Meu Primeiro Verão

Monstros e o leite de morango

Por Fabricio Duque

A adolescência talvez seja a fase que conjuga mais sentimentos universais em sua construção sócio-existencial. Nessa idade, não há o meio nos limites  entre o sim e o não. O comportamento, em ebulição, só enxerga o tom impulsivo, imediatistas resoluções e catarses absolutistas. Essa fase é o que o cinema mais consegue traduzir, porque o olhar vivenciado dos adultos já conhece os mesmos dramas do amadurecer, tempo verbal que se desenvolve no desconhecido. E quando essas pós-crianças trazem elementos minoritários (por se diferenciar do todo determinado como o normal padrão a ser seguido), esse desabrochar é ainda mais desafiador. O nível fica mais difícil. A solução é a de se esconder ou de enfrentar as hostilidades do mundo. Mas o Universo pode favorece a jornada com a substituição do amor “leite de morango”. É o acontece em “Meu Primeiro Verão”, da realizadora australiana Katie Found, estreante na direção de um longa-metragem.

“Meu Primeiro Verão”, por mais que imprima fortemente a temática de duas adolescentes que descobrem a permissão de aflorar suas sexualidades, quer na verdade abordar o tabu da suicídio compartilhado e da culpa (da mãe que precisava proteger a filha de não “sentir a dor do mundo” e que “agora está livre”. A narrativa de recuperação regurgitada da memória (ora assaltada por digressões-flash), por uma realidade poética, em uma reconstrução transmutada do conceito sonhador do “O Jardim Secreto” a um cotidiano possível, constrói uma projeção a um futuro acolhedor. A protagonista Claudia encontra Grace. O filme pode também ser traduzido como uma metáfora das cores. Do azul à purpurina. E dos nomes. O de Claudia soa estrangeiro, este que nunca se adapta. O de Grace, a graça. Um presente divino. Uma fada moderna que traz luz e amor com suas miçangas e seus alimentos processados. Uma felicidade que vem de cima. Pura, orgânica e sem hesitação. A primeira segue reclusa por medo. Uma garota selvagem. Sem nenhum conhecimento de mundo, como o “dedo mindinho”, por exemplo. E ou dos doces guloseimas. Até conhecer a segunda, uma rebelde que tem no quarto um cartaz da princesa Léa, de “Star Wars”, com uma arma à luta revolucionária contra o sistema). “Grace é o brilho na margem, a atração das árvores e não é deste lugar”, diz. Uma, pragmática e literal. A outra, com “imaginação bem hiperativa”. Tudo aqui precisa ser montado. Um quebra-cabeças, não muito difícil, mas acertado para expandir percepções e porquês.

As duas embarcam juntas na aventura. Novas quebras de moralidade conservadora são sutilmente trabalhados. O banho de banheira e/ou a cerveja oferecida a uma jovem de 16 anos, por exemplo. Na rádio toca um trecho de uma música: “eu preciso tanto do seu amor”. Claudia, após o acontecimento fatal, precisa sair da bolha e “confrontar os medos”, os vivenciando. E se amalgamar com os diferentes, os mutantes. Sentir atração por alguém do mesmo sexo é a carga que ela tem que carregar e usar o “coração para quebrar as grades da prisão”. E tomar café amargo “com total satisfação”. Mas “está mais viva do que nunca” após conhecer Grace. Aceitar ser um “monstro”, ”Porque os monstros só gostam de outros monstros”. “Meu Primeiro Verão” evoca referências de outros filmes de romance adolescente, como “Meu Primeiro Amor” (“My Girl”, no original), e, ao se assumir como infanto-juvenil (com ingênuo propósito condutor), insere músicas-respiros, ora com o pop-folk não convencional de Kyle Morton, ora com o pop-mainstream de Wild Ones. O longa-metragem é um recorte pincelado de características adolescentes, “de mergulhar no concreto” (título de um livro de sua mãe) e que “reza para que toda essa felicidade dure”. Toda essa “edição limitada” é traduzida por uma fotografia solar e quase invisível (o foco não é a exposição e sim a atmosfera naturalista). “Meu Primeiro Verão” é uma intimista crônica, o primeiro ano de resto da vida de Claudia, uma garota que acordou do sonambulismo. Recebeu uma segunda vida para “explorar quem ela é”. “Seja colorida bagunçada e livre”, diz-se. Ainda que se apresente com uma maior simplicidade nas ações, a diretora mantém as rédeas e o ritmo. Uma experiência nova para Katie Found, que trabalho duro para equilibrar o amargo com o doce, em temas agridoces. É sua mensagem a todas as jovens que passam pelas mesmas incompreensões típicas da idade. Um digno debut.

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