Maya | Crítica

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Não sabe para onde ir

Por Pedro Guedes

Quando “Maya” chegou à metade de sua projeção, confesso que fiquei sem entender o que a diretora/roteirista Mia Hansen-Løve pretendia dizer com esta nova obra. Jamais demonstrando um norte para suas ambições, o filme se resume a um protagonista que expõe, da boca para fora, meia dúzia de palavras óbvias e que caminha pelas ruas da Índia sem que isto faça o espectador se importar com sua jornada, fazendo a obra soar mais como um cartão-postal do que como o estudo de personagem que se propunha a ser – e isto é uma pena, já que, na superfície, o longa parece disposto a discutir questões importantes como estresse pós-traumático, maneiras de lidar com um passado sombrio e até mesmo imigração.

Escrito e dirigido por Hansen-Løve, “Maya” gira em torno de Gabriel, um jornalista francês que passou a vida inteira cobrindo guerras perigosas e que se habituou a estar no centro de muitas delas. Depois de ser sequestrado e mantido em cativeiro na Síria, no entanto, o sujeito adquire vários problemas psicológicos relacionados a este trauma específico (e esta é uma das questões que poderiam tornar o filme tematicamente relevante caso o roteiro não a desenvolvesse com tamanha preguiça), o que faz ele partir para a Índia com o objetivo de se reequilibrar – afinal, Gabriel passou parte de sua infância naquela região. Tudo muda quando certas figuras do passado voltam à vida do indivíduo e – o mais determinante – surge uma mulher com quem se envolve num relacionamento amoroso.

Sim, é possível perceber que “Maya” tinha potencial: sua história é atual e importante, incluindo temas que poderiam render discussões interessantes; como interação entre países, os traumas da guerra, como lidar com o passado e com as instabilidades trazidas por ele, a capacidade que um distanciamento tem de resolver alguns problemas pessoais, etc. O problema é que Hansen-Løve demonstra imenso desinteresse em explorar com paciência todas estas questões, não sendo à toa que o filme sequer se dê ao trabalho de mostrar o passado de Gabriel na hora certa, já iniciando a narrativa com o sequestro na Síria sendo encarado como algo que aconteceu há um bom tempo – e só a decisão de abrir a narrativa ignorando os detalhes que levaram o protagonista à sua atual condição já elimina boa parte do peso dramático de seu arco, que soa incompleto e abreviado através de meia dúzia de diálogos aborrecidos e expositivos.

Aliás, aborrecimento é algo frequente em “Maya” e na direção de Hansen-Løve, que, por sua vez, conduz a trama de maneira totalmente desleixada e dispersa. Praticamente tudo no longa é mostrado de maneira apática e distante, como se a cineasta não fizesse questão alguma de envolver o espectador nos dramas reais do protagonista; o que resta, portanto, é uma cena que se amarra à outra sem nenhuma agilidade, fazendo o resultado final da obra soar narrativamente vazio, estruturalmente frouxo e emocionalmente inócuo. Isto, por sinal, se reflete muito na performance central de Roman Kolinka, que poderia transformar Gabriel num símbolo do que a guerra e o sensacionalismo da imprensa são capazes de causar quando exploram a tragédia alheia, mas que acaba limitado a duas ou três caras e bocas que, ao contrário do que Hansen-Løve acha, pouco dizem a respeito de seu quadro emocional/psicológico. A intenção da cineasta (e do ator) é tratar Gabriel como um sujeito definido por traços minimalistas e sutis; na prática, porém, o que resta é um personagem bidimensional e inexpressivo.

Desperdiçando de maneira terrível uma série de temas importantes (como já discuti anteriormente), “Maya” ainda conta uma historinha de amor boba e apática que, protagonizada por dois atores que não têm química alguma quando estão juntos, acaba retratando a mulher quase como um “remédio” para os problemas pessoais de Gabriel – e, neste sentido, o filme torna-se também questionável de um ponto de vista moral e ético, já que reduz a importância de um papel feminino de maneira decepcionante. No fim das contas, não chega a ser um filme detestável, já que existe, sim, uma ou outra ideia interessante que fica escondida no meio de tanta mediocridade. Só é uma pena, no entanto, que Mia Hansen-Løve tenha sido incapaz de fazer por merecer os aplausos que almejava ao abordar temas tão relevantes.

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