Ficha Técnica

Título em inglês: Woman On Fire Looks For Water
Direção: Woo Ming Lin
Roteiro: Woo Ming Lin
Elenco: Ernest Chong, Foo Fei Ling, Chung Kok Keong
Formato: Digi Beta
Duração: 97 minutos
País: Malásia
Ano: 2009
COTAÇÃO: MUITO BOM

A opinião

A câmera parada e contemplativa retrata o tempo real dos acontecimentos. Instantes de narrativa minimalista. O nada é a verdadeira importância para o que se deseja transmitir. Busca-se a simplicidade e a singeleza das ações. A pureza poética do viver sem a maldade. As cenas viscerais de limpezas de peixes em uma aldeia e ou os cortes de rãs para servir como remédios – “Para dengue, sangue de sapo cortado” – auxiliam a expressar a brutalidade natural de um cotidiano normal que sempre se optou por se esconder por causa do não aceitamento social. O que se mostra confronta o espectador com o realismo da vida, sem julgamento e com seus diálogos esparsos, construindo assim um distanciamento por defesa da própria timidez e do medo de magoar o outro. O experimentalismo utiliza em sua fotografia ora sombras e contrastes ora a luz do sol em closes refletidos na água de um rio. A câmera passeia por seus personagens, aprofundando o vazio que é apresentado. A inerência dos que convivem nesta aldeia que recorrem a vinganças para expugnar catarses individualistas e quereres mimados de criação.
Com o foco destorcido interage o amador com o técnico, brinca com a linguagem e aproxima o espectador ao ambiente calmo e ao tédio da não novidade.

Os poucos diálogos objetivam a própria inferência, porém explicita, de quem assiste. As aproximações, os enquadramentos em close, fotografam o especifico. O diretor apresenta a cena ora pelo plano aberto indo ao fechado, ora pelo detalhe indo a amplitude da imagem. Há uma antecipação do que se deseja mostrar, como sendo um resumo visual.

O filme observa. O tempo não existe. São fotografias em movimento. “Mesmo que algo de ruim aconteça, algo de bom também acontece”, diz-se. O roteiro não busca o político, mas retrata a idéia. Um jovem dividido entre o amor verdadeiro e pela filha do seu chefe. Uma dará a ele a felicidade e a outra a segurança. O conflito entre classes é visivelmente detectado. Um carro caro locomove-se em casas palafitas, com lixo ao seu redor.

A ironia sutil resignada complementa a história com momentos sóbrios e reflexivos, transparecendo a pura ingenuidade. A trilha sonora ajuda a esperar e a vivenciar o nada, o próprio tédio de uma vida com limites.

O lirismo não clichê do jovem que procura um novo emprego para que possa casar-se com a mulher que ama. Não há sensualidade, não há sexualidade, não há exposição ao excesso. Neste caso, o menos é mais e funciona perfeitamente. A lentidão do história pulula o questionamento de quem está do outro lado da tela, que deseja mitigar a correria do dia-a-dia, transformando-a em um período que se possa sentir e captar o mínimo. “A vida parou. Está tão quieto”, divaga-se.

Não há um politicamente correto social nas relações interpessoais. O que é dito por um foge da etiqueta da própria sociedade, como é o caso “Quer comer? Sobrou sopa”, pergunta-se sem pensar em suas conseqüências. A hipocrisia de concatenação das palavras fornece lugar a liberdade de ser o que realmente é, sem máscaras e jogos de interesse. O que se quer dizer, diz-se e pronto.

A cena da filha do chefe quando descobre que com todo o dinheiro e poder do pai não conseguirá o que quer, a mudança das feições e a interpretação contida, porém passando a mensagem, é incrível.

“Antes dessa dor, eu tinha outra vida”, o pai apaixonado do jovem apaixonado confessa a paixão à mulher casada por um homem que não gosta muito dela.

O longa-metragem é quieto, calmo e extremamente competente utilizando pouco dinheiro. Recomendo.

O Diretor Woo Ming Jin

Nascido na cidade malaia de Ipoh, é diretor, editor e fotografo. Aos 33 anos de idade teve seu primeiro longa de estreia “Monday Morning Glory”, selecionado para os Festivais de Berlim, Locarno, Pusa, Tóquio, São Francisco e Bangkok. Em Seu segundo filme “O elefante e o mar”, vencedor do Prêmio de Melhor Diretor e o de Melhor Filme no Festival de Cinema Digital de Seul, e do Prêmio de Júri Especial no Festival de Torino, foi aclamado pela revista Variety como “a nova voz brilhante e marcante do leste asiático”. O filme foi convidado a ser exibido em mais de 50 festivais ao redor do mundo. Seu último filme “Mulher em chamas procura água”, fez parte da seleção do Festival de Veneza.

Entrevista Woo Ming Lin (Diretor de Mulher em Chamas Procura água)

Woo Ming Lin visita pela segunda vez no Brasil. Já está pensando no próprio projeto “The tiger Factory”, sobre uma jovem mulher pobre que decide ter um bebe por dinheiro. Ele forneceu uma entrevista ao VERTENTES DO CINEMA.

VEJA O DIRETOR DIZENDO VERTENTES DO CINEMA EM PORTUGUÊS –> AQUI

“Basicamente eu fiz este filme para explorar os temas de morte e solidão. É a história de um pai e de um filho entre gerações. Antigas e novas gerações. A dúvida sobre um homem se está morrendo. E o amor que está faltando. Solidão para o amor, para a morte. Esses temas são universais e são muito importantes para mim.”

“Cinema brasileiro para mim é muito limitado. Conheço os filmes de Fernando Meirelles. Eu já vi alguns, mas não lembro muito bem”.

“Eu cresci vendo os filmes de Godard, Truffaut, o próprio cinema chinês. Eu não tenho um diretor favorito. Gosto muito do cinema coreano, gosto da fotografia japonesa dos filmes. Cada filme é uma inspiração para mim”.

“A gente tem má reputação na Malásia, porque críticos locais querem nos comparar com Hollywood. Estou orgulhoso de fazer filmes na Malásia e as historias que contamos vêm da nossa experiência de vida”.

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