Ficha Técnica

Direção: Beto Brant
Roteiro: Beto Brant e Mauricio Paroni
Elenco: Marina Previato e Gustavo Machado, com participação de Gero Camilo
Fotografia: Heloísa Passos
Montagem:Julio Andrade
Música: YB music, Ezsoundtrax, Simone Sou, Alfredo Bello
Produção: Renato Ciasca
Distribuidora: Espaço Filmes
Estúdio: Drama Filmes
Duração: 80 minutos
Ano: 2009
País: Brasil
COTAÇÃO: MUITO BOM

A opinião

O novo filme do diretor Beto Brant, inicialmente realizado para uma série de quatro capítulos do projeto Direções III, em conjunto pelo SESC-TV e TV Cultura de São Paulo, utiliza a experimentação interativa com o espectador para vivenciar a construção do amor na convivência entre uma videoartista e um ator durante três semanas num apartamento em São Paulo. Tudo pode ser encenação ou não.

O entendimento é manipulado entre a realidade e a ficção. A camera digital, de um granulado real, apenas aproveita a luz do próprio ambiente, como a do abajur, realizando assim um quase estilo Dogma 95 (a estética do dinamarquês Thomas Vinteberg “Festa de família” e Lars Von trier “Os idiotas”), porém poético. O não convencional incomoda o visualizar, mas gera o questionamento do ‘como ver’. A imagem apresentada é real, não recriada ou inventada em uma sala de edição. Cansa, mas a observância demasiada também causa sono. Todos os elementos são experimentados: enquadramentos, sons (em alguns momentos não entendidos – por serem baixos), metalinguagens e cortes secos.

Os diálogos são cotidianos, corriqueiros, banais como todo relacionamento. O sexo acontece, o carinho também, o abraço, mas a realidade do momento transpassa um gênero de observação, como se eles não soubessem que estão sendo filmados e interpretam eles mesmos. É o momento idiossincrático de dois apaixonados na normalidade do dia-a-dia. “Você valoriza”, diz-se. O que se diz pelo casal, em certos momentos, é enfatizado e escrito na tela. As manias entre os casais estão presentes, um exemplo é o ensinamento do movimento da língua enquanto uma pipoca é comida.

“O mais difícil em interpretação é o bocejar”, ensina-se enquanto os que estão do outro lado da tela espiam os instantes absorvidos. Uma diretora (Marina Previato) realiza fazer uma videoarte com um ator (Gustavo Machado – está no filme “Quanto dura o amor” – aqui no blog) e envolve-se com ele. É o tempo real sendo retratado. “Só os nossos predadores reparam nos nossos pescoços”, divaga-se.

O ator no teatro como ator é referenciado. Explicita-se a digressão sem externalizar a trama. As músicas participam do filme. Casam-se com as imagens. Um exemplo é a indiana desencadeando uma atmosfera sexy, sexual e sensual sem ser apelativo.

O mostrar de um ovo chocado, intercalando com imagens da parte de dentro desse ovo apresenta-se a visceralidade. “Você come carne crua. O que é um ovo chocado?”, diz-se. O detalhe de uma formiga em cima de um quadro de Djanira une arte e simplicidade bucólica. A música new wave realiza o flashback de alguns momentos. “A gente tem que se cobrar a totalidade”, indaga-se.

“Você é uma atriz. Você é amaldiçoada. As atrizes estão sempre tristes de verdade, por isso são tão animadas”, divaga-se. O tempo de cada coisa recortado em uma narrativa não linear. O que se sabe que é sábado de carnaval. Sobre o fim de um relacionamento “O desdém é o fim”. Sobre os chatos “Não há perdão para os chatos”. O filme tenta descrever e rotular os elementos da vivência de cada um. É uma videoarte da própria videoarte. As captações filmados pela personagem durante o longa ‘ficcional’ são apresentados no final, sem cortes em uma experiência sensorial de cores, luzes e sensações.

O simbolismo está presente. A placa de Pirituba – Itaim Bibi. A tatuagem de ‘diferente’ dela. Os questionamentos sobre a arte de Gero Camilo. A fala prosaica. O limite entre um e outro. As metáforas do existir, do ser e do estar.

Inspirado no personagem Benjamim Schianberg do livro Eu Receberia as Piores Noticias dos Seus Lindos Lábios, de Marçal Aquino e com o filme incidental “A concepção”, de Belmonte, aborda a espera, a ida e ou a chegada.”Você tem que ter paixão pelo objeto que você quer documentar”, diz-se.

Em vários momentos não convence. Soa artificial e sem o aprofundamento necessário de conectividade. Torna-se cansativo. Contudo é um filme único. Um reality show diferenciado e acrescentador. Crescente com seu amor não óbvio gerando a repetição do que já se viu ou ouviu, com frases de efeito e prontas, sobre o sentimento mais complexo do mundo. O filme transforma a linguagem. Joga com a inerência do que já se é ou está sendo. Libera o ‘por quê’ dos porquês.

Vencedor dos prêmios de Melhor Fotografia (Heloísa Passos) do Festival do Rio em 2009; e de Melhor Ator, Prêmio de Melhor Atriz e Prêmio da Crítica no Festival de Cinema Luso-brasileiro de Santa Maria da Feira.

