Mostra LC Barreto de Curtas 2026

Marty Supreme

Ping-pong como guerra psicológica e social

Por Fabricio Duque

Marty Supreme

O cinema realmente tem mesmo um poder incrível de conexão e sinestesia com seu público. Isso tudo se dá muito pela forma criativa de seus autores, que, quando escolhem a não padronização de gênero, conseguem encontrar a maestria e excelência em seus resultados. Esses realizadores não querem o conforto, pelo contrário, provocam a desconstrução da criação, em que as próprias obras entram em conflito com elas mesmas durante seu tempo de exibição. Mas é preciso também que seus atores escalados estejam em concordância, no mesmo tom e na mesma vibe, para que assim atinjam o clímax da entrega por completo de suas interpretações, como em um treinamento permanente do método Stanislavski (“técnica focada em criar performances autênticas e realistas pela vivência interna e pelas ações físicas do ator, explorando assim a psicologia da personagem com todas as suas motivações para que a emoção pareça verdadeira e não fingida”).

Não, não é nem um pouco fácil encontrar essa fluidez ritmada, orgânica, genuína e naturalista. Mas como na vida sempre há exceção e o mundo da sétima arte não poderia ser diferente, até por ser um espelho dessa realidade toda, um desses filmes é “Marty Supreme”, novo longa-metragem de Josh Safdie, que trouxe Timothée Chalamet para formar toda essa partida bate e volta e já nos ganhou por seu match point, certeiro, cirúrgico e agressivamente coloquial. Pois é, o longa-metragem em questão aqui é, acima de tudo, uma experiência sensorial, porque nos imerge em uma narrativa exaustiva, repetitiva, divisiva, eletrizante, frenética, de ritmo intenso, de cortes rápidos, fragmentados e com câmera em super close. Sua forma-gênese encontra-se em retroalimentar a decadência estética do cenário que nos apresenta. E sim, mais uma vez precisamos “tirar o chapéu” para Timothée, que assim como em “Me Chame Pelo Seu Nome”, e, muito especialmente, em “Um Completo Desconhecido”, utiliza a interpretação obsessiva como verdade, não encenando a personagem, mas a tornando tão crível existencial e tecnicamente falando. Tanto que o ator se comportava exatamente igual também fora das câmeras, até acabar as filmagens. Sim, performances assim são cada vez mais raras, porque dão trabalho.

Como já disse, “Marty Supreme” quer mergulhar na decadência, evocando uma época passada, mas a moldando quase como uma distopia atemporal. Isso acontece pela intercalação da música em um tempo disfuncional e perdido. E entre tantas camadas, assistimos a um universal estudo de caso sobre como sobreviver em um mundo cão e em recessão. Tudo parece ser underground e então as opções têm que ser não só urgentes como a de “enxugar gelo”. Dificuldades de dinheiro geram ações desprovidas de uma padronizada moral social. Ali, o mais esperto vence. E ganha um dia. Este filme é também uma análise sobre o próprio ser humano enquanto indivíduo e obrigado a viver coletivamente. Que se vê “preso” em uma estrutura limitada de vida, com pouquíssimos instantes de respiro e felicidade, impedindo os sonhos reais e os dons perceptivos, como ser um jogador de ping-pong.

Pois é, “Marty Supreme” poderia ser muito chato e desinteressante àqueles que não possuem interesse por este esporte de jogar bolinhas. Sem chances e sem treinamentos necessários, e se utilizando apenas da certeza de ser muito bom (num ego bem mais inflado como provação), muitas vezes o jogador encontra seu WO, a vitória automática do adversário. Sim, o mundo é cruel e hostil. E neste tempo que Josh Safdie pensou (escreveu junto com Ronald Bronstein e projetou sua direção como “tensão de enfarto”), inspirado no livro autobiográfico “The Money Player: The Confessions of America’s Greatest Table Tennis Champion and Hustler”, escrito por Marty Reisman, nascido em 1930 e falecido em 2012, excêntrico jogador de de tênis de mesa americano,  “jovem sonhador” de Lower East Side de Nova York, conhecido por seu estilo ousado e por se apresentar como um “showman”.

Mas “Marty Supreme” não é uma tradução literal. Até porque se fosse estaria mais para um documentário. Seu alívio cômico está  no “nosso nervoso” ao adentrar na jornada dessa ambição à fama. Nós sentimos o desconforto e o não pertencimento de suas personagens, principalmente a do protagonista. Tudo isso é complementado pela estética anacrônica. Por exemplo, o filme se passa nos anos cinquenta, mas as músicas são oitentistas (inclusive com gírias do nosso contemporâneo do agora), destacando assim o deslocamento temporal. Aqui, ping-pong vira guerra psicológica e social. E nisso a A24 (que bancou um orçamento de cerca de US$ 70 milhões, é um de seus filmes mais caros), Josh Safdie (por já ter feito isso em “Joias Brutas”) e Timothée já estão acostumados a reproduzir. “Marty Supreme” é um incontestável marty supreme.

5 Nota do Crítico 5 1

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