Mostra Um Curta Por Dia 2025

Lô Borges – Toda Essa Água

Força do vento

Por Vitor Velloso

Durante o Festival CineOP 2023

Lô Borges – Toda Essa Água

Exibido no frio da praça Tiradentes durante a 18a CineOP, “Lô Borges – Toda Essa Água”, de Rodrigo de Oliveira é um documentário que propõe um mergulho na carreira do personagem do título, conhecido por inúmeras composições inesquecíveis da música brasileira, e claro, pelo Clube da Esquina. 

Os primeiros minutos de projeção procuram entregar ao espectador um pouco da dinâmica de show de Lô, assim como a calorosa recepção durante as apresentações, mas rapidamente se volta a um universo mais particular do personagem, com histórias e confissões de como seu processo artístico funciona, além de frases que arrancaram alguma risada do público, como: “Eu tomava muito ácido”. Esse tom relativamente descontraído de algumas cenas, acaba sendo convidativo não só para os fãs de Lô e do Clube, mas para pessoas que desconhecem, ou conhecem pouco. Assim, existe uma espécie de didatismo na construção da figura principal, que lista suas principais referências, de Bossa Nova a Beatles, enquanto relembra encontros, desejos e sua obsessão por novas canções. 

Tudo isso é construído a partir de algumas entrevistas registradas para o próprio documentário, algumas de arquivos e muitas fotos/vídeos do passado. Essas escolhas acabam deixando o formato da obra um tanto burocrático e pouco criativo, o que é uma pena, já que muito do que se passa na tela envolve processo criativo de alguma forma. Isso não transforma “Lô Borges – Toda Essa Água” em algo necessariamente limitado, mas sim um filme que não cria grandes esforços para se adaptar às diferentes possibilidades da linguagem. E apesar do documentário possuir um vasto material de arquivo, possui uma grande dificuldade de se organizar entre a forte ligação regional das obras de Lô, seus trabalhos, os contextos e as amizades. Acaba recorrendo, com frequência, a alguns insert textuais bastante expositivos, que pouco acrescentam na compreensão geral. 

Por sorte, o protagonista possuía algumas frases realmente engraçadas e conseguia se tornar um foco maior que as fragilidades do filme, criando um clima mais agradável pro engessamento que estava sendo projetado. Outra coisa que atrapalhou a sessão foi a qualidade da projeção e especialmente do som. Foram algumas interrupções na imagem, cena que estava sem som e teve que ser projetada novamente, áudio estourando entre outras dificuldades. Além de quebrar a experiência do espectador, a sessão, tratando-se majoritariamente de música, foi bastante prejudicada e acabou frustrando algumas pessoas da imprensa que estavam presentes. 

Essas questões, acabaram suspendendo a imersão, mas seria injusto não reconhecer o esforço da produção em conseguir utilizar-se do material de arquivo para abarcar a maior quantidade possível das obras de Lô, explicar suas referências, origens e traçar a personalidade do artista a partir de uma perspectiva bastante pessoal. Seja com Milton falando sobre sua amizade, ou o breve encontro com o filho, Lô se torna uma figura humanizada diante dos olhos de um espectador que procura compreender as etapas de sua vida. Escutar o protagonista falar sobre música pode ser um prato cheio para quem tinha interesse na construção dessa carreira e como uma biografia, acaba se tornando um pouco maçante, mesmo que seu foco esteja na caracterização de um trabalho incessante, que compreende um recorte temporal bastante largo. 

“Lô Borges – Toda Essa Água” é menos criativo que poderia, tratando-se de uma temática que recorre à isso com constância, menos dinâmica que deveria, já que o ritmo é parte fundamental de seu objeto, mas é um documentário eficiente em suas características expositivas e didáticas, mesmo que com alguns excessos. Foi capaz de levantar o público com a nostalgia ali presente, seja com o “disco do tênis” (1972) ou mesmo a cantoria generalizada que fez o público da praça levantar de suas cadeiras, bater palmas e cantar junto o encerramento da projeção. Em uma experiência distinta, com menos problemas na imagem e no som, pode ser um filme menos fragmentado do que a sensação passada durante a CineOP. 

3 Nota do Crítico 5 1

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