O Lutador

A vocação transcendente

Por Pedro Guedes

 

Falar é sempre mais fácil do que fazer. Quando vemos uma pessoa caída, é fácil dizer que “tudo ficará bem”, mas nem sempre conseguimos ajudá-la a se levantar. É fácil chegar para Randy “The Ram” Robinson, o protagonista deste belíssimo “O Lutador”, e exigir que ele “siga em frente” depois de descobrir que nunca mais poderá fazer aquilo que ama (lutar), mas a verdade é que nós mesmos dificilmente seríamos capazes de largar aquilo que amamos. E há um motivo para isso: às vezes, a tal “vocação” é muito mais do que um ganha-pão que descobrimos dominar relativamente bem; é também algo que nascemos para fazer, algo que simplesmente não conseguimos largar nem por um dia. “O Lutador” é um filme que compreende isto, mergulhando o espectador na rotina excruciante de um sujeito que, ao contrário de Rocky Balboa, não teve nenhuma “volta por cima”, preferindo pôr sua vida (infeliz) em risco para segurar o pouco de felicidade que ainda lhe restava.

Marcando a estreia do roteirista Robert Siegel no Cinema (seu trabalho anterior, “The Onion Movie” foi lançado direto em vídeo), “O Lutador” nos apresenta a Randy “The Ram” Robinson, que ganha a vida lutando wrestling (uma luta livre na qual os competidores planejam o combate antes de executá-lo de fato – o que não significa, no entanto, que os participantes não se machuquem gravemente na prática) e que foi bastante popular nos anos 1980, mas que agora parece apenas relegado à memória de um passado glorioso. Sustentando-se através de sessões de autógrafo e de pequenas lutas organizadas em ringues pequenos, Randy passa por uma mudança radical em sua vida ao infartar após um “vale tudo” pesadíssimo – e, ao acordar no hospital, um médico lhe dá a pior notícia que poderia receber: agora que se tornou oficialmente “cardíaco”, é importante que Randy se mantenha completamente afastado dos ringues, não voltando a exercer sua amada profissão. Ora, mas como um ícone como “The Ram” poderia parar de lutar? Isto é algo que o protagonista tenta resolver ao lado de sua melhor amiga, a stripper Cassidy.

Representando uma espécie de ruptura com o estilo que Darren Aronofsky vinha exibindo em seus projetos anteriores, “O Lutador” é provavelmente o filme mais “certinho” da carreira do diretor: aqui, não há tanto espaço para simbolismos matemáticos (“Pi”), estruturas narrativamente insanas (“Réquiem para um Sonho”) ou metáforas existenciais (“Fonte da Vida”); o que realmente importa para Aronofsky é a natureza dolorida de Randy Robinson e o estudo de personagem proposto pelo roteiro. E, para mergulhar na vida do protagonista, o cineasta adota uma abordagem que leva o espectador a sentir uma cumplicidade inevitável com “The Ram”: obviamente evocando um estilo quase documental em sua maneira de enfocar a rotina do lutador, Aronofsky e a diretora de fotografia Maryse Alberti optam por manter a câmera na mão e sempre próxima do rosto de Randy, como se realmente estivessem filmando seu dia a dia para um documentário – e esta impressão se torna ainda mais forte graças à montagem de Andrew Weisblum, que frequentemente salta de uma cena à outra através de cortes secos, bruscos e nada esquemáticos.

A mesma naturalidade encontra-se na construção do som, que dá preferência a ruídos diegéticos (ou seja: pertencentes à lógica interna daquele universo, podendo ser ouvidos também pelo protagonista) na maior parte do tempo – e os detalhes presentes no design sonoro conferem fisicalidade e verossimilhança ao que vemos em tela: quando Randy anda dentro de sua casa, por exemplo, o barulho provocado pelos adereços cênicos não apenas sugere o quanto o protagonista é desorganizado (deixando um monte de tralhas espalhadas pelo chão) como também ressalta a solidão ao seu redor. Ainda assim, a atenção dada aos sons diegéticos não anula a trilha instrumental de Clint Mansell, que, surgindo em momentos pontuais da narrativa, empregam acordes sutis de violão que sempre complementam bem o drama dos personagens e da história. Já o designer de produção Tim Grimes demonstra inteligência ao estabelecer a lógica visual daquele universo, sendo notável, por exemplo, que a casa de Randy se resuma a um trailer apertado, sufocante e desconfortável – o que, claro, reflete o estado emocional de seu ocupante.

Elegante ao contrapôr, nos primeiros minutos de projeção, a glória que Randy obteve no passado à decadência que ele atravessou de lá para cá (a sequência de créditos iniciais mostra manchetes de jornais e capas de revistas exaltando as vitórias do lutador – e já antecipando sua “rivalidade” com o colega/amigo Ayatollah –, sendo imediatamente sucedida por um corte seco que nos traz ao presente e que revela Randy sozinho em uma sala enquanto espera seu pagamento após uma luta), Aronofsky demonstra cuidado ao registrar toda a selvageria presente no wrestling, mantendo a câmera sempre próxima aos lutadores e fazendo o espectador sentir-se dentro do ringue (o que, por si só, é algo angustiante). Além disso, o diretor faz questão de enfocar todos os ferimentos que os lutadores vão adquirindo à medida que vão se estapeando, mostrando de pertinho, por exemplo, um adversário grampeando a pele de Randy e arrancando os grampos com um garfo – e, por mais que seja doloroso de ver, é fundamental que Aronofsky escancare isto justamente para que o público entenda os riscos proporcionados pelo wrestling.

Neste sentido, “O Lutador” serve também como uma denúncia de como o wrestling pode representar um risco à vida – não é à toa que muitos wrestlers morrem por volta de 40 ou 50 anos de idade, tamanha a brutalidade envolvida nas lutas e a sobrecarga dos batimentos cardíacos. Assim, Aronofsky nos mergulha dentro da ação visceral daqueles combatentes, muitas vezes impedindo o espectador de enxergar com clareza todos os golpes desferidos pelos personagens a fim de fazê-lo absorver o sentimento de caos que envolve estes momentos (e, aqui, o design de som volta a se destacar, conferindo clareza e “peso” aos socos, chutes, cortes, pancadas e até mesmo aos gritos da plateia durante as lutas). Aliás, é impossível não reconhecer o brilhantismo de Weisblum, em especial, no momento que antecede o infarto de Randy: alternando entre o presente (que mostra Randy no “camarim” após a luta) e o passado (que mostra a luta em si), o montador consegue estabelecer esta não linearidade sem permitir que o espectador fique confuso em relação à ordem cronológica dos acontecimentos, o que é não só elegante, mas prático.

Mas um dos elementos mais importantes de “O Lutador” está… nas costas de Randy (ou nas costas de Mickey Rourke, seu intérprete). Sempre seguindo o protagonista com a câmera mais ou menos na altura de sua nuca, Aronofsky estabelece dois significados com esta abordagem: 1) retratar o peso que Randy carrega em suas costas; e 2) criar uma rima visual com todos os momentos nos quais “The Ram” está se encaminhando para o ringue. Pois a vida, afinal, é um ringue. E esta retórica atinge o auge na magistral cena do açougue, em que Randy, agora trabalhando nos fundos de um supermercado, está diante de uma daquelas cortinas fatiadas de açougue, prestes a encarar seu primeiro dia de trabalho, e escuta “Ram! Ram! Ram!” em sua mente – e o que acontece é que, ao atravessar as cortinas, Randy se depara com outro tipo de “ram” (os restos de ovelhas que venderá no açougue). Ainda assim, ele se esforça para manter algum resquício de sua antiga vida, tratando os clientes do supermercado exatamente da mesma forma como tratava seus fãs (e chegando a fazer uma anotação numa embalagem do jeito como assinava autógrafos para seus admiradores). Em outras palavras: por mais que Randy Robinson tente ser Robin Ramzinski (seu nome de batismo; o que venho citando até agora nada mais é do que um nome artístico), o fato é que, na prática, ele é… Randy Robinson, ou “The Ram”. E a espetacularização faz parte de sua persona a ponto de se refletir na cena em que finalmente explode, abandona o supermercado e resolve retomar o wrestling (independente dos riscos que isso venha a oferecer).

