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Relações Familiares

A Guerra na Intimidade

Por João Lanari Bo

Durante o É Tudo Verdade 2022

Relações Familiares

Em boa hora o Festival É Tudo Verdade programou o filme de Vitaly Manskiy, “Relações Próximas”, de 2016. Boa hora é um vício cortês de linguagem, na verdade a hora é péssima: os dissabores familiares que o diretor registra, com a elegância que sua fotógrafa habitual, Alexandra Ivanova, sabe captar, aliada à sua narração amena e presença provocante na tela, circulando entre parentes que vivem em Lviv, Odessa e Sebastopol – funcionam como microcosmo dos choques e contradições do que estamos testemunhando nesse exato momento: a Guerra da Ucrânia, com toda sua violência absurda e patética. Por um ano inteiro, de maio de 2014 a maio de 2015, Manskiy visitou lares com salas, tapetes, mesas, pratos, copos, celebrações – mergulhando na intimidade das relações humanas, construindo uma sutil cartografia sentimental dos pequenos desejos e fantasias de pessoas assustadas com a guerra que se aproximava. Sim, como diz outro cineasta involucrado nesse mundo, Sergey Loznitsa, a atual guerra de fato começou há 8 anos, com a “integração” forçada da Crimeia à Rússia, e a secessão das províncias de Donetsk e Lugansk, no leste do país, que imediatamente instalou uma guerra civil no país. Ignorando conselhos de parentes residentes em Donetsk, o cineasta visitou também a região separatista, filmando com o que parece ser uma câmera secreta: em todo o percurso, ele pergunta, argumenta, escuta, evocando memórias dolorosas de seus personagens e fazendo-os pensar em voz alta. Ao final, em maio de 2015, a sensação é que a guerra vai estourar, mais uma vez, no dia seguinte.

A perspectiva familiar não foi escolhida por acaso – por meio das relações familiares, a imagem da Ucrânia moderna, esse mosaico sociocultural de repercussões políticas complexas e desafiadoras, surge cristalino, mas insolúvel. Tia Natasha, de Sebastopol, conversa no Skype com outra tia, Tamara de Lviv, elas brigam, suas posições em relação ao que está acontecendo são diametralmente opostas – Natasha é pró-Rússia, venera Putin, Tamara assumiu a identidade ucraniana, preocupa-se com o filho que será convocado para o serviço militar – mas o passado comum as faz tentar as pazes … forjam um pacto, não falar sobre política, falar sobre o tempo, familiares, mas não engata. Gritos, acusações mútuas e, de novo, o apelo: Estamos falando apenas de parentes. Nem uma palavra sobre política! Esta cena é das mais fortes do filme, ilustrando os elos perdidos na conexão Rússia-Ucrânia. Não apenas nas relações intrafamiliares, mas na relação entre os dois países e os povos que neles vivem, já que ambos compartilham um solo comum, conhecido como “União Soviética” – quando os desejos de autonomia ucranianos eram abafados pelo véu ideológico do sistema comunista. Um solo, portanto, pedregoso e escorregadio – a suposta identidade universalista soviética, o projeto socialista acima das nacionalidades, era frágil e sempre precisou de alteridades ameaçadoras para se consolidar. No início, eram os contrarrevolucionários, depois espiões japoneses, os nazistas e …a Guerra Fria, que atravessou décadas. A explosão dessa estrutura, simbolizada pela queda do muro em Berlim, deixou um rastro de fraturas e faturas a pagar: “Relações Próximas” é um dos inventários dessa conta, imagens contraditórias da dispersa Ucrânia, onde algumas vidas estão em pausa para reformas e planos inacabados, enquanto outras fervilham de maneira mundana. A Rússia parece ainda movida por um drive persecutório: no Ano Novo, Putin discursa prometendo acolher a população “liberada” da Crimeia – uma hora depois, graças ao fuso horário, o então Presidente ucraniano, Petro Poroshenko, jura que vai lutar até o fim pela volta da Crimeia e províncias separatistas. O ângulo da tomada é o mesmo, uma pequena família na mesa celebratória e a TV no vértice da parede, cada fala seguida do respectivo hino. Poroshenko, milionário e oligarca local, eleito em 2014 e derrotado em 2019 por Zelenskyy, apareceu recentemente nas redes sociais carregando um fuzil e vociferando pela expulsão dos russos (ele é comandante de uma unidade militar, sua localização não é revelada).

Relações Próximas” circula entre polaridades, esquivando-se de mísseis e petardos – mas transparecendo, de alguma forma, uma percepção angustiada pela deriva da situação, que deu no que deu. Vitaly Manskiy, autor de um excelente documentário sobre o líder russo – “Testemunhas de Putin” – nasceu e cresceu em Lviv, e considerava-se russo porque morava em Moscou: na época, parecia a escolha óbvia e não perdi muito sono por causa disso; como filhos da União Soviética, não poderíamos imaginar uma realidade em que fronteiras separassem as ex-repúblicas soviéticas. A maior parte de sua família permaneceu na Ucrânia: ao final, o sobrinho Zhenya é convocado pelo exército para lutar contra os separatistas de Donetsk, onde mora o avô do cunhado, que não tem dúvidas: todos os americanos querem destruir a Rússia. Seguro morreu de velho: Manskiy mudou-se para Riga, capital da Letônia, em 2014.

4 Nota do Crítico 5 1

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