O Chamado da Floresta

Entre a Escravidão e o Neoliberalismo

Por Jorge Cruz

É estranho ouvir a inoxidável trilha da 20th Century Fox e ver o nome de um dos maiores estúdios da história do cinema limado dos créditos iniciais. Chamando esse novo braço da empresa apenas de 20th Century Pictures, a Disney lança nos cinemas brasileiros essa semana “O Chamado da Floresta“, adaptação de uma das primeiras obras de Jack London, ambientada na Corrida do Ouro do final do século XIX. O escritor, nascido em San Francisco, tem nesse romance uma das mais famosas acusações de plágio. Lançado em 1902, um ano antes do livro de London, “My Dogs in Northland” do canadense Egerton Ryerson Young possui uma trama tão parecida que o norte-americano não apenas admitiu a “inspiração”, como enviou uma carta agradecendo pela receita do sucesso.

Ao contrário da adaptação de “Martin Eden“, que chega em março de 2020 no circuito nacional, “O Chamado da Floresta” não é autobiográfico. Na direção, a escolha de Chris Sanders foi fundamental para a ambientação de aventura familiar, como não poderia deixar de ser. O cineasta conseguiu a proeza de ser indicado ao Oscar de melhor animação por todos os três trabalhos anteriores na função: “Lilo e Stitch” (2003); “Como Treinar seu Dragão” (2011) e “Os Croods” (2013). Aqui há uma insistência pela adição do digital em todas as cenas, sempre envolvendo animais. Momento em que a discussão sobre a desnaturalização de obras como essa merece espaço.

Por um lado é louvável a tentativa de acabar com toda e qualquer exploração de animais em sets de filmagem. A Universal sentiu o peso desse novo entendimento ao ver uma de suas grandes apostas de 2017, “Quatro Vidas de um Cachorro” sofrer uma fake news de maus-tratos do elenco canino. Sendo assim, a ética e o respeito à integridade física de todos os seres torna inevitável o caminho para o CGI. Outro benefício é que, com a digitalização, personagens como Buck podem ser, de fato, os protagonistas de suas histórias. Por outro lado, há um exagero que acaba desnaturalizando as ações. Quando a Netflix nos contempla em seu catálogo com boa parte da filmografia do estúdio Ghibli, onde o destaque fica por conta da aula de naturalismo da animação, incomoda um pouco ver uma obra tão artificial, por mais que o elenco se esforce para entregar um bom trabalho.

Essa artificialidade ganha a pesada contribuição das incansáveis sequências utilizando drones, uma constante no cinema atual. Soma-se o excesso de narrações como muleta para o desenvolvimento da trama e encontramos em “O Chamado da Floresta” uma produção que por mais de uma vez flerta com questões menos superficiais e, como era esperado, desperdiça esses valiosos temperos em um feijão aguado, onde pouco sabor será notado.

A primeira esperança de que a adaptação de Michael Green (que não para de emplacar grandes projetos após sua indicação por “Logan” de 2017) se aliaria com força às intenções de Sanders acontece quando Buck chega ao Alasca, após o sequestro que o tira de seu lar originário. Há uma criação de atmosfera ali, quase como uma via crucis de um cão aparentemente condenado pelo restante da vida que lembra o mesmo estranhamento de uma nova terra pelos quais passavam os humanos escravizados nos portos da América poucas décadas antes. Há uma busca constante pela criação de empatia com Buck, porém traçando paralelos próximos com os dramas humanos. Uma reflexão cada vez mais vilipendiada, porém urgente, eis que vivemos em uma sociedade em que é mias fácil a comoção por animais ao invés de homens e mulheres.

Não à toa, o protagonista encontra como primeiro amigo na nova fase da vida a personagem de Omar Sy, um descendente de escravizados oriundos do lado francês do Canadá. Contudo, “O Chamado da Floresta” segue seu objetivo de ser mais uma obra para engrossar o catálogo do Disney+, prestes a ser lançada em todo o planeta. Privilegia a aventura em um longa-metragem que acreditar ter o potencial de se igualar às adaptações de “Caninos Brancos” (1991, estrelada por Etahn Hawke) e “A Incrível Jornada” (1993, com vozes de Michael J. Fox e Sally Field). Esquece, todavia, que nos últimos trinta anos não há espaço na grade da “Sessão da Tarde” para tantas aventuras caninas lançadas.

Voltando à digitalização, a possibilidade de interações mais dinâmicas entre os animais acaba potencializando as sequências sem humanos. No caso dessa produção, acabam se tornando as cenas mais desinteressantes, posto que mal engendradas. Tecnicamente, o filme está longe de ser um primor, visto que é de se imaginar que a Disney iria preterir as obras do espólio da Fox. Com isso, o CGI em muitas situações deixa a desejar, nos fazendo lembrar de produções justamente do início dos anos 1990. A metáfora que permitiria a redenção de Buck se perde assim que ele aceita sua condição de “melhor amigo do homem”, ficando feliz por cumprir sua missão, mesmo que fruto de sua exploração.

Até que chega o momento em que John Thornton (Harrison Ford) ganha peso na trama. Por ser um clássico nos Estados Unidos, as adaptações de “O Chamado da Floresta” sempre são marcadas pela escolha de astros veteranos nesse mesmo papel. Foi assim em 1972 com Charlton Heston e em 1997 com Rutger Hauer. A chegada dele vem quando Buck perde sua “função” com a extinção da rota dos Correios em que ele trabalhava, sendo ele vítima do desemprego por força de um precoce neoliberalismo canino. Se o título da crítica foi o que te trouxe até aqui, o mistério encontra-se desvendado. Até que chegamos ao ponto em que o longa-metragem para de funcionar de vez, a partir da construção de Hal, a personagem de Dan Stevens. Sempre bom mencionar que o ator abandonou “Downton Abbey” no auge do sucesso para aceitar papeis medíocres em Hollywood. Sua vilania até não soa exagerada, mas a maneira racionalizada com a qual o roteiro de Green lhe utiliza se revela outro incômodo. Uma pessoa que aparentemente não tem noção alguma de deslocamento pelo Alasca no inverno, dependendo da análise crítica de um grupo de cães, ressurge como um “exército de um homem só” como mágica.

Se o terceiro ato rompe totalmente com a lógica, há tempo para encontrar mais dois destaques, um positivo e outro negativo. O primeiro acontece quando a primavera toma conta dos cenários e Chris Sanders (ainda sem abandonar o drone) esquece de nos bombardear com inserções animadas e nos coloca de vez naquele ambiente, com uma multiplicidade de cenários bonitos que por alguns momentos nos faz esquecer do antagonista incongruente. O segundo joga fora as possibilidades criadas pelo primeiro. Ao explorar o encontro de Buck com sua ancestralidade, “O Chamado da Floresta” troca a pequena contemplação ensaiada por um exagero de inserções narrativas. Ou seja, uma obra que flagrantemente sofreu na pós-produção por um caminho conservador. Mesmo com toda a boa vontade disponível e esse longo e cansativo desfile de argumentos, no final das contas o filme é aquilo que todos temíamos: mais uma aventura de cachorro. Só que poderia não ser – e quase não foi.

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