O Conto das Três Irmãs
No meio do caminho...
Por Vitor Velloso
“O Conto das Três Irmãs” de Emin Alper chega aos brasileiros como o drama múltiplo que é, não por temáticas diversas, mas compreensão de diferentes perspectivas da mesma narrativa. As vertentes vão se somando em uma obra que não compreende uma estrutura temporal que diverge de uma passagem rápida, diária. Porém, as reverberações são longínquas.
O filme caminha em uma tênue linha entre seus personagens, onde as relações são dadas através de um tecido repleto de julgamentos, punições e repressões. A violência parece estar infiltrada em cada segmento do drama, pois a sociabilidade não é uma vertente que se compreende em pacificidade. O “covarde” é um criminoso, absolutamente violento, que se utiliza das fragilidades alheias para inflar-se perante os demais. Porém, ao se deparar com a masculinidade exterior, é violentamente escorraçado, por não ser um “homem” nos padrões que se almeja. A violência do mesmo, não é levada em consideração, uma tentativa de estupro e assassinato é visto como um grau de desonra, não como crimes. O julgamento é moral e incisivo, a sociedade julga e penaliza quem deve. O passado é desvirtuado mas cobra o presente, em miragem de futuro.
Os “títulos” institucionais, nas microrrelações, não são monumentos idílicos como no cristianismo, essa proposta se vê com uma força que extrapola uma base que recorre a deidades. É uma legislação comum, social, de traves explicitamente fundadas em dogmas extensos. A própria narrativa concebe essa mutabilidade fálica, em suas representações masculinas que não mantém um mínimo de dignidade perante as mulheres. São refrega(s) particulares que, travadas no cotidiano, contra o orgulho dos que as cercam. Orgulho esse que, novamente, se vê ancorado em verdadeiros monumentos materiais. A casa é o refúgio da conversa que atravessa o passado, sobre sexualidade, romances etc, mas é a prisão que tanto corrói a alma. A misancene é uma geografia única, onde aquele pequeno espaço de terra, um vilarejo, gera os entraves para o drama ocorrer.
Tudo que se vê exterior à isso, está amplamente ditando o ritmo do interior, suas relações pessoais e atitudes futuras. E o sonho vira uma impossibilidade material, deve-se recorrer ao significado mais digno do mesmo, mas concessões e permissões possuem seus intermediários. A montagem do longa compreende isso em uma pluralidade que funciona em um esquema parcialmente esquemático, há subterfúgios onde a música se torna mimética e a cena se solidifica como um imaginário de liberdade. São pequenas fugas da narrativa e da estrutura que acabam comprometendo o ritmo do filme, pois o caráter concreto da trama vai se diluindo nas consciências paralelas, diferentemente de um recorte que amplia a possível centralização da história. Por isso, após metade da exibição, o espectador se vê cansado, interessado em determinados núcleos narrativos e desinteressado em outros. A cena da conversa de sexo é bem construída por não interromper esse fluxo que constrói, com simbolismos explícitos e falas onde filtros não são bem-vindos.
Em “O Conto das Três Irmãs”, por outro lado, o bloco que apresenta o homem em discussão com os demais, se torna uma espécie de justificativa para tentar fugir de uma possível leitura dogmáticas dessas instituições. Por esse caminho, apesar de efetivo, o filme passa a dialogar drasticamente, no campo da linguagem, com um pragmatismo bastante europeu, no pior sentido da coisa. Ou seja, planos e cortes parecem seguir uma tendência dos encaminhamentos de novidades, já arcaicas, no Velho Continente. Assim, de um interesse pelo espaço e pelos personagens, passamos a vislumbrar uma obra que quer angariar prêmios nos prestigiados ciclos acadêmicos.
Por fim, é uma pena que “O Conto das Três Irmãs” possua um direcionamento ao reconhecimento dos tacanhos e mesquinhos, pois o filme possui um potencial de construção crítica da realidade, absolutamente vigoroso, que se perde em fugacidades programadas e um didatismo eloquente que engana poucos. Acaba sendo mais uma obra de importação, luxuosa, mas que raramente vai arrancar algum esboço de seu espectador. Infelizmente, delinear os esforços à empatia generalizada, tornou-se um âmbito comum do cinema contemporâneo que visa algum aplauso burguês. Ainda assim, o filme consegue um destaque entre os lançamentos e é sutil pérola no mar de desgosto frequente.