Mostra de Tiradentes 2026: Após novidades, mais expectativas

Mostra de Tiradentes 2026: Após novidades soberanas, atualizamos nossas expectativas

Com a temática Soberania Imaginativa, de 23 a 31 de janeiro, a Mostra de Cinema de Tiradentes pede um olhar mais aproximado às novas pautas estéticas que o cinema independente coloca todos os dias nas pautas de conversa

Por Francisco Carbone

Com toda a listagem apresentada da programação da 29a. Mostra de Cinema de Tiradentes, que acontece de 23 a 31 de janeiro de 2026, a palavra “expectativa” ganha novos contornos ao olharmos para a edição. Se uma homenagem a Karine Teles soa, nesse momento, tão merecida quanto oportuna, diante do tanto que a atriz e diretora já ofertou ao cinema brasileiro de tantas formas, a aproximação da edição e a certeza dos filmes selecionados colocam nossa ansiedade em níveis descontrolados. Sem dúvida, a presença da atriz de “Benzinho” e que está prestes a dirigir seu primeiro longa como diretora, é o grande evento do primeiro fim de semana na cidade mineira.

Sobre a escolha de uma artista como Teles no campo de homenagens, Raquel Hallak, diretora e coordenadora da Universo Produção, que por si só é uma das maiores gestoras de arte do país e responsável por três dos maiores festivais de cinema do Brasil (a Mostra Tiradentes sendo um deles), comentou: “homenagear Karine é reconhecer uma artista que construiu uma carreira singular no audiovisual brasileiro, capaz de transitar entre o cinema autoral e produções de grande alcance”. Hallak também ressalta a participação de Teles na própria História da Mostra, “quando sua história se cruza com a nossa a partir de “Riscado” (2011), exibido na Mostra Aurora, afirmando seu compromisso com um cinema inventivo e exigente; Karine faz uma síntese rara entre rigor artístico e comunicação com o público”.

Mostra de Tiradentes 2026: Raquel Hallak conta todas as novidades

Já no espaço curatorial, existe uma gama de filmes exibidos anteriormente em outros festivais que enfim podem ser apreciados por quem vos escreve e pela cidade. Títulos como “Pequenas Criaturas” (o grande vencedor do último Festival do Rio), “Herança de Narcisa” (que também passou pelo mesmo festival), a nova produção de Felipe Bragança e Marina Meliande (“Uma Baleia pode ser Dilacerada como uma Escola de Samba”, exibido no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro 2025), além do novo filme de Allan Ribeiro, “Copacabana, 4 de Maio”, que encerrará a Mostra e já ganhou um punhado de prêmios por onde passou, estarão por lá.

Entre os inéditos, temos um grupo de promessas que não pode ser considerado menor, até pela seleção da edição aparentar muita boa estirpe. João Pedro Faro, de “Extremo Ocidente”, uma das maiores promessas do cinema experimental, lança seu novo filme, “Amante Difícil”. Bernard Lessa, que teve o premiado “O Deserto de Akin” fazendo carreira no circuito ano passado, também carrega título novo para Minas Gerais, “Meu Tio da Câmera”. A dupla formada por Priscyla Bettim e Renato Coelho lançou há alguns anos o excelente “A Cidade dos Abismos“; estarão em Tiradentes com “As Florestas da Noite”, uma das promessas do ano, protagonizado por Carlos Francisco, Silvero Pereira, Verónica Valenttino e Helena Ignez. Todos esses títulos estarão na Mostra Olhos Livres, dedicada a autores já experimentados e com lançamentos prévios.

O Deserto de Akin
Filme “O Deserto de Akin”

Para esses três projetos, as chamadas expectativas são mais altas, por conta do conhecimento prévio de seus autores, de suas obras pregressas. O caso de Bettim e Coelho, por exemplo, onde seu longa anterior entrou em grande parte das listas de melhores do ano; “As Florestas da Noite” parece habitar em universo paralelo ao de “A Cidade dos Abismos”, e o cinema neo noir que eles tentam reproduzir, com elementos tipicamente brasileiros, são a porta de entrada para o encantamento que se imagina. Faro é um dos mais jovens cineastas da atualidade, e têm lançado filmes com frequência espantosa para os padrões brasileiros. Seus filmes, no entanto, não regem uma lógica de mercado padrão; eles não encontram espaço na distribuição tradicional porque nada neles é tradicional, então segue-se o fluxo de pensamentos e ideias fervilhantes dele e seus companheiros na MBVIDEO – tudo é urgente e imediato.