Vale a pena ser visto. Pelo experimentalismo simplista de não buscar nada. De retratar a arte pela arte, sem se importar com o comercial por trás de tudo. O filme está em apenas uma sala, em um único horário.

O Diretor

Beto Brant, nascido em Jundiaí, no interior paulista, em 1964,foi pequeno para São Paulo. É um diretor de cinema brasileiro, graduado em cinema pela Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP) em 1987. Inicialmente foi diretor de videoclipes. Os mais marcantes foram os clipes dos Titãs, todos do álbum Titanomaquia (1993).

Sua carreira como curta-metragista foi marcante. O curta Jó foi o primeiro filme de sua lista de produções premiadas em festivais ao conquistar o título de melhor curta-metragem no Festival de Havana.

O primeiro longa-metragem, Os Matadores, conta a história de assassinos de aluguel da fronteira com o Paraguai. O thriller policial apresentava um elenco considerável para um iniciante: Murilo Benício, Chico Diaz, Adriano Stuart, Maria Padilha, Wolney de Assis e Stênio Garcia. A estréia teve boa receptividade e rendeu, entre outros feitos, as estatuetas do Kikito de Ouro de melhor diretor no Festival de Gramado e a do Lente de Cristal no Festival de Cinema Brasileiro de Miami.

O segundo longa foi Ação entre Amigos. O enredo da trama expõe o dilema de quatro ex-militantes do período de resistência à ditadura militar e possibilidade de se depararem, anos mais tarde, com o torturador do passado. Quatro personagens diferentes, quatro perfis de ex-torturados diferentes que misturaram conformismo com sede de vingança e travaram, pouco a pouco, um debate sobre anistia e justiçamento. O elenco foi composto por figuras menos conhecidas, elemento que permitiu uma maior identificação entre personagens e público. Mais um longa, mais prêmios: o “bi” em Miami, o Troféu Passista no Festival de Recife, além de uma repercussão internacional marcante.

O terceiro longa foi O Invasor. A trajetória de sucesso do filme começou com o Festival de Brasília, com os prêmios de melhor diretor, melhor trilha sonora e o de ator-revelação para o integrante dos Titãs, Paulo Miklos, amigo feito no período dos clipes. O músico surpreendeu por sua performance dual cômica/soturna, venceu a categoria de melhor filme latino-americano em Sundance e dividiu as atenções com o rapper Sabotage (autor dos diálogos de Miklos, de músicas da trilha e de uma participação especial). O elenco conta com Marco Ricca, George Freire, Alexandre Borges, Jayme Del Cueto, Mariana Ximenes, Tanah Correa, Chris Couto e Malu Mader.

Em Recife, venceu a competição com sete prêmios: melhor filme, direção, fotografia, montagem, trilha sonora (Sabotage), ator (Marco Ricca) e atriz coadjuvante (Mariana Ximenez).

É destaque da geração de longas-metragens dos anos 90, sua brilhante carreira não surpreende em festivais culminando premiações, principalmente em seu último filme, O invasor (2001) como no Festival de Brasília (melhor diretor) e no Sundance Film Festival (melhor filme latino-americano).

Um dos melhores frutos do investimento estatal e exemplo do difícil percurso que um cineasta enfrenta para alcançar uma boa produção é O invasor. O filme, apresenta uma característica das produções brasileiras: chegou a ser disputado e comprado no Festival de Berlim por distribuidoras estrangeiras sem ter um distribuidor nacional interessado. Com orçamento baixo (R$ 1 milhão), os patrocínios vieram de prêmios (R$ 370.000 do próprio Ministério da Cultura e R$ 300.000 da estatal BR Distribuidora), em apoios (como do Estúdio Mega, da Quanta – Equipamentos, e da Videofilmes – empréstimo de câmeras e equipamentos), além de diversas locações cedidas gratuitamente e até cachês modestos para os atores.

Beto Brant, dotado de um estilo próprio na forma como conta suas histórias ou pelo conteúdo delas, brinca com fórmulas narrativas do cinema policial norte-americano com tramas provocativas, essencialmente brasileiras. Seu objetivo era o de ver seus filmes serem exibidos na TV aberta, como “qualquer outra fita do gênero”.

Não será propriamente uma surpresa se alguém resolver traçar um paralelo entre O Invasor e Cidade de Deus, da mesma forma que Ação entre amigos e O que é isso companheiro? foram confrontados. Parâmetros de comparação não faltam: é possível traçar esta abordagem pelo conteúdo, pela estética ou até mesmo pelas próprias estruturas com as quais os dois filmes foram construídos.

Outra característica do trabalho de Beto Brant é realizar filmes que começam e terminam com reticências, mas que não se tratam de obras abertas. Os filmes terminam num clímax surpreendente e que não se extingue, deixam o espectador em suspenso, estupefato com o ponto em que as coisas chegaram. Talvez seja este o efeito que o cineasta deseja atingir com relação ao próprio status da realidade brasileira.

Filmografia

2009 – O Amor Segundo B. Schianberg
2007 – Cão sem Dono
2005 – Crime Delicado
2001 – O Invasor
1998 – Ação entre Amigos
1997 – Os Matadores
1993 – Jó (curta-metragem)
1989 – Dov’e Meneghetti? (curta-metragem)
1987 – Aurora (curta-metragem)

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