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O Diabo Branco

Moldando terrenos por recortes hereditários

Por Fabricio Duque

O Diabo Branco

Seria utópico e até errôneo afirmar que realizadores não buscam referências cinematográficas para imprimir suas afinidades. Um filme é muito mais que um filme. Representa predileções, conhecimentos de mundo, limitações, fragilidades, egocentrismos e consumos comportamentais dos diretores. Cada um, por mais que se esconda na ficção, se expõe sem defesas para um público, que pode ser cúmplice e/ou extremamente crítico. Em “O Diabo Branco”, o ator argentino Ignacio Rogers, que estreia agora na direção de longas-metragens, traz o cinema de gênero, por ser “fã desde criança”, evocando o terror real nosso de cada dia, em que o perigo está na loucura condicionada e não no sobrenatural. O que poderia ser mais uma obra com típicas características de sustos gratuitos, “O Diabo Branco” ensaia um “pós-terror” (denominação abominada por críticos) ao conduzir a trama por uma atmosfera artificial, que lembra um misto do tempo narrativo de Lucrécia Martel com “Hereditário”, de Ari Aster. E/ou com M. Night Shyamalan. E/ou com Lisandro Alonso. Só que essa estranheza sensorial tende mais ao universo “Twin Peaks”, de David Lynch, ao potenciar aqui a teatralidade da encenação. É como se a própria construção do estranho fosse explicitamente ensaiado, querendo a quebra perceptiva da realidade do espectador pelo tom mais caseiro e amador, tentando assim, talvez, uma identificação cúmplice mais próxima.

Exibido no Festival Bafici 2021, “O Diabo Branco”, uma coprodução entre Brasil e Argentina (tendo André Ristum como produtor), quer o protagonismo da loucura, causada pelo radicalismo de uma seita, e também quer todos os gatilhos comuns deste filme de gênero, observados já no início, intercalando-se suspense em ação e música de carga catártica. E os rituais em uma floresta. Este preâmbulo indica o que virá a seguir. A próxima cena. Quatro amigos jovens dirigindo ao som de uma música clássico pelo interior da Argentina. Sim, em poucos minutos, nós sabemos que eles já deveriam sair dali. Nós somos convidados a participar de banalidades e idiossincrasias. Fumar no carro, um dos exemplos desses quereres imediatos e urgentes. O que mais incomoda é mesmo a tentativa em naturalizar a espontaneidade da estranheza. Soa forçado. Artificial. Mas toda e qualquer obra deste tipo “precisa” apresentar essas subjetividades das personagens. E os clichês do gênero, como vozes-sussurros; correr ao encontro do perigo (“”Sexta-feira 13”); luzes apagadas; sonos profundos (à moda de “A Hora do Pesadelo”). E também pistas e detalhes, para que assim, nossa mente junte os pontos ao decorrer da história, como as fotos de cabeça para baixo e/ou a faca na grama “para não chover” e/ou fitas VHS deixadas na porta. E/ou como os moradores do vilarejo (rodado na província de Tucumán) que parecem possuídos em um transe de comandos assassinos.

“O Diabo Branco” deixa claro que deseja apenas transpassar um conceito. Uma ideia do terror. Uma sensação de apenas estarmos assistindo o que se filma. Não, não é um filme metalinguagem. É usar as características clássicas do cinema de terror pra construir a atmosfera de medo. É trazer John Carpenter, Dario Argento, Robert Eggers para dar forma a uma autoralidade, ainda que pareça homenagem demais. O próprio diretor explica, facilitando a vida deste crítico e do público: “De alguma forma (e exagerando), procurei ser uma espécie de conquistador do gênero, apropriando-me de um terreno já existente e moldando-o de acordo com minhas próprias regras pessoais, que também, de certa forma, são regras locais, latino-americanas.”. Sim, nós entendemos os propósitos, mas o roteiro, do diretor, Paula Manzone e Santiago Fernandez, se perde nele mesmo, passando o ar de apressado, afobado e desengonçado, com muitas “barrigas” e pontas soltas não finalizadas, algo como um exemplar de Filme B, facilitando aparições, reviravoltas, ajudas do nada e razões do porquê de tanta oferenda com sangue. Talvez para, sem motivos, tentar ser um blasé aberto, entre amor pela terra. “O Diabo Branco” reverbera na verdade a nova estética do cinema, agora menos arthouse e mais orgânica. Contudo, o melhor do filme mora em seu final, e com cenas pós créditos, que surpreende por não prender a figura do mal, no melhor estilo espectral de “Twin Peaks”. “É uma tendência natural me inclinar para o terror, que desperta em mim sensações viscerais muito fortes e que estimula de maneira especial a minha criatividade. Lidar com o terror talvez seja uma forma de destilar toda a escuridão e violência que percebo no mundo e em mim mesmo.”, finaliza Ignacio Rogers, que quer “deixar sua marca como a dos filmes “A Bruxa”, “Corrente do mal”, ou “Corra!”.

2 Nota do Crítico 5 1

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