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Mr. Nobody Against Putin

Quem ganha a guerra não são os comandantes, são os professores

Por João Lanari Bo

Festival de Sundance 2025

Mr. Nobody Against Putin

A afirmação acima é de ninguém outro que Vladimir Putin, o Presidente-autocrata mais poderoso do mundo, se medirmos poder com arsenal nuclear. Foi dada pela televisão, cadeia nacional, em 2023, em meio a uma avassaladora campanha de doutrinação nas escolas sobre a guerra na Ucrânia e as razões irrefutáveis do esforço militar russo face às ameaças de todos que atentem contra a grandeza desse incomensurável país, a Rússia. A fala, proferida no estilo indolente e suavemente agressivo do Presidente, consta do documentário “Mr. Nobody Against Putin”, finalizado em 2025 e codirigido pelo russo Pavel “Pasha” Talankin e o norte-americano David Borenstein.

Doutrinação: processo de incutir ideologias, crenças ou dogmas de forma repetitiva, visando a aceitação incondicional e evitando a análise crítica. Revelar um tal processo, em linguagem simples e direta, não é pouca coisa: nessa guerra fratricida, muito pouco, ou nada, se sabe sobre o que acontece na Rússia, sobretudo em função da rigorosa censura midiática imposta pelo Kremlin. São muitos os documentários sobre a guerra, mas sempre do lado ucraniano, como “Relações Próximas” de Vitaly Manskiy, e “20 dias em Mariupol”, de Mstyslav Chernov.

Eis que surge “Pasha” Talankin, cinegrafista e coordenador de eventos na Escola Primária nº 1 da pequena cidade Karabash, armado de sagacidade, uma certa ingenuidade e coragem para registrar o dia a dia do seu trabalho com alunos e alunas, acrescido de reflexões pessoais e solitárias. O resultado: o forte cerco à liberdade de imprensa foi rompido e o projeto de lavagem cerebral da administração Putin cabalmente exposto – a expressão “lavagem cerebral” é forte, mas pertinente. Esta é a denúncia que dá substância a “Mr. Nobody Against Putin”.

“A Rússia é uma fortaleza sitiada sob constante ameaça de ataque. É um grande país, uma realidade que o mundo esquece por sua conta e risco” – é o que repetem Putin e seus generais. Karabash, situada na região dos Urais do Sul, com população de 10 mil habitantes e famosa por ter ostentado o título de a “cidade mais poluída do mundo” devido à sua imensa fundição de cobre, herança dos tempos soviéticos, não vivia esse dilema estratégico tão visceralmente, até que a invasão da Ucrânia, em fevereiro de 2022, mudou a perspectiva. Na mente de Pasha e na rotina educacional da escola.

Mr. Nobody Against Putin” começa como um desse vídeos pessoais do Youtube, onde um narrador munido de câmera descreve suas atividades, com um certo olhar turístico-documental, como tantos outros. Vem a invasão e Pasha se indigna, ele que já tinha visão crítica da autocracia de Putin – mas sem coragem para participar ativamente de manifestações de protesto. Ele se angustia e pede demissão da escola, mas tudo se altera quando, consultando o Instagram, depara-se com alguém procurando imagens de dentro da Rússia – algo dificílimo de se obter. Logo entra em contato com David Borenstein, experimentado documentarista com dez anos de residência na China, outro país que não prima exatamente sobre facilidade de acessos para filmagens. Os dois se coordenam, Borenstein passa algumas sugestões e lá se vão dois anos em que Pasha documenta, solitariamente, tudo o que passa à sua frente.

Mas não é apenas a denúncia de prática educacional totalitária que move o filme: é a mensagem, também simples e direta, que nem todos os russos pensam da mesma forma, e nem todos vivem em condições opressivas e miseráveis. Os cenários e acontecimentos, as pessoas que aparecem e são nomeadas por Pasha, tudo é claro e cristalino como um vídeo do Youtube. A edição, que mesclou essas imagens com os depoimentos pessoais de Pasha, é eficiente em manter essa atmosfera, ao mesmo tempo que são exibidas falas e eventos que explicitam a política oficial de doutrinamento. A grande maioria das imagens coletivas, como informa nosso cinegrafista, era por obrigação enviada ao Ministério da Educação em Moscou, por razões “misteriosas” – provavelmente de controle ideológico, mas é difícil de se imaginar como seria possível acompanhar o volume total produzido em todas as escolas russas.

À luz, sobretudo, da persistência dos combates – em fevereiro de 2026, completam quatro anos de duração – a guerra parece caminhar para um impasse, e ninguém sabe o que pode ocorrer. Nesse contexto, já é sem dúvida a guerra mais mortífera em continente europeu desde a 2ª Guerra Mundial. Estima-se que do lado russo as perdas oscilam entre 25 e 30 mil soldados por mês, cerca de mil por dia. Do lado ucraniano seriam inferiores, em virtude do menor contingente militar, mas igualmente dramáticas.

Pasha, por seu turno, conseguiu escapar, como o documentário mostra logo no início. Munido de HDs, notebook, sons e imagens, esse cinegrafista escolar produziu uma tremenda dor de cabeça para Putin – amplificada pela seleção do filme como finalista do Oscar 2026 para documentários.

5 Nota do Crítico 5 1

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