Para a Aurora, busca-se a estreia em longas metragens. Na porta de frente então, encontra-se Diego Bauer, curta-metragista amazonense experimentado com filmes como “Ri, Bola e Enterrado no Quintal”, que adapta para longa um de seus trabalhos mais premiados: “Obeso Mórbido” é uma espécie também de diário de bordo marcado pela construção da auto estima. Outra estreante expoente é Denise Vieira, premiada diretora de arte de Adirley Queirós em obras como “Mato Seco em Chamas” e “Branco Sai, Preto Fica“, estreia em seu próprio filme com “Sabes de Mim, Agora Esqueça”, gerando um bem-vindo barulho logo na primeira assinatura. Além deles, a dupla Desali e Rafael Rocha desponta com “Para os Guardados”, filme realizado na periferia de Contagem, casa-sede da produtora Filmes de Plástico, em um filme onde eles realizam absolutamente tudo: direção, produção, roteiro, som, montagem, fotografia, direção de arte. Se isso não gera curiosidade, o que gerará?

Mostra de Tiradentes 2026: Nossas Expectativas

Entre os curta-metragens, vários nomes chamam a atenção. Felipe André Silva, diretor dos seminais “Cinema Contemporâneo” e “Passou”, lança “Cinema Moderno”. Já Ramon Coutinho, que ainda roda festivais com sua estreia em longas “Jamex” e o “Fim do Medo” e que ainda dirigiu “Ritual Pam Pam Pam”, entre outros exemplos de vitalidade narrativa, surge com “A Praga do Resíduo Verde”, um dos mais esperados da edição. Carlos Adriano retoma sua produção com “Sem número #10: ao re dor do amor”, mais um de seus materiais cheios de inspiração, dessa vez em colagens do que ele lê como romantismo. O multi-premiado “Fronteriza”, de Rosa Caldeira e Nay Mendl, também terá pouso por lá, em um encontro na praça que parece dialogar com seu próprio valor emocional.

Alguns cineastas aparecem mais de uma vez na seleção, como o próprio Faro, que além de “Amante Difícil”, ainda tem “Sessão sem Diálogo”, ao lado de Bruno Lisboa, Miguel Clark, Joana Liberato, Hannah Maia e Vinícius Romero, na mostra Invenção. Fábio Rogério, que ano passado venceu a Olhos Livres com “Um Minuto é uma Eternidade para Quem Está Sofrendo” ao lado de Wesley Pereira de Castro, esse ano vem com “Vim e Irei como uma Profecia” e “Um Certo Cinema Brasileiro”.

Para completar o quadro, a Mostra de Tiradentes 2026 será aberta por um dos maiores mestres do cinema brasileiro – Julio Bressane entrega seu novo “O Fantasma da Ópera”, novo curta-metragem dirigido ao lado de Rodrigo Lima. Essa será uma das mais importantes aberturas do evento em sua História, e um filme que levará muita gente mais cedo ao evento simplesmente pelo fato de encontrar o cinema de invenção em sua forma mais primordial. Bressane foi homenageado na 5a. edição do festival, em 2002, estará presente na roda de conversa sobre o filme, prestes a completar 80 anos, já em fevereiro.

Com a temática Soberania Imaginativa, a Mostra de Cinema de Tiradentes pede um olhar mais aproximado às novas pautas estéticas que o cinema independente coloca todos os dias nas pautas de conversa, um espaço onde a imaginação precisa falar tão alto quanto a realização. “A temática nasce de um diálogo direto com o momento do cinema brasileiro de hoje; ao longo das últimas duas décadas, especialmente entre os independentes, o cinema produziu uma renovação profunda de práticas, linguagens e modos de criação, revelando uma imaginação diversa, potente e ainda pouco reconhecida em toda sua dimensão”, diz Hallak. “A Soberania Imaginativa aponta para a importância de garantirmos continuidade a esse cinema plural, ousado e independente, entendendo-o como um laboratório de ideias, formas e possibilidades capazes de pensar o Brasil e seus futuros a partir de uma imaginação livre e soberana”, encerra a diretora.

São tantas as seções e as intersecções possíveis de serem feitas – e em uma quantidade tão absurda de filmes, mais de 100, impossíveis de conseguir todos os mergulhos desejados – em um grupo de filmes que, como todo ano, sabemos que estarão em muitas listas de melhores. São essas e outras questões que movem a Mostra de Tiradentes não apenas para a abertura do calendário de festivais do ano, como principalmente acabar por reverberar em todos os outros 11 meses de cada temporada. O Vertentes do Cinema estará lá, vivendo e produzindo para cada personagem singular, que ainda nem sabemos qual será, mas de onde o próximo rosto indelével sairá, em um festival acostumado a trazê-los anualmente.

Acompanhe a cobertura completa, diária e em tempo real do vertenteiro Francisco Carbone que retorna ao ninho do Vertentes do Cinema!

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