr com a trama e sem queimar etapas. Respeita-se o tempo da espera de um bebê. Complementa-se com um toque sexy e com a música “Bang Bang”.

A questão é direcionar ao ser humano que está do outro lado da tela a pensar entre o certo ou errado do aborto. A família deseja a criança, mas ela não. Mesmo assim recomeça. “Isso faz bem, revitaliza”, diz-se sobre a praia. A camera torna-se a pessoa que desmascara. Que mostra a verdade, quando focaliza o espelho dividido em duas metades de um rosto. “Se a mulher tem medo, o filho não enfrenta bem a vida”, diz-se.

“Aqui é o meu refúgio”, resume-se explicando a necessidade de se ter algo como base e sólido. Ela encontra no irmão do falecido namorado a fora para seguir adiante. A liberdade é aceitável e não questionada. A sexualidade (gay ou hetero). Há amor e pessoas e não preconceitos. “Você é direto. Sem bla-bla-bla. Temos que aproveitar a sorte”, insinua-se com uma sensibilidade realista, moderna e madura, percebida também nos diálogos.

Há depressão, tristeza, carência, solidão dentro de ações passionais e momentâneas de seus personagens, que seguem impulsos sem pensar, sem medir consequências. “Preciso aprender a me amar primeiro”, finaliza-se sem o filho e sozinha, embalado com a trilha sonora de Summer Son, de Texas. Prêmio Especial do Júri do Festival de Veneza. Vale a pena ser visto. Recomendo, mesmo com a prepotência narrativa do diretor.

O Diretor

François Ozon, nascido em Paris em 15 de Novembro de 1967, obteve reconhecimento internacional pelos seus filmes “8 mulheres” (2002) e “Swimming Pool” (2003). É considerado como um dos mais importantes jovens realizadores franceses na categoria “New Wave” do cinema francês, tal como Jean-Paul Civeyrac, Philippe Ramos ou Yves Caumon.

Em 1990, já depois de se licenciar em cinema pela Universidade de Paris, Ozon estudou na escola francesa de cinema La Femis. Realizou diversas curtas metragens, tais como “Une robe d’été” (1996) e “Scènes de lit” (1998) que já refletem o seu estilo particular.

A sua estreia em longas metragens deu-se com “Sitcom” (1998), que teve bom acolhimento quer da parte da crítica quer do público. Após a adaptação da obra de Fassbinder com “Gotas de água em pedras escaldantes” (2000) veio o filme que o tornou conhecido para além frontreiras, “8 Mulheres”. Trata-se de uma adaptação cinematográfica da peça de boulevard de Robert Thomas e que conta com um elenco notável com Catherine Deneuve, Fanny Ardant, Isabelle Huppert e Emmanuelle Béart. O filme narra a história com uma sucessão de números musicais, uma produção a fazer lembrar os melodramas dos anos 50 de Hollywood.

Em 2003 Swimming Pool contou com a participação de Charlotte Rampling e de Ludivine Sagnier. Foi considerado por Ozon como sendo um filme muito pessoal e que dá uma visão do difícil processo de criação de uma novela ou argumento cinematográfico. O seu penúltimo filme foi “Ricky”, sobre um bebê com super poderes.

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