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O Caso Padilla

O Círculo da História

Por João Lanari Bo

Durante o Festival É Tudo Verdade 2023

O Caso Padilla

O poeta, despeçam-no!

Esse não tem nada o que fazer aqui.

Não entra no jogo.

Não se entusiasma.

Não deixa clara a sua mensagem.

Não reconhece sequer os milagres.

Passa o dia inteiro ironizando.

Encontra sempre algo ao que objetar.

(Heberto Padilla, Fora de jogo, 1968, tradução Dilan Camargo)

O Caso Padilla”, realizado por Pavel Giroud em 2022, é basicamente um filme de arquivo: na noite de 27 de abril de 1971, sede da UNEAC – União dos Escritores e Artistas Cubanos – o poeta Heberto Padilla performou um dramático exercício de mea culpa ideológica, assistido por seus pares e outros notáveis da cultura local. Estavam lá cineastas (Gutiérrez Alea, Manuel Octavio Gómez e Santiago Álvarez), músicos (Ardévol, Urfé), pintores (Raúl Martínez, Fayad Jamís, Mariano Rodríguez) e uma plêiade de escritores e dramaturgos, os mais destacados da ilha. Padilla havia sido preso um pouco antes, em 20 de março, e ficou 37 dias atrás das grades amargando um processo de reeducação ideológica – e para ser libertado, concordou em fazer a autocrítica diante dos colegas de ofício, presentes no encontro.

O poder revolucionário cubano, midiaticamente associado à personalidade de Fidel Castro, obrigou o escritor a um castigo público, como se fosse o próprio povo cubano quem estivesse fazendo justiça. Para arrematar, Fidel autorizou a filmagem do evento, conduzida por Santiago Alvarez, um dos melhores documentaristas latino-americanos. No dia seguinte, mudou de ideia: proibiu a difusão do material. Meio século depois, um parente de Giroud, que trabalhava no ICAIC – Instituto Cubano de Arte e Indústria Cinematográficos – surrupiou uma cópia e o documento veio à luz. Vazou e virou filme, hélas.

Trata-se, portanto, de um filme de arquivo – arquivo aqui entendido, no caso de Cuba, como espaço de processamento de traumas nacionais, em particular a obsessão da Revolução em vigiar narrativas que, de um modo ou de outro, afetassem o poder político. Em 1968, Padilla venceu o prestigioso o Prêmio “Julián del Casal” da UNEAC com “Fuera del Juego”, apesar das pressões das autoridades para que o livro não fosse premiado. Os jurados – entre ele, o grande José Lezama Lima, a essa altura também admoestado pelo regime – resistiram às críticas oficiais, que apontaram em Padilla uma atitude anti-histórica, exaltando o individualismo em oposição às demandas coletivas de um país em pleno desenvolvimento histórico; e também afirmando sua ideia de tempo como um fenômeno recorrente…um círculo repetitivo em vez de uma linha ascendente.

O Caso Padilla” revela mais do que um episódio lamentável de censura artística operada pela Revolução: ao utilizar um dispositivo clássico do stalinismo soviético – confissão e humilhação públicas por meio do arrependimento sobre supostos desvios ideológicos, obtidas a partir de tortura psicológica e lavagem cerebral – a Revolução cubana assumiu de vez um caráter opressor e totalitário. Foi, em suma, o ponto de virada (não o único, mas um dos decisivos) da relação de Fidel Castro e seu projeto revolucionário com boa parte dos escritores que apoiavam a trajetória cubana. Duas cartas foram publicadas no Le Monde pedindo a libertação de Padilla, assinadas, entre outros, por Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Italo Calvino, Susan Sontag, Mario Vargas Llosa e Cabrera Infante. Gabriel García Márquez foi incluído sem consulta na primeira carta, mas pediu que seu nome fosse retirado na segunda. Júlio Cortázar disse que Padilla não era nem traidor nem mártir: o caso seria uma crise de crescimento da revolução.

O custo de perder suporte internacional não abalou, ao que parece, a decisão de Castro de produzir esse evento grotesco. O material original, filmado em 16 mm preto e branco, alcançava pouco mais de três horas: sem edição, é um material denso, muito aborrecido… no filme, o espectador pode vê-lo quase integralmente, afirmou Giroud. Consta que Fidel viu o material bruto, achando que tudo aquilo poderia gerar um bom debate: logo percebeu que não era uma boa ideia, pois deixava as autoridades em péssima situação. Padilla se autoincrimina por seus erros contrarrevolucionários e enaltece seu processo de conscientização, graças às lições dos companheiros carcereiros. Depois de um discurso inflamado – pontuado por uma gestualidade típica do líder maior, Fidel – o escritor convida companheiros escritores, inclusive sua mulher, a fazer o mesmo.

Quando tudo parecia encaminhar-se para um final pateticamente previsível, um dos escritores, Norberto Fuentes, contraria o script e recusa-se a fazer a autocrítica: é quando, numa irrupção brechtiana, o militar Armando Quesada, que dirigia a revista El Caimán Barbudo, entra no palco e acusa Fuentes de ameaçar os interesses das Forças Armadas Cubanas e o poder que fez triunfar a Revolução.

O Caso Padilla” ingressa no circuito de exibição em um momento onde a Revolução cubana vive, senão seu ocaso, seu ofuscamento – o mundo mudou, e a História, circular ou ascendente, girou e acompanhou. Padilla foi para os EUA e lá faleceu, no ano 2000, numa espécie de limbo político, nem à esquerda nem à direita. Norberto Fuentes, por seu turno, ficou amigo íntimo de Fidel, mas acabou se queimando no episódio de tráfico de cocaína atribuído ao General Ochoa, um dos heróis da revolução, em 1989: livrou-se de eventual acusação graças à mediação de Garcia Márquez. Depois foi para os EUA, onde vive entre Miami e Virginia.

4 Nota do Crítico 5 1

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