Memory Box

Reacordando o passado pelo correio

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Berlim 2021

Integrante da mostra competitiva oficial da edição online do Festival de Berlim 2021, “Memory Box” é um filme de descobertas e redescobertas para duas gerações. Uma, conhecendo o novo. A outra, protegendo-se do conflito que reacordar o passado pode causar.  A caixa de documentos antigos, “despachada pelo acaso” e entregue pelo correio, transcende a própria memória encontrada, porque ali a mente não pode mais escolher o que projetar e o que deturpar. Essa encomenda é um encontro factual. Fotos, diários (ainda que tenham sido escritos no calor subjetivo do momento), fitas-cassetes com vozes e confissões. Todo esse “tesouro”, vindo das profundezas, em uma primeiro instante considerado um “inimigo”, é na verdade uma segunda chance. Uma reconstrução sensorial de um passado “enterrado”. O longa-metragem quebra o propósito da proteção. A avó com a mãe. E a mãe com a filha, esta, adolescente, que nos conduz por sua perspectiva moderna de não entender as dificuldades, sofrimentos e necessidades que sua “estranha mãe” viveu.

Os realizadores libaneses, essencialmente documentaristas, Joana Hadjithomas e Khalil Joreige, ao contar os relatos da fotógrafa correspondente de guerra, unem estética do documentário com ficção romanceada para assim traduzir, por imagens e poesia coloquial, a própria História do Líbano. A narrativa intimista acontece entre tempos e entre meios (naturalismo e anti-naturalismo). Por uma poética metafísica. Em que imagens interpõem sensação, memória, imaginação e realidade. É o entre que os diretores querem para assim criar uma atmosfera etérea numa atemporalidade presente de trilha sonora Indie Rock, que importa e ressignifica Blondie e Kansas, “One Way or Another” com “Dust in the Wind”. “Memory Box” é uma terapia. De choque e de amadurecimento. A filha, ao entrar em contato com as verdades do passado de sua mãe, sabe que nunca mais será a mesma. Que sua inocência foi perdida. Dessa forma, ela busca “salvar” sua mãe de si mesma, a levando para enfrentar a Terra Natal deixada para trás.

“Memory Box” é também um filme sobre estrangeirismos. Essa família, três mulheres, cada uma em um tempo-vivência, moram no Canadá depois de fugir do Líbano. Mas os dois lugares são distantes. Incompatíveis. Alheios. Como sonhos acordados sem emoções. Quando a coragem vem e Montreal se torna apenas um porto transitório de conexão, Beirut ganha possibilidade real de retorno-visita. Reencontrar o lugar “reconstruído”, como qualquer outra metrópole, e os amigos da juventude, é o renascimento. Ainda que a filha só consiga captar a mãe por vidros, o início de uma relação entra em movimento com o Sol do Líbano. O longa-metragem talvez quer demais. Contar com cem minutos tudo o que aconteceu há trinta anos mais a rebarba do agora. Para que isso aconteça, gatilhos comuns precisam existir. Soando, muitas vezes, ingênuo, sentimental e facilitador nas reviravoltas e reações, como aceitar os desmandos da filha adolescente. E/ou cenas soltas (o novo namorado da mãe, por exemplo).

Este é um filme de camadas. Cada uma se sobrepõe a outra, almejando uma colagem por retratos. De quebra-cabeças de uma história, decidida ser apagada do tempo. Por reconstituições modernas do antes. Por fantasias mentais que completam o que se vê. Essa Caixa de Pandora, que pode ser considerada inicialmente como um presente de grego e/ou um Cavalo de Tróia, estimula a curiosidade em descobrir segredos e o relembrar de um passado “morto” (e o “trauma da guerra” – que nunca vai embora). “Memory Box” é um filme mais que uma representação pessoal de seus realizadores. Os próprios diários e fitas de Joana de 1982 a 1988 e as fotos de Khalil durante a guerra formam o arquivo em torno do qual constroem a história de Maia e Alex (e sua experiência de com a estética das mídias sociais), um diálogo-conflito com a presença física de imagens da juventude de sua mãe.

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