O Poço

O Poço é a mensagem

Por Adriano Monteiro

Poucos filmes recentes me causaram tanta vontade de escrever quanto “O Poço”. Chega a ser irônico o filme claustrofóbico da Netflix ter chegado à plataforma e ganhado popularidade no Brasil em meio a uma quarentena forçada devido a pandemia do Covid -19. Se afastando dos muitos lançamentos medíocres do site, é de parabenizar a contemporaneidade e importância política do longa espanhol dirigido por Galder Gaztelu-Urrutia, por trazer elementos do gore e sátira social, com atmosfera de uma distopia sci-fi. Menos literário que “Admirável Mundo Novo” e mais fílmico que “Laranja Mecânica”, mas com a mesma esperança de um final como “Fahrenheit 451”. “O Poço” é um estudo de caso sobre a condição humana, que transpassa a explosiva hierarquia/desigualdade social proposta pelo enredo em brilhante exercício de linguagem.

“Existem três tipos de pessoas. As de cima, as de baixo e as que caem”. A frase expelida pelo velho Trimagasi (Zorion Eguilier) é tão óbvia quanto o “óbvio” que tanto gosta de dizer. De início somos apresentados a uma verdade absoluta. Logo, o protagonista Goreng (Ivan Massagué) acorda confuso em frente a esse homem, dentro do que parece ser um cárcere comum, mas então descobrimos ser um andar intermediário de muitos acima e milhares abaixo. O velho companheiro de cela explica com mistério o funcionamento daquele sistema bastante organizado. Em cada cela há duas pessoas que só precisam comer. Uma plataforma retangular com um banquete requintado desce do andar mais alto ao mais baixo e em cada nível fica por alguns minutos para os presos comerem, até os restos chegarem aos mais abaixo.

A estrutura engenhosa, no entanto, não para por aí. Nenhum dos presos pode guardar alimentos para si com risco de serem carbonizados ou congelados pela temperatura da cela, tudo deve ser consumido naqueles minutos. Assim como, quanto mais baixo for o seu nível, menos será possível se alimentar, já que os de cima não ligam muito para quem está abaixo. O conforto (ou não) é saber que a cada mês você estará em outro nível, seja mais acima ou abaixo, vai depender da sorte. Na luta pela sobrevivência nas profundezas do poço vale tudo para continuar vivo e completar os meses de reclusão, desde ficar o mês se alimentando com água e rezar para estar em um andar mais generoso a almoçar o colega de quarto ou alguns corpos que caem em gesto suicida.

O canibalismo e mais algumas atrocidades humanas é explicitado aqui como consequência dos privilegiados de cima, que não se contentam em comer somente o necessário, fruto muitas vezes da recompensa de comerem o que quiserem após sofrerem um mês inteiro em níveis abaixo. Mais educativo impossível. “O Poço” se utiliza do grotesco de um sistema prisional, que mais se aparenta como um experimento social para elucidar a falta de empatia e solidariedade de nossa sociedade. A comida, representada por um banquete, portanto, altamente “compartilhável” se torna metáfora para o individualismo pulsante. Serve de motor para justificar preconceitos raciais e religiosos, colocados no filme com muita brutalidade. Comer se torna menos uma necessidade, que uma régua de valores mais complexa do que parece.

O protagonista Goreng, muitas vezes é citado como o Messias, em comparações religiosas justificáveis, muito por estar ali por livre espontânea vontade (seu objetivo é parar de fumar) e levado para o confinamento o livro “Dom Quixote de La Mancha”. A pureza do personagem é testada ao limite, pelas provações vividas. É possível perceber uma vontade da narrativa de vender um personagem ilibado. No que, talvez, derrape em trazer cenas de loucura e sonhos, um pouco afastadas da irretocável proposta social do longa. Na busca incessante de um herói, “O Poço” perde o ritmo, ao travar uma luta pelo certo e errado, em uma jornada quase obrigatória a procura de uma “moral da história”. E conseguem afinal.

Nada, no entanto, retira o mérito de “O Poço” ao elucidar temas complexos em uma linguagem, que mescla o gore ao sci-fi com maestria. Do seu design de produção impecável, seguindo uma linha atmosférica do início ao fim. Atuações memoráveis. Incomoda pelo reflexo sugerido de nós mesmos, nada que alguns episódios da série “Black Mirror” já não tenham feitos (aliás “O Poço” poderia se encaixar perfeito na antologia britânica). Em tempos de enclausuramento, chega a ser engraçado um longa tão perturbador ser o mais comentado do momento. Talvez todos estejam em busca de um choque de realidade mais ameaçador ou de apenas um entretenimento de qualidade. Seja qual for, como entretenimento, “O Poço” atinge seu objetivo com folga.

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