Nosso Lar

Facebook
Twitter
WhatsApp
Pinterest
LinkedIn

Ficha Técnica

Direção: Wagner de Assis
Roteiro:Wagner de Assis, baseado em livro de Chico Xavier
Elenco: Renato Prieto, Fernando Alves Pinto, Othon Bastos, Paulo Goulart, Rosanne Mulholland, Inez Viana
fotografia:Ueli Steiger
música:Philip Glass / Guto Graça Melo
direção de arte:Lia Renha
figurino:Luciana Buarque
edição:Marcelo Moraes
efeitos especiais:Intelligent Creatures
estúdio:Cinética Filmes / MIgdal Filmes / Globo Filmes
distribuidora:Fox Filmes do Brasil
produção:Iafa Britz
Duração: 102 minutos
País: Brasil
Ano: 2010
COTAÇÃO: FRACO

A opinião

Entender a narrativa proposta é embarcar literalmente na doutrina espírita. Os livros kardecistas, por causa do médium Allan Kardec, escolhem o lado emocional das tragédias da vida. Energia, reencarnação e livre arbítrio são elementos recorrentes na crença do espiritismo. A literatura objetiva a atenção do leitor pela ingenuidade, simplicidade e um questionamento sobre a vida atual, impondo, de forma didática, as regras e ensinamentos deste meio espiritual. O longa do diretor Wagner de Assis diferencia-se do filme “Chico Xavier”, quando este aborda o aprofundamento do personagem, aquele busca a fidelidade da história apresentada. São vertentes diferentes.

“Nosso Lar” apresenta-se como um retrato das pessoas que seguem a doutrina em questão. Esses seguidores transpassam calma, resignação e pureza exacerbada. Buscam sempre a energia positiva, olhando e vigiando os seus pensamentos. Eles acreditam que um sentimento ‘para cima’ liberta a alma e acalenta o espírito. E que a vida terrena já está projetada antes da viagem do plano astral ao mundo de passagem (este que nós vivemos aqui e agora).

Há divergência e polêmica, porque quebra crenças católicas e instaura tabus quando substitui o inferno pelo umbral (lugar que os seres ainda não evoluídos permanecem até que o crescimento espiritual – remissão dos pecados – aconteça). Não é tão diferente do catolicismo, mas é uma nova visão sobre as perguntas universais e existenciais: ‘Quem sou eu?’, ‘De onde eu venho?’ e ‘Para onde vou?’.

O período retratado é 1930/1940 e retrata a jornada de um médico após sua morte. Ele acorda num mundo espiritual e vê desde os primeiros dias, numa dimensão de dor e sofrimento, até ser resgatado para uma cidade espiritual chamada Nosso Lar. Os sentimentos humanos – de pressa pelo conhecimento, prepotência, orgulho e defesa – ainda estão enraizados. O objetivo do filme é a transformação da percepção dos personagens.

O Vertentes do Cinema não analisará a doutrina espírita, mas sim a narrativa cinematográfica que o roteiro se baseia. O longa comporta-se de forma ágil, guiando o espectador na fantasia apresentada, por metáforas clichês, como nuvens fazendo inferência ao plano astral. A camera parte do close para o plano aberto superior. Com isso, ambienta o que irá apresentar e explicita sem palavras. Porém há redundância. A narração explica o que se vê. Em certos momentos, há interação da imagem, um desses casos é a velocidade que se cai até uma poça de lama. Entende-se o umbral. Um lugar fétido e nojento, significando a provação por não se cuidar na Terra. “A vida passa por várias etapas”, diz-se.

A digressão transporta o espectador a novos elementos nostálgicos. É um folhetim em tom de novela, principalmente pela escolha dramática dos diálogos. Há uma apelação ao emocional de quem está assistindo. Busca-se despertar a mais profunda sensibilidade. Esse ponto é fiel ao livro. A atmosfera escrita possui uma dramaticidade exagerada sendo didática e ingênua nos ensinamentos. “Perdi toda noção de tempo e espaço. Dores no corpo e na alma”, diz-se entre passagens temporais de efeito, utilizando a elipse momentânea de novos elementos da trama.

“Um dia tudo vem à tona e não é tarde demais”, diz-se. Podemos perceber a escolha pelo tom teatral. As interpretações são encenadas e explícitas. Alguns instantes não há a explicação, opta-se pelo gestual. A epifania, fantasiosa, caminha junto. Espíritos que se transformam em luzes e viajam no tempo e no espaço. A morte e a tempestade. Seres superiores com iluminação ensolarada. Mensagens holográficas. Leitos de hospitais que flutuam. Passes que curam, rapidamente, feridas. Transportes velozes. O portão de pedra que se abre como mágica. É tudo muito futurista. Mesmo um crente desta doutrina desconfia do que está na tela. A música participa aumentando o grau de emoção. É tão sentimental que chega cortando quando a usa no tom máximo.

