Madame

As Damas e o Tabuleiro

Por Roberta Mathias

Durante o Festival do Rio 2019

O documentário “Madame”, exibido na Mostra Itinerários Únicos do Festival do Rio 2019 narra o encontro do diretor André da Costa Pinto com uma figura, até então, mística – um tanto lendária – que pairava sobre a casa de sua avó nas reuniões de família. A figura do filho que saiu de casa usando batina e voltou de vestido. É somente após ver uma reportagem sobre tráfico sexual em Paris em 1998 que André descobre que essa figura não somente existe, mas que agora ele sabe sua localização exata. A partir daí, o longa-metragem e o cineasta saem da sala cheia de música de sua avó no interior da Paraíba para um encontro com Camille Cabral na França.

Na co-direção André ganha a companhia de Nathan Cirino, outro paraibano. Os dois conduzem com gentileza e sensibilidade uma história que poderia perpassar a violência, o abuso e a morte. De certa maneira, “Madame” até toca nesses pontos, mas ele é muito mais sobre a sensibilização com o diferente do que a agressão. A narrativa não foge dos problemas de saúde pública enfrentados pelos transexuais que trabalham nas ruas, mas opta por focar no afeto.

A sessão no MAM era de festa da equipe de realizadores. Após oito anos de produção, finalmente “Madame” ganhava o mundo. Essa empolgação foi demostrada nas palavras de André, que em seu discurso disse: “tudo o que esse governo não gosta: mulher, trans, paraibana, ativista dos direitos humanos”. Ao falar ainda sobre a dificuldade de levar essa produção para as telas, Cirino disse que, de certo, ele apareceu no momento certo. Concordo com os diretores, acho que tudo tem seu tempo para florescer. E admito que Camille já me ganhou aí. Como diria o filósofo Walter Benjamin – somente para citar um de meus afetos e, adianto, essa será uma crítica toda perpassada por eles, assim como foi “Madame” – toda arte é política. Todo posicionamento diante do mundo é político. E, pode ser artístico. Que bom quando as duas coisas se unem para mostrar narrativas sensíveis.

O encontro de André com Camille inicia a narrativa, mas é ao mostrar o funcionamento da ONG PASTT (Prevenção, Ação, Saúde e Trabalho para os Transgêneros) criada por ela em 1993 que começamos a entender a importância da ativista e sua luta constante pela melhoria da saúde pública e para a própria manutenção de vida das transexuais imigrantes que chegam à Europa em busca de uma vida mais digna. A médica (Camille se graduou em Ciências Médicas no Recife antes de deixar o país) optou por uma ação mais direta. Montando kits de prevenção, organizando a papelada burocrática na chegada e por conta da morte dessas transexuais, ela se transformou em figura de referência não somente em Paris, mas no mundo. Ainda foi a primeira vereadora trans e brasileira a ser eleita na França.

Ao defender a saúde desses corpos como problema de saúde pública, como problema social, a ativista toca em um ponto que pode não agradar aos mais conservadores. Quem procura as transexuais de Bois de Boulogne? A região, conhecida justamente pela concentração do serviço sexual, se mantem ativa porque conta com clientes. Não é? É! Em entrevista a um programa francês, Camille diz o óbvio: os clientes também são homens que se identificam como heterossexuais, casados, noivos, com namoradas… Só isso já faria da situação um problema de saúde pública, mas Camille vai além. O fato de trabalharem com serviço sexual não lhes tira a cidadania o tema tão caro à organização moderna francesa. Liberté, Igualité, Fraternité, não é mesmo?

Católica, educada em um convento de franciscanos e devota de Bom Jesus dos Passos ela diz que o grande amor de sua vida foi sua mãe. Luta contra a invisibilidade dos corpos trans, mas conecta essa luta aos ideais ensinados por sua genitora e pelos religiosos. O amor ao próximo era pauta – para usar um termo quente e atual – de Jesus. Camille compreendeu bem o que lhe foi ensinado durante as aulas de religião no interior da Paraíba.

Não é a favor da cafetinagem, ou seja, da exploração desses corpos, mas é a favor da liberdade. “Uma pessoa de valor e convicções”, como ela mesmo diz. É em sua volta para cidade natal Barra de São Miguel que algumas coisas vão ficando mais claras. Camille não abdicou de seu carinho pela família ou de sua religião. Ela somente optou por uma vida de luta que talvez não combinasse com aquele espaço, mas a conexão com suas raízes permanece viva, pulsante.

A gente tem que desobedecer quando a gente vê que os direitos humanos estão em risco, né?

É, Camille. A gente precisa definir qual é o nosso posicionamento no tabuleiro.

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *