O espião

O que é a velhice?

Por Victor Faverin

Durante O Festival É Verdade 2020

O que é a vida? Por décadas, o programa televisivo “Provocações” fez – e repetiu em seguida – essa pergunta na sempre enfática voz de Antônio Abujamra – hoje com Marcelo Tas. As respostas dos entrevistados foram das mais profundas às mais simplistas, mas nem por isso menos significativas. O documentário “O espião” (2020), dirigido e escrito pela chilena Maite Alberdi (que também é crítica de cinema) traz a reflexão do olhar para dentro para entender o que acontece do lado de fora, para compreender o sentido de tudo o que está à volta e o papel do ser humano nessa torrente de acontecimentos, frutos, ou não, do acaso. Os Beatles já perguntavam, em 1967, se “você ainda irá precisar de mim, ainda irá me alimentar quando eu estiver com sessenta e quatro anos”. E quando for 70, 80, 90 anos? O homem e sua necessidade de atenção, de amor e de se sentir útil constantemente faz dele, certamente, o mais vulnerável dos animais, principalmente quando a idade avança e o tempo castiga, irrefreável, impiedoso.

“O espião” é um retrato tocante, poético e cortante da fragilidade e sabedoria que a velhice traz a cada um de nós. O documentário com narrativa e filmografia de longa-metragem, em um hibridismo que levanta questões sobre os limites do gênero cinematográfico, nos brinda com pessoas-personagens espirituosos e marcantes. A finitude da vida está entranhada a cada frame do segundo e terceiro atos, mas as percepções evocadas não possuem data de validade, inoxidáveis desde o tempo em que percebemos, pela primeira vez, que não somos indestrutíveis. A história gira em torno de Sergio, senhor de 83 anos que é escolhido, durante um curioso processo de entrevistas, para adentrar em uma casa de repouso e verificar se determinada paciente está sendo bem tratada, sendo, assim, os olhos e ouvidos de um detetive particular contratado pela filha da idosa. A trama não funcionaria se a missão dada fosse cumprida à risca, ao pé da letra. Outras nuances entram naturalmente no debate de questões que sempre estiveram à mostra, mas nunca foram suficientemente debatidas.

Temos, a partir de então, momentos de riso fácil, de compassividade e benevolência à flor da pele, muito pela falta de traquejo de Sergio com a tecnologia – pré-requisito para o preenchimento da vaga – mas, principalmente, por sua natureza de homem sensível e atento às necessidades do outro. Entre as investidas como espião, portando até caneta e óculos com lentes gravadoras, há no protagonista o genuíno desejo de se inteirar com os demais residentes. Os diálogos são outro ponto forte do documentário. Tudo é decorrido de forma natural, fluída. Cada olhar para a câmera, direto ou de soslaio, funciona como se o equipamento fosse apenas mais um adorno em volta de tantos outros. Nesse sentido, temos um pouco das chamadas fake documentary series (como The Office e Parks and Recreation), mas com tons tragicômicos, principalmente na figura da idosa que diariamente insiste em sair em busca da mãe.

O cotidiano do estabelecimento em que vivem os anciãos lembra o retratado pela igualmente comovente série britânica “Derek” (2012-2014). O encontro entre décadas de experiências é prazeroso de perceber em “O espião”, mas, ao mesmo tempo, a sensação de abandono e solidão sentida pela quase totalidade dos residentes é quase palpável. O mais triste é saber que tudo ali é verdade, nua e crua, replicada aos montes em cada bairro, cidade e país do mundo. Ainda que os funcionários da casa de repouso organizem uma rotina de atividades na medida para não deixar os pacientes demasiadamente entediados e nem cansados, Maite Alberdi não se furta em filmar idosos em bancos ou cadeiras de rodas sozinhos, como se fossem espólios acumulados em uma batalha contra o tempo. Esse olhar, ainda que às vezes quebre o ritmo da trama, é absolutamente fundamental.

No decorrer de “O espião”, o espectador pode ficar na dúvida se a contratação de Sérgio e o objetivo que o levou à moradia são verdadeiros ou se a filha e o detetive se uniram para criar uma trama que facilite a sua ida ao asilo, tal como o pai que não deseja o filho como espectador dos horrores da guerra e inventa histórias para entretê-lo, como em “A vida é bela” (1997). A resposta vem ao final de forma agridoce.

Trailer

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