Há momentos de graça. O que torna o filme interessante é quando se ironiza a própria crença (elemento que o filme “Chico Xavier”, de Daniel Filho tem de sobra). “Agora você já pode comer, a sopa está de primeira”, brinca-se. Outro momento é quando se pede para que coloque a água na boca e não a engula, artimanha usada para deixar a outra pessoa quieta. “O ceticismo termina quando se acorda no mundo espiritual”, diz-se. “Lei da ação e reação”, “Suicídio inconsciente”, “Catástrofe silenciosa” e “Aflição não resolve os problemas. O bom da vida é recomeçar”, ensinam-se alguns dos preceitos do espiritismo. O magnetismo é explicado fazendo o espectador compare que a arquitetura utilizada é a de Oscar ‘Niemayer’, com tecnologia que utiliza computadores para mandar mensagens aos seres terrenos.

Há críticas. “Aqui os dirigentes dão o exemplo”, sobre uma reunião com o governador do local. Na sala de um dos ministros, há símbolos de outras religiões, colocando em prática o respeito e a liberdade de escolha. “Eu não me culpo, mas também não me absorvo”, diz-se. Em certo momento, percebemos o lado julgador dessa doutrina, quando é confrontada com alguém que não acredita. “Não há erros aqui”, diz-se. As figuras do médico prepotente e da garota mimada são diretrizes para a tão esperada redenção. A música clássica é presente. Em todos os momentos. Uma das personagens diz “Que papo moralista!”. Pois é, o espectador se dá conta que está vendo um ponto de vista. E que é para quem acredita. É um filme direcionado a um público específico: o espírita.

“Quantos anos são necessários para reconstruir um instante?”, diz-se. A seriedade atrapalha o filme. Mel Brooks foi um dos primeiros que tratou do tema quando dirigiu “O céu pode esperar”. O tom de comédia funcionou muito melhor. As imagens de guerra parecem de arquivos e fornece realismo à trama. “Quando a certeza for inabalável, você crescerá”, resume-se a mensagem que se quer passar. Nos damos conta que um dos ensinamentos desta doutrina é a perda. Aprendemos a nos desvencilharmos de nossos entes queridos. Permitimos que cada um siga o seu caminho de evolução espiritual. Mas conservando a amor eterno e puro.

No filme, a cidade Nosso Lar está localizada a 50km de distância da Terra. Foram necessários cerca de 1000 metros quadrados de chroma key (fundo azul). Em alguns casos, como os das cenas da parte externa da cidade Nosso Lar, rodadas no Monumento aos Pracinhas, Rio de Janeiro, a equipe teve que produzir um chroma-key de 360 metros quadrados. Nas cenas da casa de Lísias, a rua foi composta a partir de construção real e efeitos visuais para reproduzir as residências de Nosso Lar. Foram construídas fachadas de algumas casas e com a ajuda dos painéis de chroma-key (fundo azul) originou-se um efeito de uma rua repleta de casas.

O ator Renato Prieto, que vive o protagonista, se preparou durante seis meses para esse trabalho. Ele emagreceu cerca de 18 quilos e chegou ficar cerca de sete horas na sala de maquiagem para filmar principalmente as cenas do umbral. Estreia em 435 salas de todo o país.

Os efeitos visuais do filme foram desenvolvidos no Canadá pela empresa Intelligent Creatures (mesma responsável por filmes como Fonte da Vida, Babel e Watchmen). Mais de 350 imagens do filme têm algum tipo de inserção gerada nos computadores. O longa custou 20 milhões de reais, o mais caro da categoria nacional. O ponto alto é a fotografia de Ueli Steiger, que já fez “O dia depois de amanhã” e o nacional “Do começo ao fim” (aqui no blog).

O Diretor

“Filmamos em oito semanas. Pré-produzimos em doze. E pós-produzimos em quase nove meses. Ao todo, desde que os direitos foram negociados, passaram-se quatro anos. Nem planejávamos estrear em 2010; não tínhamos consciência do grande momento em relação ao Chico Xavier. Mas estava tudo planejado na espiritualidade. Fomos apenas os mecanismos. Não houve um dia sequer durante este trabalho que não senti a magia presente em nossas vidas. Um aprendizado e tanto!”, disse o diretor Wagner de Assis, que já dirigiu “A cartomante” em 2004, sendo também o produtor e roteirista. Tornou-se conhecido com seus roteiros: “Um Show de Verão” (2003), “Xuxa e os Duendes 2 – No Caminho das Fadas” (2002), “Xuxa e os Duendes” (2001), “Popstar” (2000), “Xuxa Requebra” (1999).

Posts Relacionados

1 Comentário

  • Só filme "bom" no currículo desse diretor, né? Não sei como alguém que já fez tanta merda consegue captar tanto dinheiro pra fazer essa mega produção. Pelo menos pior que A Cartomante não dá pra ficar. Vou assistir pra conferir o resultado!

    Resposta

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *