Milagre na Cela 7

A Todo Custo, o Farei Chorar

Por Daniel Guimarães

Existe, em realizadores, o fatídico hábito de genuinamente não compreender a possibilidade da linguagem cinematográfica para gerar identificação através da narrativa imagética e, por consequência, emoções. A inserção da tristeza e da crueldade inevitavelmente afetam em parte o espectador, mas elas jamais devem ser aleatórias, sem qualquer unidade, lançadas na narrativa, a espera de que alguma funcione. Filmes como “O Menino do Pijama Listrado” ou “A Menina que Roubava Livros” são alguns que vêm à mente, onde a trilha sonora, o close-up e a câmera lenta se sobressaem e a produção implora pelas lágrimas. Mesmo que nada haja de realmente natural em uma narrativa cinematográfica encenada, a artificialidade de filmes desse gênero mais afasta o espectador da imersão e da identificação do que o aproxima da emoção. Milagre na cela 7, tragicamente, se enquadra nessa série de características e obras.

O longa-metragem, dirigido por Mehmet Ada Öztekin, conta a trajetória de Memo (Aras Bulut Iynemli) e de sua filha Ova (Nisa Sofiya Aksongur) em uma cidade na Turquia. Memo é um pai com deficiência intelectual que é preso injustamente pela morte da filha de um comandante do exército turco, enquanto seus familiares e próximos tentam provar sua inocência e evitar a pena de morte presente no país da época. Na jornada, não há uma composição, sequência ou plano que não apele aos extremos para a emoção do espectador. Antes mesmo de qualquer desenvolvimento de tramas ou consciência de personagem, já se busca o choro.

A trilha sonora é unânime, presente em todos os momentos, assim como o uso excessivo da câmera lenta em busca de imagens poéticas e sentimentais. A melancolia e o melodrama geram uma composição de universo que jamais parece próximo do espectador. A artificialidade é o preço de buscar a comoção em qualquer cena, seja quando conhecemos aquele mundo e seus personagens até sua conclusão. A fragilidade da estrutura torna os momentos de real redenção e transcendência em somente mais um dos diversos que vemos ao longo do filme. Mirando uma intensidade tremenda, nunca passa sequer pelo óbvio.

Em ponto de uma discussão mais teórica, um cinema que se enquadra no estilo mais clássico, o artificial sobressair dessa forma é problemático. A menos que este seja justamente o próprio tema do filme, o que não é o caso. Na encenação e principalmente nessa estética, não há o natural por essência, há o encenado e a unidade narrativa que nos ilude com a impressão de naturalidade. Evidente que existem movimentos que buscam a quebra da estética clássica, como o neo-realismo italiano com a encenação mais bruta da realidade e negação de conduzir o olhar, ou a nouvelle vague em Godard que admite a artificialidade do cinema e a reforça. Porém, qualquer conceito de quebra de paradigmas e vanguardismo está distante de Milagre na Cela 7.

Para além disso, a elaboração da violência nunca vai além do simples e banal. Os antagonistas, a situação política e os militares são os mais caricatos possíveis. O comandante que perde sua filha é similar aos vilões menos inspirados dos quadrinhos. Malvado, impiedoso, nas sombras com seu uniforme e fumando seu cigarro. Também existem poucas formas mais apelativas de gerar sentimento e empatia frente a injustiças do que com uma criança. Cria-se uma personagem somente para filmar suas reações em meio a tragédias e tristezas que vive, da maneira mais fetichizada possível. Não somente em Ova, mas também em Memo, a pureza de sua personalidade é nosso condutor da crueldade no mundo.

O maior mérito de Milagre na Cela 7 se encontra no núcleo da própria cela e em seus prisioneiros em alguns momentos. Embora ingênuo e de resolução simplista, o humanismo que o longa prega se aflora no ambiente, por vezes, de maneiras interessantes. O simbolismo da inocência tanto de Memo quanto de Ova em gerar empatia em outros quebra a artificialidade do longa pela primeira vez, ao estabelecer relações e reações genuínas e não somente de fragilidade. Sua estrutura geral não sustenta esses momentos, visto que a vontade de exibir os efeitos da presença da dupla é imediato ao ponto de ressocializar criminosos de longa data. Entretanto, o simbolismo do toque e dos abraços em uma cultura que no momento é a mais defensiva e agressiva possível, alcança o objetivo humanista do filme. Angustiante é perceber que esses são poucos dos momentos emotivos que possuem algo a dizer em meio a outras duas horas de vazio.

Trailer

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