O Preço da Verdade

Filho de Nicômaco

Por Jorge Cruz

Na primeira sequência de “O Preço da Verdade” é possível que alguns espectadores encontrem paralelo com o prólogo de “Zodíaco“, obra que David Fincher lançou em 2007 após ambicioso projeto. Isto porque estamos em 1975 e quem dirige a cena é outro dos mais talentosos cineastas da mesma geração daquele responsável por clássicos como “Clube da Luta“. Estamos falando de Todd Haynes, que no mesmo ano de 2007 lançaria uma das cinebiografias mais interessantes daquela década, “Não Estou Lá“. O apreço pela boa reconstituição, mesmo que isso ocupe um pedaço curto do longa-metragem, é a louvável maneira do diretor nos ambientar a partir de uma direção de arte precisa.

Passado esse período, estamos em 1998, quando o advogado Rob Bilott (Mark Ruffalo) parece pinçado de um bom livro de John Grishan. Apesar de semelhanças com a construção de personagens que renderam boas adaptações aos cinemas (“O Homem que Fazia Chover“, “Tempo de Matar“, “A Firma“, dentro outros) a trama de “O Preço da Verdade” foi extraída de um artigo de Nathaniel Rich publicado no The New York Times. Rob trabalha em um escritório que enriqueceu às custas da difícil defesa de grandes corporações químicas. Como é de praxe nos Estados Unidos, ele seguiu o caminho migratório do interior para se tornar um morador da metrópole assim que conseguiu seu diploma de Direito (no caso, Cincinnati). Até que um dia o destino coloca em sua frente uma comunidade prejudicada por empresas como 3M e Dupont.

Haynes sempre foi um ótimo contador de histórias. Longe de entregar uma direção inventiva, seu trabalho consiste em nos colocar de maneira imersiva em dramas sobre protagonistas que convivem com suas próprias dúvidas. Foi assim em “Longe do Paraíso“, filme que lhe deu a única indicação ao Oscar em 2002 – e também em “Carol“, talvez seu longa-metragem mais emblemático, lançado em 2015. “O Preço da Verdade” se passa em um ambiente transitório entre a pequena comunidade de Connecticut do primeiro e a Nova Iorque cinquentista do segundo.

O grande conflito de Rob, decerto, se passa em sua cabeça. Motivado por uma espécie de dívida moral com a cidade que lhe serviu de lar (marcada na trilha sonora pela escolha do clássico “Take me Home, Country Roads” de John Denver), ele precisa usar seu conhecimento sob os meandros das práticas ruins das empresas que sempre defendeu. A ética como virtude, que Aristóteles se debruçou nos famosos escritos “Ética a Nicômaco“, que levavam o nome de seu filho, é posta a prova por um advogado que não está ali apenas para buscar indenizações pelas vítimas da indústria química. O roteiro de Mario Correa e Matthew Michael Carnahan não foge da simples apresentação dos fatos em ordem cronológica. Com pouco espaço para as incursões pessoais da personagem principal, ousam em um momento marcar território na representatividade. Ocorre quando, em mais uma reunião de homens brancos engravatados, um pomposo jantar nos mostra apenas negros servindo as mesas, enquanto apenas um negro estava lá sentado. Uma época em que esse anacronismo racial era ainda mais pungente.

Quando trabalha com o mote do “homem escrevendo seu destino”, “O Preço da Verdade” se aproxima mais de longas-metragens com esse foco, como “Conduta de Risco” (que Tony Gilroy dirigiu, vejam só, também de 2007). Todavia, toda essa demonstração de mergulho no trabalho se justifica quando a esposa, Sarah (uma Anne Hathaway muito mal-aproveitada, está ali apenas para exercer seu ofício em duas ou três cenas dignas de seu talento), sentencia que “a advocacia é uma amante ciumenta”. Ela surge na abertura do segundo ato e sua participação é bem mal engendrada. Ao mesmo tempo que o filme não é carregado na tecnicidade – apesar de demandar alguns diálogos expositivos – é pouco envolvente. A passagem do caso pelos tribunais, por exemplo, é um brilhareco que poderia render bem mais.

Se Rob é um workaholicda mesma maneira demora muito a se envolver com o caso – como se escolhesse por qual motivo sentira uma culpa inevitável. Como não há sentimentos aflorados ao longo do texto, a curiosidade é aguçada exclusivamente na montagem sobre o andamento do processo em si. O pouco de drama que se extrai segue a ideia cansada de que a empatia necessita obrigatoriamente passar por uma projeção com nossas famílias – no caso do protagonista, os filhos. O caso real envolvendo o escândalo do desenvolvimento da tecnologia do teflon é daqueles em que as vítimas, mais do que dinheiro, queriam repercussão midiática. Tal como aconteceu no Brasil, onde tragédias ambientais jamais levaram a punições relevantes, a Dupont, entre mortos e feridos, segue tomando conta do mercado. Por questões geográficas, o meio-oeste dos Estados Unidos foi afetado nesse caso em específico. Porém, na roda do capital, a identidade das vítimas pouco importa. Eficiente ao informar, “O Preço da Verdade” não vai além por não querer, ao contrário de outras obras de Todd Haynes, humanizar suas relações.

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