O Mês que Não Terminou

6 Fragmentos de um País em Ruínas

Por Roberta Mathias

Durante o Festival do Rio 2019

Com narração de Fernanda Torres o documentário “O Mês que Não Terminou” de Francisco Bosco e Raul Mourão é essencialmente uma construção cronológica dos acontecimentos políticos no Brasil desde as manifestações de junho de 2013 até os dias atuais. Na sessão de gala ocorrida no MAM, o curador da instituição Ricardo Cota apontou para a importância dos filmes exibidos até então no espaço como um panorama político e social do país. Integrante da Mostra Première Brasil: Fronteiras dentro do Festival do Rio de 2019, o filme encarna perfeitamente esse papel.

Ao nos mostrar a fundação de um edifício vazio, os diretores parecem apontar para um fato que muitas vezes esquecemos – ou nos forçamos a esquecer – e que serve para pensar em qualquer constructo social. A sociedade é pautada por direcionamentos e convicções formadas a partir de construções ideológicas, políticas, religiosas…. Enfim, somos frutos de uma base em construção. Se essa base não for bem construída, corre o risco de ruir. Esse parece ser exatamente o caso do Brasil. Com uma democracia ainda frágil, qualquer abalo pode colocar em risco nossos sonhos democráticos.

Ao utilizar obras contemporâneas que ora pareciam sair de um filme de ficção distópico, ora se aproximavam da realidade árida do país, os realizadores de “O Mês que Não Terminou” acertaram em cheio no âmago do momento que vivemos. Já não sabemos mais o que é real, o que é falso ou o que é uma mescla de ambos. Nesse cenário complexo e confuso, como a narradora Fernanda Torres repete algumas vezes para descrever as decisões políticas adotadas nos últimos anos, figuras da extrema direita ganham força por falta de enfrentamento direto da oposição. No Brasil, estamos acostumados a pisar em ovos dentro do embate político ou utilizar de uma agressividade despropositada que deslegitima alguns “senhores e senhoras”. Não estou falando dos manifestantes – que tiveram seu movimento vandalizado -, mas de figuras centrais para o jogo político: os políticos.

Em uma sociedade democrática, a oposição é central para manter niveladas algumas questões e decisões no âmbito social e econômico. Nos últimos anos, não estávamos vendo qualquer oposição que pudesse se declarar séria – ah, o deboche, essa arte que o brasileiro parece dominar com maestria – porém, a seriedade da oposição é tão central para o jogo político, quanto a seriedade do governante. Quando fazemos chacota dos personagens políticos, estamos ajudando a enfraquece-los, estamos migando sua legitimidade. Aconteceu com Dilma, com Lula e com o PT em geral. Isso, por si só, não seria um problema. A chacota pode ser uma estratégia política – já o faziam os gregos –  nós, no entanto, não apresentamos soluções.

Parece ser uma dificuldade fundante desse país apresentar soluções para problemas urgentes. Tendemos a postergar, a maquiar, a viver em negação. E aí, quando tudo desaba, convocamos a figura do pai tirânico, como aponta a psicanalista Maria Rita Kehl em algum momento de “O Mês que Não Terminou”. A figura do pai que vive um gozo desmedido, que se utiliza da lei para os outros, mas não para si, que limita o corpo do seu filho – um ser que vive aprisionado, julgado, ferido. Um pai autoritário. Parece com algum nome que atua em nossa política?

O documentário, dividido em seis partes, narra a crescente insatisfação da mídia e do povo até a chegada da extrema direita ao poder. No entanto, lembra que essa chegada tem muito a ver com a falência do Centro como opção. Nenhuma figura desse espectro, seja Centro-direita, seja Centro-esquerda, se mostrou suficientemente forte para lidar com a ira dos corpos pintados, dançantes e sincronizados. O cenário político se tornou exatamente aquilo que sempre foi, uma encenação. Agora, no entanto, seus agentes se orgulham disso. Ao abrir mão da credibilidade como centro de plataforma política, a nova direita brasileira inaugura uma nova era – nome também de uma igreja evangélica, por sinal. E, aqui, não falo com ironia.

Ao deixar de lado uma série de cidadãos e não os entender como participantes do jogo político, nossos representantes e nós mesmos – que nos consideramos esclarecidos e politizados – deixamos abertas brechas para que outros discursos chegassem a essas pessoas. E, eles chegaram. Através da internet.

O combo da incoerência, o medo do “outro”, o deboche, o desdém. Todos esses, são sintomas da fragmentação política, mas também de uma escolha. O filósofo Bruno Latour defende que é bem possível que nunca tenhamos sido modernos porque nunca alcançamos os ideais da Modernidade. Escolhemos fingir que alcançamos. É uma escolha diária e reiterada. Em um país que grita que já não mais aceita o Centro, precisamos pensar em quais escolhas iremos tomar desde escovar os dentes até o fim do dia. O ano de 2013 realmente nos relembrou algo: a política se faz na rua. Se algum dia seremos modernos, eu não sei. Mas, talvez, seja a hora de tentar lidar de fato com os problemas que a Pós-Modernidade ou a Modernidade Tardia (escolha sua vertente filosófica de preferência) nos trouxe.

 

 

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