Link Perdido

Quase Abominável

Por Jorge Cruz

Link Perdido” é o quinto longa-metragem do estúdio Laika, que comemora em 2019 dez anos de sucesso de seu primeiro projeto, “Coraline e o Mundo Secreto”. Dessa vez, o roteiro de Chris Butler – também diretor do longa – se utiliza da comédia fácil e das piadas pouco inteligentes na tentativa de criar um entretenimento mais inocente do que a média das obras anteriores. Bem diferente da outra fez em que Butler exerceu essa dupla função, no filme de 2012 “ParaNorman”.

As construções dos personagens são bem simples, pautadas em caricaturas ou impressões que em nenhum momento são falseadas. Na cena inicial, por exemplo, o explorador Lionel Frost (Hugh Jackman) participa de uma perseguição para obter o registro fotográfico de um peixe. Logo em seguida temos certeza das boas intenções e do amor pelos animais do personagem, afastando qualquer risco de vilania. O antagonismo é tão mastigado quanto, criando um mundo em que não há meio termo. Se em “Kubo e as Cordas Mágicas” cada inserção de elementos carregava um significado, usando as cores, as formas e os movimentos como conectores da história, aqui há pouca inspiração da equipe de animadores. 

Aliás, Kubo foi a única das quatro produções anteriores do estúdio a não atingir 100 milhões de dólares de bilheterias (arrecadou 75, sendo que todas elas tiveram orçamento de 60 milhões). Dessa vez, até por conta da contratação de nomes de peso para as vozes em inglês, pela primeira vez a Laika produz um filme de 100 milhões de dólares de orçamento. Lançado nos Estados Unidos em abril de 2019, o fracasso foi retumbante: apenas 16 milhões de renda. No mercado internacional, até o momento da estreia no Brasil, não chegou a 10 – perda que pode colocar em risco o futuro da empresa.

Dentre os poucos destaques a utilização de tons e movimentos mais sóbrios na fase inicial do longa-metragem, que se passa na Europa, contrasta com colorido e ações mais exageradas quando Frost recebe a correspondência de Link e viaja para Washington. “Link Perdido” parece uma boa ideia extraída de mesa de bar, já que muito do poder de sua história reside no título. Utilizando a premissa de um aparente grau de parentesco entre o Sasquatch, ou Pé-Grande, com o Yeti tibetano, a trama tenta criar um link entre dois extremos geográficos – criando um filme de aventura com essa premissa.

A única camada mais atrativa dos personagens é do próprio Lionel. Mesmo reconhecido por sua competência, ele se sente desprestigiado por não fazer parte do grupo de homens notáveis, uma motivação até tacanha mas que acaba sendo válida para encontrar uma mensagem edificante ao final. Já o Sr. Link (Zach Galifianakis) é o protagonista-piada e que faz graça de uma só maneira. Para justificar sua interação social perfeita o texto da obra se faz valer do conceito de mimese comportamental. Esse reducionismo só poderia render uma modalidade de humor: a que depende da interpretação literal de tudo o que se fala ao Pé-Grande. 

O roteiro exagera na maneira como se vale da piada rasteira, deixando passar boas oportunidades de mergulhar na personalidade dessa figura. No pouco que Link verbaliza sua motivação, podemos perceber sua sensação de deslocamento do mundo, uma vez que é sempre o ser caçado. Essa conclusão é agravada pela ideia de que o ambiente que ele conhece como seu passa por um processo de destruição. A arte do filme até tenta materializar isso com uma cena inteira que tem como fundo centenas de árvores cortadas. Só que todo esse potencial se esvai em mais uma sequência de momentos vídeo-cassetada, afastando o espectador de qualquer reflexão.

Mesmo quem começa a assistir no meio da projeção deve ser capaz de antecipar a próxima gag por força das bolas telegraficamente levantadas pelo escada da vez. Adelina (Zoe Saldana) não recebe quase nenhuma atenção, escorrendo pelos dedos qualquer questão de gênero que poderia ser trabalhada. Um gracejo do roteiro flana sem objetividade em determinado momento da história: ao ser indagado sobre um nome “humano” a ser escolhido por Link, ele diz querer ser chamado de Susan, para estranhamento apenas momentâneo de Frost. A forma como os personagens naturalizam essa decisão é capaz de gerar opiniões completamente antagônicas. Há quem diga que evocar um debate que não será desenvolvido é perda de tempo e há quem admire que haja essa inclusão sem julgamentos, deixando ao público trabalhar isso em sua cabeça.

O clímax de “Link Perdido” é bem longo para os padrões das animações infantis. Contradiz até a ligeireza do roteiro, que prioriza a dinâmica da comédia em detrimento de todas essas possíveis construções, como já foi dito. Ao mesmo tempo que entrega a emoção que praticamente não existe ao longo dos atos que o antecedem, a maneira como destoa do ritmo do longa-metragem corrobora a tese de que a Laika nunca esteve tão perdida nessa primeira década de existência.

 

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