Meu Pequeno Herói Não Sabia Voar

Um filme que sabe voar

Por Fabricio Duque

Semana Vertentes Online

Participante do Laboratório de Pesquisas do Curta Cinema 2013, sob a orientação de Allan Ribeiro, Luciana Bezerra e Marcello Ludwig Maia, “Meu Pequeno Herói Não Sabe Voar” é sobre a importância de manter viva a imaginação de uma criança, visto que é na infância que se desenvolve a capacidade da fantasia, fazendo com que seja o começo de se entender o mundo ao seu redor. Talvez este período configure-se como um dos complexos, assim, pais e professores precisam respeitar o lúdico fabular a fim de conservar sonhos e esperanças. E nunca deixar que se perca a inocência antes do tempo.

Em “Meu Pequeno Herói Não Sabe Voar”, nós assistimos a uma mãe desdobrada entre a necessidade do trabalho e cuidar do filho hiperativo (ávido e estimulado pela descoberta do novo), que acredita ser um super-herói e poder voar. Para ela, a obrigação é prover e proteger. Para ele, imaturo, normal da idade, repetir o jogo simbólico de ser-interpretar infinitos papéis, até que descubra um que se encaixe melhor.

Assim como a mãe do seriado da Apple TV+, “Home Before Dark”, e/ou o pai do filme “A Vida é Bela”, de Roberto Benigni, e/ou a avó de “A Distração de Ivan”, de Cavi Borges e Gustavo Melo, e/ou a personagem da animação “O Menino e o Mundo”, de Alê Abreu, e/ou a “Pequena Miss Sunshine”, de Valerie Faris e Jonathan Dayton, o realizador daqui, Pedro Jorge, também se empenha e consegue traduzir uma naturalizada sensação nostálgico-afetiva. De viagem a uma desmascarada ingenuidade.

“Meu Pequeno Herói Não Sabe Voar” é sobre a possibilidade do querer. Sobre uma “mentirinha” de amor para impedir que a hostilidade da realidade destrua a ideia de que “tudo é possível na vida”, uma utopia sonho que salva a força do continuar. Pedro Jorge, além de assinar o roteiro, que contou com a colaboração de Francine Barbosa, Jean-Claude Bernardet, Rubens Rewald, Tainá Mühringer e Thiago Venco, também foi o criador do personagem Jekawa, veículo de estímulo a outras culturas e outras geografias.

Nosso herói, Pedrinho (o ator Luciano Otto), vive suas travessuras no “mundo da imaginação”. Sua mãe, Laura (a atriz Thaís Medeiros), no pragmatismo da vida moderna, mas que se sensibiliza com a paixão-adoração de seu filho e arquiteta um passeio adaptado às condições possíveis. O portal abre-se próximo, um pouco depois de alguns estações de metrô em São Paulo. E juntos, eles descobrem que a Liberdade pode abrandar a ansiedade e se tornar um lugar de refúgio de desprender a tensão da fase do desenvolvimento educacional. Um esconderijo para ensaiar a experiência desejada: o Japão, tão longe e tão perto.

A palavra imaginação no dicionário é definida como a “faculdade que possui o espírito de representar imagens de criar a partir da combinação de ideias; criatividade”. Talvez falte isto à contemporaneidade: permissão de se libertar do realismo das coisas e vivenciar a fantasia. Ser “O Pequeno Príncipe”. Ler “Meu Pé de Laranja Lima”. Mergulhar nas histórias em quadrinhos de Ziraldo. Aprender com Monteiro Lobato. Pausar o jogo de vide-game. Sujar-se na lama. Brincar de amarelinha. Usar a capa da indestrutibilidade. Aceitar perder como processo de que às vezes não se ganha mesmo.

“Meu Pequeno Herói Não Sabe Voar” é sobre isso e mais um pouco. Sobre o equilíbrio familiar. De trocas e acordos. De voltar um casa quando jogar mal. Pedir perdão com “mentirinhas”. Pedro Jorge dirige uma curta e potente obra sobre a obrigação-dever de não podar a pluralidade do pensamento. De adentrar no universo fabular com o intuito de ensinar o porquê do certo e o errado. De perceber que essa idade, a infância, é uma das mais marcantes e definidoras da vida-existência de uma mini-pessoa. No final, o filme é dedicado à mãe do diretor. Sim, podemos inferir com certeza absoluta de que sua mãe real é a mãe da ficção. E ele, o herói que não sabia voar, mas que agora alcança voos premiados com este curta-metragem.

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