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Não Toque em Meu Companheiro

O resgate das andorinhas em luta

Por Fabricio Duque

Não Toque em Meu Companheiro

Há mais formas narrativas de se contar uma história em um documentário do que sonha nossa vã cinefilia. Não importa se é uma obra unilateral, pessoal demais, de direita e/ou de esquerda, crítica e/ou poética (até porque toda e qualquer obra pertence antes a seu realizador, neste caso realizadora). Tanto faz, o que realmente faz a diferença é o “olho mágico” em captar rendimentos. E isso a documentarista Maria Augusta Ramos (do já cultuado “O Processo”) consegue com maestria, em especial por causa da relação cúmplice que assume com a câmera, imergindo o espectador, ao mesmo tempo, em um processo orgânico e estético.

Em seu mais recente filme, com estreia pelas plataformas digitais, por causa da pandemia do Covid-19, “Não Toque em Meu Companheiro” é uma viagem a um tempo passado relativamente próximo, que aqui ganha contornos e comparações com o momento atual. Este não é um filme-tese, ainda que busque embasar fatos, tampouco neutro, visto que um lado sempre vencerá com suas crenças ideológicas. O grande atrativo está no resgate de sua história e na analogia do “déspota pai de família”, termo cunhado pela professora de Filosofia, Marilena de Souza Chaui, que complementa: “Collor era o símbolo da nação moderna. Ele estava trazendo o futuro. E o Bolsonaro é a mesma coisa”. A sinopse nos conduz quando define o filme “propõe uma reflexão sobre as relações atuais no mundo do trabalho”.

“Não Toque em Meu Companheiro” é sobre união, solidariedade e “pagar para ver” de trabalhadores da Caixa Econômica Federal (que “exerce o trabalho social”) que se mobilizaram pela reintegração de 110 colegas demitidos injustamente após uma greve da categoria, pagando seus salários durante um ano até sua readmissão, em 1991. É sobre “paradigmas desse movimento que sustentou todos”. É sobre “estado mínimo”. “Um pouquinho de pessimismo nunca faz mal”, diz. É sobre o “mundo jogado nessa armadilha neoliberal”. É possível perceber um que de filme propaganda sobre a luta histórica dos bancários injustiçados. Sim. Mas aqui esse é um mero detalhe. A força e importância estão na história contada.

Vamos pensar à luz da Constituição Federal! A carta magna de 1988 “assegura” (no nono artigo) o direito à greve, uma forma legítima de pedir melhores salários e  condições de trabalho. Contudo, no Brasil, essa garantia é enxergada como  “rebeldia”. As manifestações, “desordeiras” do dia 15/09. Os protestantes, “inimigos de guerra”. “Não Toque em Meu Companheiro” é sobre a força do sindicalismo brasileiro. Que esperou mais de um ano, aceitando todas as adversidades advindas das escolhas tomadas.

Filmado em Londrina, São Paulo e Belo Horizonte, o documentário apresenta-se também como um filme de confronto. Uma “sessão” sindical. De um democrático “brainstorming”. A câmera, dessa vez, é mais aparente e mais impositiva. Deseja-se um reencontro com o passado. E uma “aproximação” com o presente. Com imagens da época, que mostram o discurso do presidente da república Jair Bolsonaro na Organização das Nações Unidas dividindo espaço com líderes mundiais; os comerciais do Governo e impeachment de Fernando Collor; os recortes de jornais, norteia-se a narrativa com ritmo propositadamente desordeiro, para aproximar o público ao sensorial popular, como por exemplo, a espera da casa própria, evocando assim a ambiência característica das obras de Eduardo Coutinho. Ponto-estrela para a edição de Eva Randolph.

“Não Toque em Meu Companheiro” é um filme que segue, que escuta e que registra, pontuado pelo discurso de Luiz Gonzaga Belluzzo, economista e professor da Unicamp e por Julieta Abrãao, da União dos Movimentos de Moradia. Até para o Piauí o filme vai, apenas para documentar o barbo-agência da Caixa, que “chega aonde nenhum outro banco quer chegar”. Nós somos um povo ainda novo, engatinhando após o “renascimento” das Diretas Já e da “Democracia”. Sim, nós sempre escolhemos errado nossos governantes. Não sabemos votar. Ainda.

Mas temos o olhar clínico de documentaristas que guardam e resgatam a História. E de combatentes que não desistem na primeira tempestade. “Através de Jair Ferreira da Fenae fui apresentada a essa história incrível de solidariedade dos trabalhadores da Caixa em 1991. Acho que é fundamental contar essa história nesse momento pelo qual estamos passando no Brasil e no mundo, no tocante às relações de trabalho e nesse cenário de crescente redução de direitos”, finaliza a diretora Maria Augusta Ramos.

3 Nota do Crítico 5 1

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