Mayday

Quero ser Charlie Kaufman

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Roterdã 2021

Charlie Kaufman, roteirista e diretor norte-americano, fez escola aos cineastas iniciantes. Quase uma bíblia a ser seguida no universo cinematográfico independente. Com sua metafísica psicológica, justificada pelas infinitas possibilidades da mente humana. “Mayday”, integrante da mostra competitiva do Festival de Rotterdã 2021, é um deles. Sua narrativa desenvolve-se pelo gênero do realismo fantástico, uma ficção científica, como um portal tridimensional, uma expansão realista de “Matrix”, que subverte a lógica do tempo-espaço. A ação-fantasia do longa-metragem é um pedido de socorro por seres “diferentes” e “extra-terrestres” à humanidade que aumenta mais seu mais vital elemento humano.

Realizado por Karen Cinorre, estreante na direção de longas-metragens, “Mayday” traz a figuração modernizada de “Alice no País das Maravilhas” com a forma das Amazonas, como se fosse uma Mulher-Maravilha, que precisa desligar o cérebro (um coma) para se reconectar com a verdadeira essência e propósito de sua própria vida. Quase uma versão holística mais séria de “Dirk Gently’s Holistic Detective Agency”, que prega que “tudo está conectado” e que não há como mudar. É como se a protagonista Ana (de nome anagrama), uma garçonete, descobrisse um mundo paralelo, à moda de “Stranger Things”. No lado “normal”, considerado realidade, ela sente estranhas interferências (que podem ser exemplificadas com outro seriado da Disney-Marvel “WandaVision”) em sua existência excluída e à margem. Vive no carro e recebe bullying no trabalho. Ana é uma “ninguém”, uma “amadora” (“Quem pensa que é?”). Ao viajar no tempo por um forno, encontra um refúgio de mulheres. A atmosfera etérea-noir ganha críveis alucinações e “visões do mundo”. Será uma mutante em um “limbo crepuscular” dentro de um submarino encalhado?

“Mayday”, por mais que tente, não consegue se desvencilhar dos gatilhos comuns da fórmula estrutural do cinema independente, que por sua vez se baseia no hollywoodiano. Ultimamente, não há mais como separar um do outro. A vanguarda-estética de antes foi domada (e domesticada) pela audiência. Assim, as ações-reações ficam mais forçadas e mais afobadas para dar ritmo a uma pressa-urgência inexplicável, pululada de frases de efeito. De uma auto-ajuda sentimental. Assim como Kaufman, aqui a narrativa se embasa na loucura para se fazer possível. O que é fantasia e o que é realidade? Ana está em processo de desconstrução de lá e amadurecimento de cá. Pela dureza não suavizada. Com armas, impulsos, guerrilhas.

Ainda que a atmosfera nonsense de “parábola mítica” (termo cunhado pela diretora), à moda de Wes Anderson, retire o espectador do senso comum, e a fotografia consiga poetizar a imagem coloquial, “Mayday” se auto impõe limites. Barreiras intransponíveis. As histórias reconstituídas, como por exemplo a dos rituais ressignificados de que “herói é a mesma coisa que  psicopata” (Uma crítica aos atiradores?) e/ou a metáfora da subjetiva guerra diária de cada um, tudo desemboca na redenção. Um retorno ao conservadorismo das relações familiares (e a permanência do sofrimento), inocência e moralismo (sem insinuações sexuais).

Sim, entendemos todos os objetivos deste classificador infanto-juvenil. O de ser uma obra feminista contra o assédio machista de homens “primitivos” (que não são retratados como “monstros” e sim como meninos). Mas quando “Mayday” surta ao incorporar new-wave e musical (executado com um balé sonhador ao som de “Love Is Blue”, de Liberace), nós espectadores não conseguimos mais defender o filme por mais que se queira.

Trailer

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