Majur

18 minutos de uma força temática inegável

Por Pedro Guedes

Mostra Sesc de Cinema 2019

Majur é o chefe de uma aldeia no interior do Mato Grosso. Embora Majur seja costumeiramente associado a um nome feminino, o protagonista deste curta-metragem é um homem – e ele se identifica como tal, apenas adotando o nome Majur para si por vontade própria (o que, claro, causou incertezas, dúvidas e resistências em algumas pessoas de seu convívio). Mas o que importa é que Majur tem plena consciência de sua identidade e não tenta escondê-la: ele lidera uma aldeia indígena, pertence à comunidade LGBTQIA+ e se apresenta como homem mesmo que seu nome pareça o de uma mulher. Neste sentido, “Majur” (agora falando do curta) tem muito a ver com “Antes o Tempo Não Acabava”, que girava em torno de um índio que se descobria gay.

O impacto que uma descoberta como esta pode causar em uma cultura diferente da nossa é interessante de ser, ao menos, observado. E se há algo que a Arte propicia (e que infelizmente vem faltando em nossa apática Sociedade) é o estímulo da empatia; a tentativa de fazer o espectador se colocar no lugar do outro e de buscar enxergar o mundo sob a ótica de um representante de outra cultura. Assim, “Majur” se revela um documento importante neste momento da História brasileira – algo que o próprio filme faz questão de ressaltar ao incluir pequenos trechos de discursos polêmicos do atual presidente Jair Bolsonaro da época em que ainda era deputado federal e nos quais dizia coisas como “No que depender de mim, não vai ter um centímetro demarcado para reserva indígena ou para quilombola” e “Se o filho começa a ficar assim, meio gayzinho, (ele) leva um couro e muda o comportamento dele“. Majur, o protagonista, é um chefe indígena homossexual num país representado por um cara com posições notórias contra os diretos dos LGBTs e dos índios; como conciliar, portanto?

Infelizmente, a força temática de “Majur” acaba não recebendo o tratamento profundo que merecia, resumindo as críticas políticas a apenas uma cena (poderosa, ainda assim) e explorando rapidamente os dilemas internos do protagonista diante das reações das pessoas ao seu redor. É provável que, se durasse um pouco mais do que ligeiros 18 minutos, o resultado pudesse ser bem mais ambicioso e eficiente – do jeito como está, no entanto, ainda se mantém relevante.

Trailer

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