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Nocturne

Irmandade perdida

Por Laisa Lima

Amazon

“O rancor é cruel e a fúria é destruidora, mas quem consegue suportar a inveja?”. O Provérbio 27:4 da Bíblia descreve um pouco do que seria considerado como o quinto entre os famosos sete pecados capitais: a inveja. Seja do colega de trabalho promovido, ou seja de um amor que ama outro, a presença de tal sentimento julgado como repulsivo até por um “ser maior”, não poupa ninguém, nem dentro do seio familiar. “Nocturne” (2020), de Zu Quirke, aponta até aonde a ira de um invejoso pode chegar.

A produtora dos filmes de Jordan Peele, ”Corra!” (2017) e “Nós” (2019), a Blumhouse, juntamente com a Amazon Prime, investe em um suspense/terror envolvendo duas irmãs que em nada lembram o conceito de “irmandade”. Juliet (Sydney Sweeney), uma menina tímida e reservada, sonha em ser igual sua gêmea Vivian (Madison Iseman), tida como a irmã mais extrovertida e, principalmente, mais talentosa. Juliet, então, encontra o livro de partituras pertencente à uma aluna que se suicidou em sua escola e percebe um tipo de “força” vinda do caderno. Ao desvendar isto, a personagem envolve a si mesma em um desencadeamento de infortúnios, e descoberta de sua própria personalidade.

Almejando ter seu talento como pianista reconhecido assim como seu afinco na prática desde criança, Juliet evoca ao filme uma menção à duas outras obras que possuem a cobiça em seus enredos: “Cisne Negro” (2011), de Darren Aronofksy, e “Amadeus” (1984), de Milos Forman. Na segunda película referida, a música clássica é estopim para uma guerra de egos observada também em “Nocturne”, cedendo ao piano um papel de objeto disputável. As comparações terminam por aí, mas em “Cisne Negro”, a influência é mais notória. Contendo uma cena quase de plágio (sem spoilers), a inspiração do longa-metragem de 2020 em relação ao de 2011, se exibe claramente ao mexer com o ressentimento da protagonista, incorporado na mesma pela desvalorização de seus méritos e valorização do de outros, o utilizando como impulsor para atos questionáveis e de uma desequilibrada ordem psicológica. O suspense acompanha a trama de ambos os filmes, mas a viagem pelo interior da mente de Nina (Natalie Portman) em “Cisne Negro”, e de Juliet, no filme aqui esmiuçado, se orientam por diferentes nortes.

O início promissor de “Nocturne” se dá devido a perturbação atribuída à uma sinfonia – normalmente conferida como um som calmo – tocada enquanto a câmera em travelling adentra o corredor de luz avermelhada. Entretanto, a agonia obtida que parte para a próxima cena, é a mesma que deveria continuar pelo resto da obra, o que não acontece. De um visual trabalhado, Quirke sabe o que está fazendo ao dispor de uma filmagem bem feita, tendo pleno controle das sombras que acompanham Juliet, e do clarão amarelo quando a personagem avista uma espécie de sinal do caderno, o que possibilita a visualização de seu rosto por inteiro. A câmera lenta associada, algumas vezes, a batidas ritmadas do coração, afligem até o quadro posterior chegar e se descobrir que não há grandes coisas para serem reveladas. A escola, onde é passado uma boa parte do filme, pode até se tornar um lugar frio – já que o longa-metragem lida apenas com tons frios – em seu sentido pleno de hostilidade, e uma confecção competente é feita para o mantimento deste ambiente. Apesar de uma plástica convincente, isto não é tudo.

Um filme de terror se mantém de pé se a constante tensão desembocar em algum lugar igualmente instigante. Em “Nocturne”, isso é deixado de lado para se tornar uma vingança de Juliet contra sua irmã, e não em uma exploração dos efeitos que o misterioso caderno fazem na personagem. Pouco se deixa claro sobre o relacionamento da protagonista com o livro, da mesma maneira que sua ligação com a estudante morta permanece desconhecida. Diversos acontecimentos surgem e as respostas convergem apenas para: Juliet quer ser reconhecida e os desenhos do caderno a ajudam. Como acontece? Realmente acontece? As anotações possuem poderes mágicos? Como eles agem? Seria mesmo um pacto com o diabo? Não há explicações suficientes. O roteiro, incompletamente aprofundado, destaca como as ilustrações desenhadas no livro acontecem com Juliet – Sweeney entrega uma atuação que consegue acompanhar bem as nuances na gradativa “psicopatia” da personagem – na vida real, mas não tem empenho ao esclarecer seu entorno e fazer do entendimento dele, uma razão para o espectador se angustiar, sendo os coadjuvantes do filme e seus diálogos, apenas peças para os episódios de inconsciência de Juliet.

“Nocturne” até contém uma protagonista promitente, assim como sua crescente perda de pudor e externalização de seus anseios de sempre. O que se espera de uma história com uma interessante protagonista e equipamentos capazes de distribuir um bom thriller psicológico é, no mínimo, embasamento. No longa-metragem, existem somente imagens feitas para indicar a loucura de Juliet, sem nenhuma sutileza. As imagens, porém, podem ser atrativas, contanto que o contexto seja deixado de lado e a finalidade de um filme tido como terror, também. Entrar no pensamento da personagem principal talvez seria uma forma de não fraquejar diante dos primeiros questionamentos, assim como seria um jeito de não desfocar o espectador pela falta de algo papável na obra. A perfeição que Juliet tanto tencionava e sua possível decorrente loucura, se destrincham vagamente, e tudo que o espectador pode querer, não é nada além do óbvio: que tipo de pessoa é Juliet?

Trailer

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