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O Mundo Depois de Nós

Não sou um robô

Por João Lanari Bo

O Mundo Depois de Nós

O Mundo Depois de Nós”, longa de Sam Esmail, estreou nesse final de 2023 na Netflix – estreia global, que só os tentáculos do poderoso streaming são capazes de produzir. Hoje parece quase natural que isso aconteça, isso que é de uma força descomunal: a Netflix é produto da vertigem digital que a combalida civilização terráquea mergulhou há míseros vinte e poucos anos, talvez trinta, conhecida também pelo nome de internet. Uma imensa nuvem de dados abriga em algum lugar da ciberesfera a vasta oferta audiovisual da emissora, armazenada na nuvem maior da (concorrente) Amazon e perdida no infinito universo de dados que que paira no éter …o que nos aguarda?, diria a sabedoria popular. E se algo não-humano controlar tudo isso e resolver detonar geral? O irônico é que essa situação, em princípio apavorante como um bom filme de Hitchcock, pode ser também assunto de cinema, puro entretenimento. Bem vindos ao mundo da virtualidade absoluta.

Não é de hoje que o espetáculo hollywoodiano se alimenta dessas ansiedades coletivas que batem à nossa porta. Transatlânticos que se chocam com icebergs, torres que se incendeiam, aflições que se reproduzem. O medo que “O Mundo Depois de Nós” trabalha, entretanto, é mais pervasivo, insinuante como uma onda quântica de quarks, partícula elementar e um dos constituintes fundamentais da matéria (curioso é que o nome quark seja homenagem a …James Joyce). Qual é o temor do momento, o desconhecido que nos espreita? Nove em dez estrelas do cinema diriam, claro, é a Inteligência Artificial: quantos trabalhadores vão perder seus empregos, quantos advogados vão sobreviver à padronização e agilização de sentenças, quantos roteiristas de cinema e TV vão conseguir resistir ao tsunami que se espera com a inacreditável facilidade que tornará viáveis enredos audaciosos e inovadores? No limite – e se ela, a IA, tornar-se autônoma?

Baseado no romance de Rumaam Alam, a história que a Netflix decidiu produzir (em parceria com o casal Michelle e Barack Obama) acompanha a família Sandford, cujo polo feminino, Amanda (Julia Roberts), resolve abruptamente passar uma temporada na praia em Long Island, logo ali, do lado de Nova York. Amanda é uma Julia Roberts quase irreconhecível: odeia a tudo e a todos, sua expressão é transparente (méritos da atriz e do make-up). No caminho o sinal do celular desaparece, até aí tudo bem, tudo normal. No primeiro dia no mar, um petroleiro desgovernado desembarca na areia e encalha – aí a coisa muda de escala, mas o acontecimento parece assimilável à família nuclear. Na sequência, o sinal da TV cai, algo inimaginável, e cervos se aproximam. É então que a disrupção assume um aspecto físico, tangível: um homem negro, vestido de smoking, e sua filha, assertiva e atraente, aparecem do nada no meio da noite – um apagão atingiu Nova York, e eles saíram a esmo, acabando naquela casa de veraneio. Que é propriedade dele, GH Scott (Mahershala Ali, também excelente no papel). Amanda reage mal e pergunta: esta é a sua casa? O “sua”, desnecessário ressaltar, vem carregado de agressividade.

Nessa altura do campeonato, cabe a indagação: o que pensaram os Obama acerca desse clima sombrio e cínico que começa a tomar conta de “O Mundo Depois de Nós”? O império norte-americano, esse colosso que se arvora de xerife mundial, da Ucrânia à Faixa de Gaza, revela-se subitamente frágil, vulnerável. Um sussurro eletrônico é capaz de derrubar aviões e centrais elétricas, impondo desordem onde antes havia ordem, sustentada por uma miríade de conexões. Não é possível que essa realidade à nossa volta, esse mundo em que trafegamos e interagimos, possa simplesmente ruir dessa forma. A hipótese de um ataque inimigo parece uma caricatura, personificada no personagem Danny (Kevin Bacon, perfeito na caracterização). Mesmo os (supostos) merchandisings ocultos, materializado no engavetamento de veículos Tesla sem motorista, não tem centro nem comando.

A referência a Elon Musk não é acidental: ele é um ponto nodal do emaranhado de dúvidas e incertezas que nos assola nesse início do século 21. Se pagou ou não pela aparição dos Tesla, é irrelevante – na geleia geral da entropia contemporânea, a marca está presente. Faz parte da paranoia coletiva que preenche aos poucos a narrativa, que tem seu pico nos ruídos ensurdecedores, cada vez mais frequentes, vindos não se sabe de onde. Tal como o fantasma da Inteligência Artificial que promete um princípio organizador da profusão de dados que comanda nossas vidas, a paranoia se instala e ocupa o espaço acústico.

A ironia final de “O Mundo Depois de Nós” é sua própria organização temporal, modulado ou não por mentes humanas: dividido em quatro atos, o filme não passa do primeiro. This is the end, my only friend, the end, dizia Jim Morrison.

3 Nota do Crítico 5 1

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