Luto Como Mãe

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Ficha Técnica

Direção: Luis Carlos Nascimento
Roteiro: Luis Carlos Nascimento, Fabian Remy, Julio C. Siqueira
Fotografia: Tiago Scorza
Edição: Fabian Remy, Julio C. Siqueira
Videografismo: André Vieira, Eduardo Oliveira, Stânio Soares
Trilha sonora: Daniela Pastore, JJ Aquino, Jomar Schrank
Produção executiva: Carla Afonso, Mércia Britto, Tatiana Moura
Produtores associados: Rodrigo Letier, Roberto Berliner
Apoio: Fundação Ford, Instituto Português de Apoio ao Desenvolvimento (IPAD)
Apoio Cultural: SEBRAE-RJ, SAAP/FASE
Duração: 70 minutos
País: Brasil
Ano: 2008
COTAÇÃO: ENTRE O BOM E O MUITO BOM

Apresentando a Sessão

“O documentário mostra a investigação de mulheres afetadas por óbitos masculinos. Com ideia concebida em 2004, foram quatro anos de trabalho, sem financiamento. O resultado é um filme que de fato demonstrasse a luta dessas mulheres, por uma causa não escolhida, ocupando espaço político que é essencialmente masculina. Único movimento social atuante e não socializado. Exibido na BBC e no Festival do Rio 2009, o filme agora estreia nos cinemas. Depois, televisão e home video (os maiores mercados)”, diz o diretor Luis Carlos Nascimento.

A opinião

Inicia-se com ensinamentos. O diretor explica como uma das personagens reais a usar uma camera. Explora a linguagem metalinguística, principalmente quando inclui o espectador nas imagens. Com dados estatísticos, de jornais O Povo, O Globo, O Dia e da Rede Globo, de assassinato, introduz-se a didática na narrativa comum e linear. Não é utilizado artifícios inovativos, privilegia-se a história que será contada. Mostra o processo do documentário. Caminha em uma linha tênue entre making of e finalização. “Brasil, o país da impunidade”, o movimento, foco em questão, grita para que a própria voz seja ouvida. O longa divide-se em três acontecimentos (casos). “Cada vez morrem mais jovens e aumenta o sofrimento também”, angustia-se.

A cidade do Rio de Janeiro, Brasil, é palco de execuções sumárias e arbitrárias cometidas por agentes do Estado. Cada morte arrasta consigo a dor de quem fica, afetando todo o seu círculo social, especialmente a família e amigos. O documentário “Luto Como Mãe” centra-se nas histórias destes sobreviventes, majoritariamente mulheres, e no seu rito de passagem do luto à luta por justiça e contra a invisibilidade.

“Martírio tudo de novo, por que não julgar tudo de uma vez?”, diz uma mãe esgotada. O primeiro caso: Mães de Acari, 1990. Em entrevistas, essas mulheres expurgam as suas dores para a tela, deixando a mensagem de que não desistirão nunca. “Não tinha como fazer. Não se podia diferenciar sangue de animal de humano”, conta uma mãe o que ouviu sobre o crime de seu filho. Elas prendem-se ao que conseguem. A imaginação da não desistência reverbera em premonições e dramas exacerbados. Nutri-se o sofrimento para que a causa não seja esquecida e perdida. “Não tem corpo, não tem crime, mas eu tenho certidão de nascimento”, revolta-se. “O tempo é ruim para nós”, complementa uma mãe sobre o esquecimento.

A narrativa, sóbria e direta, alfineta o desinteresse do resultado por parte contrária a da vítima. “Eu emocionalmente não sou ninguém”, desespera-se. Com imagens de uma Escola de Samba de Acari, o filme segue para o segundo caso: Via Show, 2003. “Há desavença entre Exercito e Polícia Militar”, diz-se e mostra o enterro com grande emoção. O longa busca a emoção e cutuca a dor, colocando o “dedo na ferida” e expondo as consequências desse ato. O objetivo é manipular os sentimentos de quem está sentado em uma cadeira de cinema. Há o apelo, nítido e explícito, por parte do roteiro, que quer de toda forma o incômodo.

“A pior dor do mundo é a de perder um filho. Não cicatriza nunca”, resigna-se, com voz embargada. “Somos ‘petequinhas’ (jogo de petecas). Joga pra lá, joga pra cá, mas a gente vai”, diz determinada outra mãe. As datas, dos julgamentos adiados, são explicitadas como calendários em movimentos, inferindo-se a uma máquina de caça níquel. “São negros, pobres e jovens”, resume-se a omissão. Há a inclusão de festas pessoais dos desaparecidos. São imagens de encontros familiares que sempre há uma camera VHS, as famosas filmagens.

O último caso: Chacina da Baixada, 2005. As mães acompanham o julgamento. Brigam, cantam, lutam, levantam cartazes. Elas se organizam com o que possuem. Há uma sutil percepção. Atrás de uma entrevistada, o espectador observa o livro com título em inglês “A direção mundial das minorias”. A vivência do mundo da violência é mais comum para quem comunga com a situação. Os crimes geralmente acontecem nas baixadas, comunidades carentes. Lá, supõe-se não haver voz, não haver resistência. Espera-se a subserviência, complacência e a repetição da máxima que esses jovens não esperam o futuro. Isso não é verdade. De caso a caso, de denúncia em denúncia, os rumos modificam-se. “Falta a classe pobre acreditar na força que tem”, argumenta-se. “Se botar a boca no mundo, acaba a matança”, complementa-se sobre a importância da mídia. “Estar na mídia ajuda muito”, diz-se.

Há discriminação e preconceito. Classe social e raça negra. As mães pressionam o sistema judicial. Querem modificar mentalidades, atos violentos recorrentes e injustiça já sabida. “Eu luto por justiça. “Eu era conivente com a cultura que se morreu pela mão da polícia, tinha algo”, uma mãe confessa suas crenças antes do sofrimento. “Esses criminosos são bandidos oficiais”, denuncia-se sobre policiais.

“Há descaso com a baixada. Preferem exterminar que cuidar, que investir”, diz-se. Com música “Pedaço de mim”, complementa imagens de fotos das vítimas desaparecidas. “Brigar não adianta de nada”, desabafa um passante. Tendo Glória Perez em um enterro, percebe-se o trabalha de “formiguinhas” delas. O espectador conhece a história e embarca nas dores apresentadas. Vale a pena ser visto. O filme peca pelo excesso de emoção e ou omissão de aprofundamentos. Mas a mensagem que fica é a da luta constante e necessária. O documentário serve de mais uma voz para a tentativa de modificar o sistema tão enraizado na violência passional do “nada vai acontecer para os criminosos”. Recomendo.

O longa foi realizado em parceria com CES- Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra (Portugal) e CESEC- Centro de Segurança e Cidadania da Universidade Cândido Mendes e conta também com o apoio da Fundação Ford , IPAD- Instituto Português para o Desenvolvimento, Sebrae/Rj e Fase.

O Diretor

Jovem diretor, iniciou sua carreira como produtor e escritor de teatro até a chegada do premiado filme “Cidade de Deus”, onde participou do elenco. Logo depois fundou, com a equipe de atores e diretores Fernando Meirelles e Katia Lund, a organização não-governamental Nós do Cinema. Hoje, a Escola Audiovisual Cinema Nosso dá lugar a esse pequeno projeto iniciado em 2000. Das obras teatrais ao cinema, o cunho social e ambiental tem marcado sua trajetória. Foi indicado ao prêmio personalidade destaque na utilização da tecnologia no combate a exclusão social do Museu de Tecnologia de Nova York, em 2004.

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