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O Processo – Praga 1952

A Confissão

Por João Lanari Bo

Durante o É Tudo Verdade 2022

O Processo – Praga 1952

O Processo – Praga 1952” é um documentário sobre uma das maiores farsas que se tem notícia na esfera stalinista de poder – e a competição não é fácil. Irritado com o voo independente de Josip Tito na Iugoslávia, Stálin resolveu aplicar série de expurgos com vistas a reassegurar, por parte da União Soviética, o controle dos países do leste europeu. Desmontar lideranças e quadros de destaque, a exemplo do que havia feito em seu país, em particular no biênio 1937-38, era o caminho mais eficiente para atingir esse objetivo: o próximo passo era substituí-los por funcionários servis e amedrontados. A antiga Checoslováquia foi a bola da vez: 14 foram presos e indiciados, entre eles figuras poderosas do Partido Comunista Tcheco, como o próprio Secretário-Geral do Partido, Rudolf Slansky. O “julgamento” começou em 20 de novembro de 1952 – várias acusações, incluindo alta traição e conspiração contra a República da Tchecoslováquia, foram dirigidas ao grupo. Todos 14 réus foram considerados culpados, numa patética pantomima jurídica: onze foram condenados à morte e executados, em dezembro de 1952, e os três restantes receberam sentença de prisão perpétua. Dos 14, onze eram de origem judaica, inclusive Slansky. O documentário foi realizado a partir da descoberta – no porão de um armazém, nas cercanias de Praga – de latas contendo material audiovisual que seria utilizado para um filme de propaganda, afinal nunca completado, provavelmente em razão da morte de Stálin, em março de 1953. As imagens e o som do material recém-descoberto configuram uma espécie de reality show stalinista: dirigentes e burocratas espremidos entre soldados ouvem as acusações mais díspares possíveis; depois de meses de tortura, introjetaram uma culpa abissal, como se a confissão fosse algo do profundo íntimo. Não havia nenhuma prova, nada que insinuasse conspiração para vender o país aos imperialistas ou seguir vias independentes, como Tito fizera na Iugoslávia. Era, enfim, um exercício paranoico-preventivo, emanado de uma potência imperialista, a URSS, às voltas com a Guerra Fria e a manutenção de zonas de influência – qualquer semelhança com o que ocorre atualmente na Ucrânia é mera coincidência.

O show trial em Praga foi imediatamente precedido por evento análogo, em 1949, em Budapeste. O comunista húngaro Laszlo Rajk, Ministro do Interior, foi acusado de ser um “espião titoista”, agente do imperialismo ocidental que planejava restaurar o capitalismo e pôr em risco a independência da Hungria. Tudo fazia parte de uma “conspiração sionista mundial” – embora Rajk não fosse judeu, seis dos outros réus eram. Trotskismo era outra faceta da acusação. Na Checoslováquia, julgamentos espúrios foram realizados a partir de 1948, quando os comunistas tomaram o poder – e Slansky foi um dos articuladores. Em “O Processo – Praga 1952”, o feitiço virou contra o feiticeiro. A história é dolorosamente rememorada através dos descendentes de três dos condenados: a filha e o neto de Slansky, que não escondem o passado submisso do pai; o filho e a neta de Rudolf Margolius, também executado após a farsa; e os três filhos de Artur London, condenado à prisão perpétua. London foi anistiado na distensão que se seguiu à morte de Stálin e às revelações de Nikita Khrushchov no 20º Congresso do Partido Comunista Soviético, em 1956 – foi ele quem escreveu o livro adaptado para o cinema por Costa-Gavras em 1970, “A Confissão”, com Yves Montand em atuação inesquecível.

Confissão, não custa lembrar, que era obtida mediante tortura e memorizada a força antes da performance no tribunal: falas curtas e grossas, que terminavam com pedido do acusado para ser punido com a pena de morte. A única peça acusatória era a confissão: uma representação teatral, enfim, em que o ator não pode errar uma vírgula da sua fala, mesmo sabendo que está condenado a priori. A situação lembra um daqueles paradoxos lógicos característicos da narrativa kafkiana, desta feita carregado de um realismo que nem o escritor de Praga seria capaz de imaginar. O material que ressurgiu no armazém – seis horas de filme preto e branco 35 mm, e 80 horas de áudio – está agora no Arquivo Nacional de Cinema da República Tcheca, aguardando recursos para restauro adequado. A expectativa é que novos filmes sejam produzidos, na esteira de “O Processo – Praga 1952”. Um dos problemas que contribuiu para o apagamento do processo de 1952 é que praticamente não restaram registros judiciais: o arquivo do tribunal desapareceu em algum momento turbulento da vida política tcheca. A exceção, até aqui, era a memória dos participantes, como o livro de London: agora vieram à tona sons e imagens dos acontecimentos. To be continued.

3 Nota do Crítico 5 1

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