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Memória Sufocada

Antessala do inferno

Por Pedro Sales

Memória Sufocada

434 mortos ou desaparecidos, 20 mil torturados, 8.350 indígenas executados e mais de 10 mil brasileiros exilados. Esse foi o saldo de 21 anos de Ditadura Militar no Brasil (1964-1985). Apesar de denunciados os terrores do período, até mesmo nos dias de hoje, após a redemocratização, existem rastros desse passado manchado de sangue. Em um movimento autocongratulatório, militares que alçaram o Poder Executivo homenagearam torturadores e reverenciaram os atos execráveis da ditadura. Isso, além de ser uma afronta à democracia e um deboche diante das vítimas e suas famílias, ainda atesta fatores fundamentais nesses discursos: a pós-verdade e a deturpação da história. Em “Memória Sufocada“, o extenso trabalho de pesquisa do cineasta Gabriel Di Giacomo demonstra a busca pela verdade através da navegação na internet, por meio do acesso de arquivos públicos e depoimentos.

A frase atribuída a Edward Burke, “Um povo que não conhece sua história está fadado a repeti-la”, é bastante sintomática no que diz respeito à preservação da memória de um país e à necessidade de relembrar períodos conturbados. O exercício da memória e revisitar os documentos se faz extremamente necessário sobretudo quando uma grande ala política brasileira relativiza tortura e assassinatos como um “mal necessário” para manter a ordem. Caso o documentário fosse realizado há uns 30 anos, com certeza o acesso irrestrito aos dados públicos seria inviável. O diretor teria que “bater muita perna” para conseguir (se conseguisse) documentos do DOI-CODI (Destacamento de Operações de Informação – Centro de Operações de Defesa Interna) – órgão de repressão política sob tutela do Exército durante a ditadura –  e anúncios estatais. Hoje, por outro lado, muitas informações estão a um ou dois cliques de distância.

Compreendendo o impacto da conectividade, Gabriel Di Giacomo opta por utilizar as ferramentas de pesquisa e a internet em si como um elemento narrativo de “Memória Sufocada“. Todas as novas informações surgem por meio de cliques, como se fosse de fato alguém pesquisando no Google. Esse estilo é comumente chamado de screenlife ou desktop movie. Neste gênero, toda a ação do filme se desenvolve por meio das telas, seja de celular ou computadores. Um exemplo de filme que utiliza o mesmo recurso é o suspense “Buscando…“. Dessa forma, ao inserir o ciberespaço dentro da obra, o cineasta propõe, além de um claro dinamismo visual e discursivo, uma proximidade com o público, o qual está habituado a telas e mais telas, hyperlinks e anúncios que interrompem nos momentos mais inoportunos. Da mesma maneira, reflete também o bombardeamento e excesso de informações no ambiente digital, a infodemia. Ainda assim, por vezes, o efeito soa até cômico. Com liberdade artística, o diretor brinca com esses arquivos. Áudios entre o presidente dos Estados Unidos John F. Kennedy com o embaixador Lincoln Gordon no Brasil se tornam uma conversa no WhatsApp.

Estes, no entanto, são os poucos momentos leves do documentário. O enfoque dado aos depoimentos do Coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra – homenageado por Jair Bolsonaro na ocasião do impeachment contra Dilma Rousseff –  na Comissão da Verdade, em 2013, nos coloca diante de um verdadeiro monstro, comprometido com seu discurso e determinado em negar a verdade. O nome do longa, inclusive, vem de uma modificação do título do livro escrito pelo militar, “A Verdade Sufocada”. Através da montagem, em uma espécie de discurso indireto livre tecnológico, alternam-se as defesas exaltadas do Coronel com os depoimentos dos torturados e, claro, com imagens de arquivo. Residem, portanto, nas revelações das vítimas os momentos mais impactantes do longa. O DOI-CODI foi uma antessala do inferno. As imagens do prédio vazio guardam humilhações, espancamentos, torturas e assassinatos. Se morto depois de uma sessão na “cadeira do dragão” ou de um afogamento, bastava alterar o motivo da morte. “Foi morto em conflito com a polícia”, “cometeu suicídio”. Vladimir Herzog, Hélcio Pereira Fortes e tantos outros tiveram suas mortes fabricadas. Aos que sobreviveram, sequelas irreversíveis: perda auditiva, esterilidade em razão de violência sexual. Os responsáveis, mesmo depois de velhos, negam os crimes. O Major Tibiriçá e o Capitão Ubirajara, dessa vez sem se esconderem atrás de codinomes, mentem de cara lavada.

Memória Sufocada” é um documentário engajado com a investigação e com o resgate histórico do período mais aterrador da história do Brasil. O diretor, entretanto, não se limita a uma visão presa ao passado e aos arquivos. A livre associação de imagens dos anos 70 às filmagens de protestos extremamente recentes denunciam a fecundidade que discursos autoritaristas alcançam parte da população brasileira. Placas com os dizeres “Intervenção Militar Já” e ‘Queremos um novo AI-5″ não são uma amostra de esquecimento, mas de manipulação histórica. Por essa razão, a busca pela verdade, intenção original do documentarista, é relevante politicamente. A linguagem cinematográfica de desktop movie, além de ser uma decisão estética-formal, funciona quase didaticamente como uma comprovação de que qualquer um pode descobrir e ter acesso ao que é verdadeiro. O golpe civil-militar de 1964 completa, na data de publicação deste texto, 59 anos. Desde então, muitas vozes foram sufocadas, mas a manutenção da memória é uma forma de fazer justiça e evitar que a história se repita e é isso que o longa e seu próprio site fazem.

4 Nota do Crítico 5 1

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