Medo Profundo: O Segundo Ataque

O tubarão contra-ataca

Por Pedro Guedes

Lançado em 2017 sob a direção de Johannes Roberts, “Medo Profundo” não foi muito elogiado pela Crítica especializada, mas fez enorme sucesso em cima de um orçamento minúsculo – o que, por si só, foi mais do que o suficiente para que Hollywood resolvesse produzir uma continuação daquele longa. O que nos traz a “Medo Profundo: O Segundo Ataque”: novamente dirigido por Roberts, este novo capítulo se revela um “filme de tubarão” genérico, descartável e intercambiável no meio de seus colegas de gênero recentes, tornando particularmente difícil a missão de redigir um texto inteiro sobre seus elementos narrativos e de linguagem. Afinal, se debruçar em uma obra tão insípida quanto esta não é nada fácil.

Escrito por Roberts e por Ernest Riera (que também trabalhou no primeiro filme), “Medo Profundo: O Segundo Ataque” acompanha um grupo de cinco amigas que viaja até Recife, aqui no nordeste do Brasil, para mergulhar no rio e contemplar os destroços de uma antiga cidade subaquática. Mas é claro que um monte de coisas dão errado no meio do caminho: enquanto passeiam pela “expedição” no fundo do rio, as jovens percebem que, embora os antepassados da cidade submersa estejam mortos (ou petrificados), os novos habitantes daquela região estão firmes, fortes e prontos para atacar. Caso não esteja claro o suficiente, o tais “novos habitantes” são tubarões com sede de sangue – e, a partir daí, as protagonistas começam uma longuíssima luta por sobrevivência, percebendo que só o trabalho em equipe será capaz de livrá-las das garras (perdão: dentes) dos temíveis animais.

Artificial desde o princípio, o horrível roteiro de Roberts e Riera já começa investindo em diálogos terrivelmente falsos e que parecem ter sido escritos por um robô tentando emular os padrões de comportamento da sociedade, estabelecendo as relações entre as personagens da maneira mais clichê possível – e o mais irritante não é o clichê em si, mas o fato de o filme empregá-lo de forma indiscriminada, como se nunca percebesse sua falta de imaginação (se os roteiristas ao menos tentassem desconstruir estes clichês, aí talvez o resultado fosse melhor, mas… não é o caso). Assim, a protagonista Mia se apresenta não só como a vítima das “meninas malvadas” (sim, referência intencional) do colégio, mas também como a irmã adotiva de Sasha, uma garota que “não a considera sua irmã” – e, para tentar tornar as duas mais companheiras, os pais/padrastos de ambas decidem mandá-las num passeio em conjunto (o que faz Sasha ficar extremamente chateada, pois já tinha marcado um rolê com as outras amigas). E se tudo isso parece natural aos seus olhos, acredite: o filme não faz nada disso parecer natural.

Depois da apresentação desastrosa das personagens, “Medo Profundo: O Segundo Ataque” mergulha (com o perdão do trocadilho) em um segundo ato interminável no qual Johannes Roberts demonstra ser mais um daqueles cineastas que confundem “duração das cenas” com “construção de suspense”: mesmo após nos apresentar aos tubarões em si, o diretor ainda assim julga ser necessário esticar o tempo de cada sequência ao máximo possível, o que, em vez de prolongar a tensão, serve apenas para eliminá-la de vez, já que o espectador se sente mais aborrecido do que interessado em descobrir como as personagens vão se safar da situação. Se somarmos isto à horrorosa computação gráfica empregada para criar os tubarões, tanto as sequências de suspense quanto as de ação tornam-se ainda mais artificiais e distantes do que já eram a princípio – aliás, os tubarões desta produção atuam de maneira idêntica aos crocodilos de “Predadores Assassinos“, surgindo mais ou menos perigosos/racionais de acordo com as necessidades imediatas do roteiro: aqui, eles são monstros implacáveis; ali, eles atacam suas presas de forma bem mais condescendente do que antes.

Assim, quando chegamos ao terceiro ato (que faz jus aos dois anteriores; o que não é um elogio) e nos deparamos com uma série de conveniências simplesmente inacreditáveis (comprovando como os norte-americanos parecem acreditar que o Recife se resume a um único lago), não conseguimos sequer esboçar um sinal de frustração ou de descontentamento, pois o resto da narrativa que acompanhamos nos 70 minutos anteriores já tinham sido decepcionantes o bastante. De qualquer forma, não é improvável que Hollywood ainda produza um “Medo Profundo 3” daqui a uns dois ou três anos – mas, a julgar pelo padrão de qualidade que a série vem exibindo até aqui, não sei se isto é um bom indicativo.

 

Anuncie no Vertentes do Cinema

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *