O Pai da Rita
Diferentes formas de memória
Por Vitor Velloso
Durante o Festival do Rio 2021
Joel Zito Araújo é um dos nomes mais importantes do cinema brasileiro há pelo menos duas décadas, tanto pelos debates em torno da representação do negro na televisão brasileira com “A Negação do Brasil”, livro e documentário de 2000, quanto pela insistência em reforçar os imensos talentos de Ruth de Souza, Léa Garcia e Zózimo Bulbul com o “Filhas do Vento” (2005). Seu novo longa-metragem “O Pai da Rita” é uma ficção que une comédia e drama em uma trama que discute as drásticas mudanças na tradição do samba, no tradicional bairro Bixiga e na própria compreensão de resistência dos corpos negros.
Claro que a trama que engloba a paternidade de Rita ganha um foco maior nessas dinâmicas entre os personagens, mas Joel Zito consegue representar um universo que demonstra seus conflitos geracionais sem atravessar gravemente seu eixo central. Assim, de maneira natural consegue ir introduzindo esses debates em sua estrutura. Um bom exemplo disso, é a cena em que Roque (Wilson Rabelo) e Pudim (Ailton Graça) vão em uma festa de jovens do bairro e sentem-se deslocados das manifestações culturais que ali acontecem. O Quilombo homenageia eles, não faz uma ruptura com o passado, pelo contrário, a grande questão sempre foi o resgate da ancestralidade e a luta pelo reconhecimento. E é justamente neste ponto que todos no local conseguem se conectar, no discurso de Roque, ao lembrar da dificuldade vivida pelas imposições de uma sociedade que explora o trabalhador e os negros.
“O Pai da Rita” é uma obra que sabe como se dividir entre os gêneros, sendo capaz de gerar humor com seus diálogos mas eficiente no enfrentamento do tempo diante de seus personagens. A relação que envolve a personagem de Elisa Lucinda e Ailton Graça, demonstra com precisão como parte do Bixiga viu de perto a brutalidade do avanço dessa suposta “modernidade”, de como a idade revela que as memórias parecem cada vez mais distantes e a nostalgia não é uma opção para quem necessitar sobreviver no mundo predatório. Assim, os entraves que marcam o passado e o presente estão estampados na maneira como cada um deve lidar com seus problemas. Não por acaso, a personagem de Léa Garcia é amargurada com diversas pessoas, pela forma com que o passado cria chagas nessas relações. Sua personagem é de pulso firme e obriga as pessoas a se resolverem no exato instante do seu comando. Com essa postura, diversas questões internas da obra encontram resolução na força de suas falas, uma versão nada particular que diversas famílias brasileiras irão reconhecer de imediato.
De toda forma, a montagem procura espaço para desenvolver os conflitos propostos pelo roteiro, seja no novo sambista premiado na roda ou no moralismo dominante que julga a forma dos outros de ganhar ou viver suas vidas. Nesse quesito, o longa acaba vacilando em criar um ritmo que sustente tantos paralelismos, especialmente por conta de uma encenação que artificializa essa paisagem histórica. Sendo essa uma questão das obras de ficção dirigidas pelo Joel Zito, uma construção de espaço e tempo que não consegue priorizar os contextos políticos formalizados pelo texto. O que não acontece na estrutura de seus documentários, capazes de provocar a discussão através da realidade e ir a fundo na materialidade de suas temáticas. “O Pai da Rita” demonstra um avanço expressivo nos dramas do cineasta, especialmente no terço final e como encontra os desfechos dramáticos sem procurar no exterior alguma motivação ímpar. O problema é que essas transições por vezes parecem inacabadas, por exemplo na sequência que eles querem tirar satisfação com Chico Buarque para a cena final, a proposta acaba se deslocando e torna-se inconclusa.
Sem dúvida, o maior mérito do longa é saber construir essas divergências temporais e geracionais a partir de uma narrativa realmente divertida e capaz de criar representações que não fogem da realidade.