Madalena

Os sinais de uma ausência nos campos de soja

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Rotterdam 2021

Representante do Brasil na mostra competitiva Tiger Award do Festival de Rotterdam 2021, “Madalena” traduz-se por simbolismos cotidianos, de contemplação sensorial, orgânica-coloquial e naturalista, a fim de construir um filme-coral, em que as conexões e os tempos entre os personagens acontecem independentemente de afinidades conhecidas. Para todos, cada indivíduo é um estranho existindo em um compartilhado ambiente-elipse interiorano no Mato Grosso do Sul. Esses significados, metáforas-escolhas, como observar avestruzes (talvez porque estes animais adaptáveis habitem ambientes sensivelmente diferentes, mas sempre em espaços abertos que permitam um campo visual) e/ou o próprio título do filme “Madalena”, que representa a meretriz na era de Cristo e que aqui tem ressignificação como travesti.

“Madalena”, do estreante realizador carioca Madiano Marcheti, conduz-se pela metafísica (um que de “O Som ao Redor”, de Kléber Mendonça Filho, com “Sem Seu Sangue”, de Alice Furtado), um etéreo tempo pausado (som magistralmente desenhado por Bernardo Uzeda) com iminência de que o “mal” chegará, narrativa esta bem à moda de “Twin Peaks” (percepções estranhas de sentir espíritos – como se um portal-possessão fosse aberto: a luz escurece e o invisível é personificado no sensitivo) e que contrasta o bucolismo—espera da natureza com a aceleração-vontade do universo dos mais jovens na cidade grande. Por exemplo, avestruz e veículo da colheita de soja. A boate (e o atemporal neon de ilusão artificial) e a casa do avô (a própria realidade). São apresentadas vidas negociadas em sobrevivências diárias, que “não têm nada em comum” uma com a outra. Padronizadas ao conservadorismo reinante com “escapadas”. Serviço público “paga melhor a moto e tem vida garantida”.

A rádio evangélica, propaganda política de uma senadora, a lambaeróbica na rua, o sonho de uma academia, a palavra top, a balada sertaneja, jogar os mesmos número na loteria (“é assim que ganha”), “sambar na soja”, dançar para um videoclipe machista de duplo-sentido (“pegando todas e pulverizando o meu amor”), tomar “bomba para ficar monstro e gigante”, drones sobrevoados, ter atitude “pulso de ferro” com abusados, as insinuações sexuais da “broderagem”, tudo faz de “Madalena” um filme com muitos filmes, pululando fragmentos-instantes de vidas em camadas psicológicas que levam ou à loucura ou à fuga na alienação externa. “Não adianta sair daqui, todo canto é um buraco”, resigna-se, convive com os “miguezeiros”, gíria que quer dizer que a pessoa é enrolada e que não gosta de fazer nada, e, com  vulnerabilidade impotente, aceita o mundo cão e as ações de seres não mais humanos do lugar onde mora, Sorriso, mais um simbolismo invertido.

“Madalena” pode ser entendido também como um filme-crônica. Que reverbera ausência em diferentes partes de uma cidade, estimulando o elemento humano de ser afetado pelo perda de alguém, ainda que não tenhamos tanta intimidade assim. Cada capítulo representa uma questão. Luta social, a violência-morte dos travestis e/ou a simples levada da existência. Nos damos conta que não se sabe mais quem ali está vivo ou morto. A “viagem” de carro de amigas descontinua o ritmo-cadência do filme, finalizando com sereias, seres mitos. Contudo, toda essa comtemplação e quebra mais agitada gera sempre um recomeço no espectador, e consequentemente pontas soltas (ou peças de um quebra-cabeças) perdem-se no processo de criação, especialmente pelo grande número de projeções-elipses. Por isso, “Madalena” é um filme forma. De ida e liberto demais no olhar-espionar.

Trailer

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