O Mundo de Gloria

Há futuro para Gloria?

Por Fabricio Duque

Em suas obras, Robert Guédiguian filma a França de dentro e sempre à procura da gênese cotidiana e da naturalista essência de existencialismo social. As crônicas, pelo micro-ambiente, que captam intimidades, fragmentam histórias comuns de personagens em colapsos financeiros à beira de seus limites. O que fazer quando o próprio sistema os hostiliza e os impede de possibilidades? Seu mais recente filme, “O Mundo de Gloria”, corrobora a verve de uma crítica-observação. Pela contemplação orgânica da estrutura de uma família, que cada vez se encontra com mais “reviravoltas” situacionais. O longa-metragem é um estudo de caso pela perspectiva de uma bebê recém-nascido, para assim questionar que “novo mundo” é esse. Que futuro essa criança encontrará. Sua mãe precisará se prostituir (repetindo o que a mãe de sua mãe precisou fazer para vencer a miséria e a fome). Seu pai precisará roubar para prover uma melhor vida. Sim, aqui, o verbo precisar é mais importante que o o substantivo composto livre-arbítrio.

Ninguém tem escolha, tampouco liberdade. Franceses “sofrem” iguais aos “imigrantes”. Vivem nas brechas, como “moscas no lixo”. Alguém se preocupa? Não. A humanidade não consegue mais sentir nem o amor. Aproveitar a vida e descansar são utopias e luxos de um “progresso”, este pululado de jovens sonhadores, que nunca aprenderam o real valor do dinheiro. Consume-se para ter mais. Tudo causa a exaustão do próprio existir. Nas primeiras cenas do filme “Notre Dame”, de Valérie Donzelli, um ensaio-hipster-blasé de semelhante problematização romanceada-fantasiosa, uma rádio notifica que a depressão só cresce entre os franceses. Será que não estamos “dando moral” demais à globalização?

Guédiguian faz, em “O Mundo de Gloria”, um balé de coloquiais movimentos espontâneos, iniciado pelo nascimento de um parto. Sua câmera passeia por uma cidade não turística, visitando “lugares perigosos”, estes que já foram palcos de felicidades passadas. De uma época mais simples. Menos robótica. Com humanização. Nós somos convidados (pelos olhos de ex-preso – uma metáfora de que lá dentro é mais livre que aqui fora) à viagem de um ônibus e/ou por andanças e assim percebemos que estamos aprisionados em uma falsa liberdade. O exército nas ruas; lojas de “pobres” que exploram os mais “pobres”; os refugiados em barracas nas ruas; o preço da gentrificação. Mas será que toda mudança é sempre para melhor? O poder irrestrito ao capitalismo faz bem à saúde mental de um povo? O que esta obra nos mostra é o completo inverso. Um dos primeiros filmes de  “Plataforma”, de Jia Zhang Ke, consegue iluminar com respostas as nossas dúvidas metafísicas. Neste, o dinheiro é a pauta diária principal de cada um. De sobrevivência e de “status”.

Outra maestria do filme está na condução de seu tempo narrativo. Há uma naturalização tão livre de encenações, que, por vezes, achamos que é um documentário por câmeras escondidas. Quando a ideia da greve acontece, os reais necessitados dão uma aula de realismo contra a utopia de jovens “revolucionários” em querer aumentar dois euros no salário. “O Mundo de Gloria” transcende a própria discussão inicial, que pode soar como o cinema social de Ken Loach e/ou dos Irmãos Dardenne e/ou do ativismo literário de Denys Arcand e/ou até mesmo a psicopatia-financeira de “Eu Me Importo”, de J Blakeson, que recentemente estreou no catálogo da Netflix. Aqui, todas as ações trabalhistas são por necessidade. Uma resignação-insight de saber que lutar não resolve nada. Uns escolhem pela “exploração”. Outros, pela honesto e árduo ofício de limpar o chão e/ou dirigir ônibus. Só que a impressão que se tem é a de este sistema não quer mesmo a felicidade de ninguém. E uma “escorregada” já é mais que suficiente para jogar com “sadismo”, quase uma versão legalizada do vilão Ramsay Bolton do seriado “Game of Thrones”.

“O Mundo de Gloria” é isso. Fragmentos da vida de uma família em desestruturação, que consequentemente gera a sagacidade de não vencer para ser melhor e/ou pela glória, e, sim, para comer por exemplo. A crítica fica mais explícita e afiada. Uma França em decadência moral e humanitária, que devota ao dinheiro não mais se solidariza com a “vida que importa” de seus “próximos” alheios. Sim, mas vamos pensar com as regras contemporâneas. E se a médica permitisse um paciente não totalmente curado de seu braço voltasse a dirigir? E se o “patriarca” da família não falasse no celular enquanto estivesse dirigindo? E se… Nunca saberemos. Só que o mundo de hoje busca prever, algo como “Minority Report”, adestrando a todos a não sair das “demarcações” permitidas de suas celas abertas. A impotência-vulnerável, trabalho, a morte e a aniquilação do ser humano. Pilares de uma França atual que Robert Guédiguian quer nos “acordar”.

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