No Coração do Ouro: O Escândalo da Seleção Americana de Ginástica

A Danação do Espetáculo

Por João Lanari Bo

HBO

Por quase duas décadas, o doutor Larry Nassar usou sua posição como médico osteopata na Universidade do Estado de Michigan e médico da equipe de ginástica feminina dos Estados Unidos para molestar sexualmente pelo menos 265 atletas, sob pretexto de tratamento médico. Muitas vezes o abuso aconteceu enquanto um dos pais estava na sala:  legitimação da prática e validação presencial. “No Coração do Ouro: O Escândalo da Seleção Americana de Ginástica”, de 2019, disponível no HBO GO, é um daqueles documentários que desnudam um fragmento de realidade que ultrapassa qualquer medida concebível de grau civilizatório, um lugar da não-ética absoluta – como pode um comportamento tão devastador como esse fluir sem controle, de forma tão profunda e contumaz que por muito tempo vítimas e testemunhas simplesmente acreditavam que não havia nada a denunciar? Que sociedade é essa que produz um espetáculo sedutor como a ginástica olímpica, algo que se revela como o lugar “onde o mundo real se transforma em simples imagens, e as simples imagens tornam-se seres reais e motivações eficazes para o comportamento hipnótico”? O tema de “No Coração do Ouro: O Escândalo da Seleção Americana de Ginástica” foi exatamente esse: trazer à tona os mecanismos desse processo esquizofrênico, a desvairada patologia sexo-afetiva que transita por debaixo da profusão ilusória das imagens do espetáculo da ginástica. O espetáculo, afinal, “não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre pessoas, mediada por imagens” – ou seja, uma relação modelada por fetichismos e mercadorias.

As citações são do cineasta e situacionista Guy Debord, um dos espíritos mais radicais que o século 20 conheceu, autor, entre outros, do demolidor “Sociedade do Espetáculo”. Pois só mesmo utilizando conceitos instigantes como os formulados por Debord para tentar situar o fenômeno trágico e bizarro que foi o percurso do médico Nassar no circuito esportivo norte-americano (e global) – justamente em uma das “pérolas” do circuito, a ginástica olímpica, definida inocentemente como “conjunto de exercícios corporais sistematizados, aplicados com fins competitivos, em que se conjugam a força, a agilidade e a elasticidade”. O documentário de Erin Lee Carr trafega entre imagens de performances e treinos, passado e presente, mesclados com depoimentos dos figurantes do show, contrastando o sublime estético kantiano inscrito nas imagens – sentimento de inacessibilidade diante do incomensurável – com o horror abstruso das narrativas pessoais. O contraste começa na gestação mesma do espetáculo, o cenário dos treinamentos: Larry Nassar, um sujeito de fala acolhedora e aparência descontraída, construiu a relação de dependência das ginastas como contraponto à dureza e crueldade impostas pelos treinadores, encarnados pelo casal Bela e Marta Karolyi. Egressos da Romênia, a dupla foi responsável pelo mito fundador da ginástica olímpica contemporânea, a romena Nadia Comaneci, destaque nas Olimpíadas de 1976 (que o mito venha de um país comunista em plena Guerra Fria é outro sintoma desse drama). Depois de Nadia, as ginastas reduziram a idade de competição, tornaram-se mais fáceis de subjugar, e sofreram em consequência repetidas contusões cujo único alívio era o tratamento de Nassar – que incluía, entre outras “técnicas”, penetração vaginal.

Por mais inacreditável que possa ser, o médico seguiu atuando por anos a fio, encoberto pela incredulidade infantil e aterrorizada das ginastas e, naturalmente, com a cumplicidade perversa mais ou menos consciente de treinadores e dirigentes esportivos, preocupados com resultados e marketing da atividade. Para um absurdo como esse, de novo Debord: “como especialistas em vida aparente, as estrelas servem como objetos superficiais com os quais as pessoas podem se identificar para compensar as fragmentadas especializações produtivas em que realmente vivem”. No universo de imagens fugazes de consumo, a ginástica é um espetáculo de ponta, um “capital acumulado a ponto de se tornar imagem: o fetichismo da mercadoria … atinge sua realização final no espetáculo”. A imagem é, portanto, uma mutação histórica da forma de fetichismo da mercadoria: “No Coração do Ouro: O Escândalo da Seleção Americana de Ginástica” descortina o fetichismo na imagem da ginástica não apenas no sistema produtivo que a engendrou – mídia, patrocinadores, federações esportivas – mas também nos corações e mentes do público consumidor e das atletas e respectivas famílias. E mais: revela, ou pelo menos se aproxima, do fetichismo patológico de um dos mais conturbados cérebros já produzidos no mundo do espetáculo esportivo, Larry Nassar.

Embora algumas ginastas tenham dito que já haviam denunciado o médico na década de 1990, o caldo começou a entornar somente em setembro de 2016, quando o jornal The Indianapolis Star publicou relatos de vítimas: em poucas semanas, centenas de casos foram reportados. No final, “No Coração do Ouro: O Escândalo da Seleção Americana de Ginástica” se encaminha para uma catarse jurídico-emocional, estimulada pela decisão da juíza Rosemarie Aqualina de permitir, com considerável extensão, todos os testemunhos possíveis. O somatório dos anos das sentenças contra Nassar, entre penas federais e estaduais, só cresce: se sair com vida das primeiras, em 2068, terá pela frente as segundas, ainda em processo de conclusão. Como diz Guy Debord, ainda: “o espetáculo é o pesadelo de uma sociedade moderna acorrentada e, em última análise, nada mais expressa do que o desejo de dormir. O espetáculo é o guardião desse sono”.

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