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O Peso do Talento

A preço de banana

Por Ciro Araujo

South by Southwest 2022

O Peso do Talento

O mundo do cinema está sempre em uma constante pergunta, mas sem claras respostas: “quem é o melhor ator ou atriz vivo?”. Para os últimos amantes de Hollywood, é Brando. Para os puristas internacionais, alguém como a japonesa Kyoko Kagawa. Os brasileiros celebram Fernanda Montenegro. Mas afinal, onde que Nicolas Cage recai nisso? “O Peso do Talento”, de Tom Gormican, procura identificar o estado da carreira absurda de Nick.

Talvez seja por esse culto à personalidade; porém a questão é que o ator, também sobrinho de Coppola, faz parte da transição entre o uso televisivo de sua imagem e o surgimento da Internet dentro do marketing. Enxerga-se então que Cage seja o reflexo da última geração da película dos Estados Unidos (ah, enfim os anos oitenta e noventa) e a introdução do digital na cadeia de produção norte-americana. Os filmes de ação galhofas se espalharam e entraram de vez na cultura cinematográfica e eis o ator escalado em diversas delas. Aquele que antes era um queridinho por sua estética suspeita de atuação, vira um perseguido. E logo depois, se reencontra, como se aceitasse seu próprio método e sua própria piada. “Mandy: Sede de Vingança”, “A Cor Que Caiu do Espaço”, “Willy’s Wonderland – Parque Maldito”, todos se aproveitaram de Nick; ele também se aproveitou e ressignificou a carreira, ou ao menos a visão midiática que possui. Claro, continuou realizando suas galhofas anuais, talvez para pagar as contas, assim como na obra de Gormican quando realiza um meta-comentário.

Assim, “O Peso do Talento” replica esse estado já avançado de sua carreira, sempre desejando essa metalinguagem incorporando sua própria duração. A comédia acaba surgindo, ao realizar os paralelos, naturalmente. É, contudo, uma faca de dois gumes. Não apenas o filme é produto cultural de contexto, isto é, é necessário possuir um pano de fundo da chamada “cultura pop”, como seu humor se contêm, protegido muito nessa cápsula temporal que é reproduzida. Os absurdos, a autoconsciência presente como motor, tudo está ali. Entretanto, é acompanhado de galhofas que trabalham através do que é um mecanismo plastificado, ou melhor, reproduzido tecnicamente e já tão cansado.

E acompanhando a metalinguagem, vem o repetido. O filme de Tom Gormican recebe o elenco mais pesado que Nicolas Cage contracena em anos, desde Pedro Pascal até Alessandra Mastronardi. Ou seja, um viés internacional, o ação que derivou de “Um Golpe à Italiana”, com Michael Caine. Esse olhar combina muito com Nick, que contribui perfeitamente para o ritmo da comédia contemporânea norte-americana, que consiste hoje em um protagonista falho, irônico, mas finalmente, capaz. Essa é a fórmula que o texto escrito pelo cineasta e por Kevin Etten.

Pois saibam então que Gormican é, ou ao menos parece, incisivo na troca de gêneros. A arte de subverter está ali presente, como se fosse realmente um twist. Veja bem, o diretor, ingênuo, acreditava que seria interessante desde cedo introduzir a técnica do foreshadow e resulta no que é também óbvia tentativa de presumir apenas como tudo proposital. O resultado, na verdade, traz diante dessas duas traições – uma reviravolta que é propositalmente tosca – apenas falhas de sensações ou humores. O previsível, cuja intenção era do cineasta, torna-se o porre do longa-metragem. As referências arrastam e arrastam entorno da resolução que poderia ser, se não antes existisse um resto de filme para finalizar, encerrado.

É normal criticar faltas de esmero nas pontas de obras. Mas Nicolas, extravasando de toda essa ação que já passara, não se encontra tanto quanto em suas outras tentativas. Talvez esteja chegando em mais uma de suas saturações, do cinema de produtoras abaixo dos (agora) Big Fight. Mas provavelmente é apenas um pequeno sintoma que não se persiste, já que ainda assim “O Peso do Talento” é um aficionado na carreira do ator: o culto à personalidade. Só que agora, é tudo muito digital, a sequência da autoconsciência de todos seus filmes. Necessário para alguém que um dia fez “Coração Selvagem” e logo após comprovou-se como perfeito candidato para protagonizar tamanho filme. Cage é de fato um ator muito ator, ou seja, aquele que performa dentro de sua própria vida ativamente para o exterior; e precisa disso. A mídia, na verdade, é ele próprio e não as redes sociais. Seja lá o que ele está fazendo, se vende de forma diferente da maioria de Hollywood; mas a preço de banana, pelo tanto que ele está fazendo.

3 Nota do Crítico 5 1

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