Mas é claro que a cena não funcionaria sem a inteligente construção que a antecedeu no roteiro: ao longo do segundo ato inteiro, acompanhamos os esforços de Randy Robinson em se tornar Robin Ramzinski, arrumando um emprego no tal açougue e, principalmente, tentando se reaproximar da filha Stephanie, que o odeia. Mas não adianta: Randy é Randy, não Robin. Não é à toa que todas as suas tentativas de construir uma vida fora dos ringues terminam em fracasso – e também não é por acaso que Randy simplesmente não consegue melhorar como pessoa, tomando atitudes não apenas egoístas, mas também burras. O que culmina, claro, na cena em que a relação entre Randy e Stephanie chega ao fim (e que, confesso, me parte o coração desde a primeira vez que vi o filme, aos 13 anos de idade). E o mais doloroso é que Randy se importa, sim, com Stephanie; se ele falha em estar presente, é graças à sua irresponsabilidade, não a um possível desprezo pela garota. Mas ela também tem motivos para odiá-lo, sendo compreensível, portanto, a vontade de não querê-lo em sua vida.

“O Lutador” é sobre um cara já falho e que se torna ainda pior quando tenta viver sem a luta. O que nos traz à soberba atuação de Mickey Rourke, que deveria ter vencido todos os prêmios do mundo por seu trabalho aqui – aliás, o que aconteceu em 2009 foi, sem dúvida, uma das maiores injustiças da história do Oscar, quando Rourke perdeu a estatueta de Melhor Ator para Sean Penn. (Sim, o desempenho de Penn em “Milk” também é fabuloso, mas… quem merecia aquele Oscar era mesmo Rourke.) Por sinal, a história de Randy tem muito a ver com a do próprio Rourke, que, galã nos anos 1980 (lembrem-se dele em “9½ Semanas de Amor”), desfigurou o rosto quando tentou mergulhar no mundo do boxe, entrou em decadência depois disso e ganhou uma chance de ressurgir quando foi escalado para viver “The Ram”. Exemplificando todas as limitações físicas do protagonista, Mickey Rourke sugere o cansaço e a indisposição de Randy a partir de sua respiração constantemente carregada, destacando-se também ao manter a voz embargada, como se fizesse esforço para completar uma frase sequer. Além disso, a performance física de Rourke convence o espectador de que Randy está sempre machucado e “travado” graças às lesões que colecionou após décadas de lutas. Para completar, só o monólogo de Randy à beira-mar já justifica o Oscar que Rourke deveria ter ganhado, aplicando as principais ferramentas de composição (choro, pausas, baforadas, etc) nos momentos certos.

Ao lado de Randy Robinson, há outro arco significativo: o de Cassidy, a stripper que logo assume a função de melhor amiga do protagonista. Aliás, se Marisa Tomei adquiriu a imagem de “beldade” ao longo de sua carreira, aqui ela ganha a oportunidade de subverter esta visão ao encarnar uma personagem que se sente velha, ultrapassada e cada vez menos atraente (quando ela oferece uma lap dance aos clientes do strip club em que trabalha, praticamente todos respondem com “Não, obrigado” porque a consideram “feia”) – e sua ligação com Randy vem justamente do fato de identificá-lo como alguém que pode acompanhá-la em sua derrocada (e, talvez, em uma possível redenção?). Seja como for, a verdade é que Tomei é outra que certamente merecia ter ganhado o Oscar em 2009, em vez de perder para a irritante performance de Penélope Cruz em “Vicky Cristina Barcelona” (aquele foi um dos piores Oscars dos últimos 15 anos…). Fechando o trio principal, Evan Rachel Wood usa o pouco tempo que tem para retratar Stephanie como uma jovem machucada pelas decepções do passado e que, por isso, tem imensa resistência à possibilidade de revivê-lo, pois qualquer tentativa de exorcizar seus demônios pode resultar em um arrependimento imediato.

Se Rocky Balboa sempre podia contar com Adrian, Paulie e Mickey no córner para prestigiá-lo, Randy “The Ram” Robinson termina a luta final sozinho. No caso de Stephanie, por odiá-lo; no caso de Cassidy, por se importar com ele a ponto de não aguentar vê-lo morrer no ringue. Não se sabe, claro, se Randy morreu ao fim de “O Lutador“, já que Aronofsky prefere encerrar o filme sem mostrar o que veio depois do último “salto do carneiro”. O que importa é que “The Ram” terminou seu ciclo particular sentindo-se, ao menos, realizado.

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