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Madrugada em Paris

Falso local de possibilidades

Por Ciro Araujo

Festival Varilux 2021

Madrugada em Paris

A seguir, um fato: filmes noturnos deveriam ser um gênero a parte. Muitos classificam como obras rodadas durante apenas um dia inteiro, mas é diferente. É soturno, permite um sentimento místico. “Madrugada em Paris”, do francês Élie Wajeman, procura misturar a caminhada da noite e a profissão de médico em busca de descobrir uma combinação que funcione. Apesar dessa ousadia, o longa-metragem cai na tendência francesa independente de não possuir um estalo de genialidade.

O citado estalo de genialidade nos leva a refletir sobre a necessidade de filmes possuírem essa necessidade. Afinal, toda obra deve almejar uma excelência explícita? A resposta é muito provável que seja um “não”. Reverberando a respeito da caminhada noturna observada no filme de Wajeman, essa diferença específica (o genial) é na realidade algo que o alcança como um calcanhar de Aquiles. Não porque ele é um filme simples, mas também porque é um longa que não oferece muito espaço para sair do além-tela. Vincent Macaigne atua como Mickaël, um doutor com boas intenções e que realiza atos políticos como receitar medicina para drogados. A sacada de bom médico é de fato alguma tentativa, tanto de produzir empatia como de escutar toda a trajetória do personagem que irá atravessar essa uma hora e quarenta minutos de filme. Então pergunta-se, imediatamente, sobre as suas possibilidades de passar esse horário fílmico caminhando nos subúrbios parisienses.

“O espaço é personagem”. Alguém provavelmente disse isso. Mas de qualquer forma, o lema aqui recitado é utilizado pelos mais diversos narradores e escritores. Gostam de transformar um deslocamento e imaginário urbano através da imaginação. Apesar de um local de possibilidades, “Madrugada em Paris” não é que não possui o estalo, mas que não possui o espaço propriamente dito. Élie Wajeman dirige perfeitamente a angústia e uma espécie de afogamento de Vincent como Mickaël. Porém é por assim que se fica. Andanças em Paris tornam-se chatas, entediantes. Imediatamente a obra associa-se com o longa-metragem do americano Woody Allen. Em Meia-Noite em Paris o autor é extremamente positivo e inclusive um estereótipo do típico homem branco que atravessa as noites de uma cidade europeia. Já o diretor francês decide investir no underground, no proibido e perigoso. Um perigo que fica por superfície, que mais assusta o protagonista que preocupa de fato. Se ao menos o interesse se estaciona em situações ocultas, nada ali se move, trazendo o desmanche espacial citado.

Antes o filme fosse tratado como um conto noturno. Mas ele não pode ser assim observado, pois todo seu “local de possibilidades” se perde. Scorsese já o fez, o mestre americano já entendeu sobre esses tais encontros e desencontros. Existem hoje franceses que também compreendem o conceito citado nas aspas. A pergunta que muito se faz então é sobre o quê Élie Wajeman deseja dirigir. É visível Vincent se tornando maior que o próprio filme, engrandecendo a cada close. Seu olhar marejado e calejado, observa os sinais e luzes vermelhas e verdes que ecoam em sua mente. Esse é seu maior trunfo, que ataca como um murro.

Para mais, as relações escritas no roteiro são montanhas russas que ficam longe de cartas de baralho. A metáfora pode ser explicada da seguinte forma: quanto mais o filme cresce, menor parece ser suas consequências. Novamente, o tal do “perigo em superfície que não preocupa”. Existe um clichê bem propenso, do tal do gangster ou bandido, seja lá em qual gênero você esteja (o de máfia ou o de western): um último golpe para depois parar. Claro, Mickaël é um personagem perfeito para. Então, Wajeman parece estar nessa encurralada de encontrar o que deseja, mas sem espaço para ampliar (e amplificar) seus conceitos de um personagem anti-herói. Isso porque em meio ao já estabelecido cinema com heróis também bem definidos soa uma façanha. Afinal, como transparecer a babaquice dentro do escrito, mas que magnetize o espectador com empatia? As perguntas ficam esperando respostas dos mais variados roteiristas, enquanto nesse neo-noir da obra eles (os escritores Élie Wajeman e Agnès Feuvre) esperam atingir quem é que concorde com as ações antiéticas de um complicado médico.

“Madrugada em Paris” emite luzes. Fracas, mas elas são emitidas. Ele prepara terreno, um espaço pré-definido tão interessante que é complementado pela atuação formidável de Vincent. Para além, nada mais sobra, além da pouca tensão gerada. De fato, um filme francês independente. Agora cabe a qualquer um definir a necessidade pelo famigerado estalo de genialidade em si.

3 Nota do Crítico 5 1

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