Looking For Venera

Em busca de alforria

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Roterdã 2021

Vencedor do Prêmio Especial do Júri da mostra competitiva ao Tigre de Ouro do Festival de Roterdã 2021, “Looking For Venera” é de Kosovo, mas com ares do cinema da Romênia, por apresentar diretamente sua narrativa não convencional, de ângulos estéticos, Há uma observação e uma estranheza, deslocada do tempo, que quer captar a naturalidade exata do momento. A espontaneidade mais interna. É também sobre o processo de amadurecimento da protagonista. Uma jovem em construção, receptora de novidades, sentidos e emoções. O filme, coral, por fragmentar instantes e focos em outros personagens, escolhe o pragmatismo teatral em seus silêncios, esperas e nos cortes bruscos. A fotografia, saturada a um envelhecimento amadeirado, de metáfora à brutalidade essência das relações humanas hierárquicas, como soldados devotos do seriado “Game of Thrones”, complementa o olhar de Norika Sefa, realizadora estreante na direção de longas-metragens, que vive em Praga e que filmou “Desde arriba (2020)”, sob orientação de Werner Herzog.

“Looking For Venera” quer a encenação percebida (elevando o tom ao over), tudo para “assoprar” antes de “morder” o espectador. É uma crítica a uma sociedade machista e patriarcal, que “resiste” ainda nos dias de hoje, apesar de todas as “evoluções” das espécies. Todos ali vivem em controle, entre mandos e desmandos. Mas Venera se impõe suas vontades, depois da “má influência” (“estrangeiras”) de uma “amiga livre demais”, a “rebelde” Dorina. Ela ao romper o bloqueio encontra novas formas de viver, além a do conservadorismo de tradição própria (regras, superstições, culpas religiosas e aparência-honra) em que é obrigada. Em um pequeno vilarejo em Kosovo (atemporal e de época indetectável), sem ordem social e sem leis. Cada vez nós nos acostumamos mais com seus comportamentos, ações, reações, impulsos e dominações. Suas descobertas, existenciais e sexuais, imprimem um molde de “Verão”, do russo Kirill Serebrennikov, e de “Sem Destino”, de Dennis Hopper.

O longa-metragem é acima de tudo sobre o livre-arbítrio da liberdade contra empíricos julgamentos, implicâncias retrógradas de seguir mandamentos condicionados. Será que a vontade de se ser livre de um não causa inveja no outro que não consegue? Lógico. Mas e se todos apenas se importassem com as próprias vidas e se esquecessem de tomar conta das alheias? Pois é, mas soa utópico e romântico demais, visto que estamos tratando de séculos em escravidão mental. Liberta-se não é assim tão fácil. Em uma das cenas, Venera desespera-se e em catarse questiona o porquê de tudo aquilo. É “surreal” e “sem sentido”.

“Looking For Venera” nos mostra que quanto mais alguém for pressionado, mais o desejo de ir se torna condicional. Em casa, três gerações que pensam diferente. Nas ruas, os “olheiros” da família e/ou conhecidos informantes. E no meio de tudo isso, Venera precisa manter a reputação, palavra que também quer dizer “renome, estima, fama”, de sua família, esta que em sua etimologia original da Roma Antiga significa “escravo doméstico”. Então devemos optar pela ideia-filosofia norte-americana de que “família é que se escolhe”? Venera não quer se tornar a mãe, uma “fraca covarde”. “Nunca vi meus pais se beijarem”, diz. A todo instante, ela é arrastada a questionamentos e dúvidas sobre amor e seu papel no mundo. Venera descobre que suas decisões são somente suas, mas para isso é preciso desconstruir o que já recebeu construído. Contudo, é possível que nossa protagonista em processo encontre a alforria plena, depois de perceber que ao entrar na sala todos os homens a olham com desejo? “Looking For Venera” é sobre a carga “carma” de ser mulher.

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