Meu Amigo Enzo

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Meu Amigo Enzo

Abaixo de suas ambições

Por Pedro Guedes

 

 

Em teoria, “Meu Amigo Enzo” tinha tudo para ser um “filme de cachorro” diferente dos habituais (que, por sua vez, costumam ser obras esquecíveis e bobinhas): em vez de colocar o personagem-título em uma aventura cheia de piadinhas fáceis e lições de moral óbvias, o projeto prefere abordar o psicológico do animal doméstico e seu ponto de vista diante da vida de seu dono. Na prática, no entanto, o longa acaba se tornando mais um daqueles projetos que já nasceram prontos para ser exibidos e reexibidos na “Sessão da Tarde” – não que seja um filme ruim, apenas… abaixo de suas ambições.

Baseado no romance “A Arte de Correr na Chuva”, de Garth Stein, o roteiro de Mark Bomback (da refilmagem de “O Vingador do Futuro” e dos últimos “Planeta dos Macacos“) se concentra no dia a dia do cachorro Enzo, que vive com seu dono Denny e que se acostumou a vê-lo em suas corridas de Fórmula 1. Tudo começa a mudar quando Eve entra na vida de Denny e não só se torna sua namorada como, mais tarde, se casa e tem uma filha com o rapaz. A partir daí, Enzo passa a refletir sobre sua existência, sobre a situação de seu dono e sobre a vida em si, passando por um monte de renovações de espírito conforme a narrativa vai avançando.

A princípio, “Meu Amigo Enzo” parece ser uma obra bem mais “cerebral” do que a maioria dos “filmes de cachorro” que existem por aí – não custa lembrar, inclusive, que o estúdio responsável por este longa é o mesmo do bem-sucedido “Marley e Eu”. O problema, portanto, é que o roteiro de Bomback não é inventivo o suficiente para fazer jus às suas próprias ambições, falhando em desenvolver suas ideias além da superfície. Não é à toa que, embora se proponha a ser uma história quase existencial, o filme não demora até se lançar nos mesmos clichês já vistos em trocentos outros projetos, como os dramas entre Denny e Eve, a doença que vem para assolar a vida de um deles, a criança que fica órfã e até mesmo o vovô vilão que faz de tudo para mandar o genro para a cadeia (e, honestamente, este é o tipo de filme que não precisava de um vilão).

Aliás, os problemas do roteiro se refletem também na direção de Simon Curtis, que, mesmo criando um ou outro momento um pouco mais inspirado (como aquele em que Enzo vê uma zebra de pelúcia ganhando vida), passa a maior parte do tempo apostando em truques óbvios para fazer o espectador chorar, transformando o filme em uma experiência excessivamente melosa e emocionalmente artificial (ou seja: trata-se de um roteiro sobrecarregado de clichês e que, para piorar, ainda é filmado de maneira esquemática).

Como se não bastasse, “Meu Amigo Enzo” ainda conta com uma mixagem de som simplesmente bizarra – e o mais curioso é que esta bizarrice é, sim, proposital: a única voz que é ouvida de maneira clara é a do próprio Enzo; quando os humanos começam a falar, no entanto, suas vozes surgem abafadas. Sim, o recurso é intencional, mas… não funciona de qualquer jeito (afinal, há momentos onde o cachorro nem está em cena e as vozes dos humanos continuam abafadas – qual o sentido disso?).

Dito isso, o elenco se esforça na medida do possível e faz um trabalho relativamente eficaz: Milo Ventimiglia (que interpretou o filho de Rocky Balboa nos últimos filmes da franquia) está longe de ser um ator dos mais expressivos, mas ainda assim confere ternura e dedicação a Denny, ao passo que Amanda Seyfried retrata Eve como uma pessoa doce, que atrai em função de sua personalidade generosa e que comove em seus momentos de fragilidade. Já Kevin Costner se sai muitíssimo bem ao ilustrar a imaginação de Enzo e ao transformar o cachorro em um personagem multifacetado, demonstrando imenso apreço por seu dono e passando por uma jornada de amadurecimento bem-sucedida.

Apesar destes esforços, “Meu Amigo Enzo” ainda assim é uma obra esquecível e que poderia ser mais interessante do que realmente é. Não é um desastre, de fato, mas era necessário um pouco mais de criatividade para que o resultado fizesse jus às suas ambições.

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